“É chegada, dizem-me, a hora de partir”

JFJF despedida

Ninguém pode esperar eternizar-se num qualquer sítio, porque tudo é passageiro. Mas a coluna do Joaquim Fidalgo tem sido – era? – um dos espaços de respiração do Público. Nos assuntos, no registo de abordagem, na qualidade da escrita. Um exemplo de crónica.
Ignoro (escrevo, surpreendido por este parágrafo final da coluna de hoje, às 2 da madrugada) ignoro, dizia, os motivos invocados para levar JF a dizer discretamente ‘até logo’ aos leitores. Dizem-lhe que é chegada a hora de partir.
Lamento muito que assim seja. Julgo não ser o único.

Mas, que diabo, será este um assunto que apenas à Direcção do Público diz respeito? E aos leitores do jornal ninguém deve explicação? Eu, que pago a assinatura, gostava de a ter.

(Crédito da foto: PÚBLICO)

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O DN e o Público perante o ranking das escolas

O Público tem anunciado para sexta-feira próxima a publicação do seu ranking de escolas, depois de ter criticado duramente a ministra da Educação por ela não ter seguido, este ano, a prática de dar com antecedência, relativamente à deadline de embargo, acesso à base de dados sobre o assunto.

Escreveu José Manuel Fernandes, em editorial:

“A ministra, que sabe trabalhar com estatísticas, deveria perceber que, (…) para apresentar resultados fiáveis e sérios é necessário submeter a “um conjunto de testes estatísticos” as tabelas que os computadores nos fornecem. Mais: tinha obrigação de saber que, se alguma coisa nos mostra a experiência iniciada em 2001, é que a imprensa pode acrescentar valor se tiver oportunidade de visitar as escolas que se destacam pela positiva e pela negativa, divulgando casos de boas e más práticas. Isso também exige tempo. Sendo tudo do mais elementar bom senso, a escolha do Ministério foi a de disponibilizar os dados em bruto e, assim, dizer à imprensa que venceria quem os tratasse mais depressa. Mais depressa não é sinónimo de melhor. Optar pela correria é optar pela ausência de ponderação, de aprofundamento, o que está bem se preferirmos o jornalismo tablóide, não se escolhermos qualidade e rigor. O PÚBLICO recusou este jogo (…)”

O DN, por sua vez, forneceu, em caderno especial publicado na última quinta-feira, o seu próprio ranking e aproveitou a oportunidade para enviar várias indirectas ao seu concorrente.

“Se dependesse apenas de nós, teríamos publicado a informação integral ontem. É isso que exige o compromisso que assumimos com os leitores: dar-lhes informação relevantes sempre que a tivermos à nossa disposição, e o mais rapidamente possível. Publicar este suplemento daqui a uma semana ou seis meses nunca foi opção. Esses são prazos académicos, não jornalísticos. Por isso, no primeiro dia publicámos a informação essencial e hoje aprofundamo-la. Além disso, o DN não tem, em momento algum, a arrogância de querer impor os critérios que escolheu como correctos. Porque critérios são apenas isso: critérios. Todos subjectivos, todos frágeis, todos iguais, pelo facto de serem aplicados a uma base meramente numérica(…)”.

É certamente discutível este argumento de que os critérios sejam todos iguais. São seguramente discutíveis, como discutível é o do próprio DN e discutível será o que o Público irá utilizar no seu trabalho. Mas é também certo que o DN fez o seu trabalho o melhor que foi capaz (é gratuita – pelo menos quando afirmada sem provas – a insinuação de que este jornal terá tido acesso à informação do ME em condições vantajosas).

E dá-se este facto curioso e original: hoje mesmo, o Público traz duas peças de colaboradores seus – Vital Moreira e Rui Tavares – a comentar os rankings, antes de o jornal ter dado aos seus leitores os elementos informativos sobre os quais os comentários são tecidos.

Enquanto ficamos à espera do tratamento dos dados e do(s) ranking(s) do Público, uma pergunta fica, desde já no ar: que balanço fará a Direcção do jornal da opção editorial que tomou?

O efeito dos jornais gratuitos

Ângelo Paupério, presidente executivo da Sonaecom, no relatório de contas da empresa, referente ao terceiro trimestre de 2007:

“O Público continuou a ser pressionado por um mercado muito exigente e com uma margem de crescimento bastante restrita. Depois de completar o seu processo de reestruturação, com uma poupança visível ao nível dos custos fixos, e depois do relançamento do novo jornal, o Público continua a enfrentar dificuldades no crescimento das receitas, em particular das receitas de publicidade, que sofrem o efeito da pressão dos níveis de circulação por via da concorrência gerada pelos jornais de distribuição gratuita. Pretendemos continuar a concentrar-nos na melhoria do desempenho comercial do Público, tanto em termos de circulação, como das receitas de publicidade.”

O relatório está disponível aqui para download (em pdf).

‘Sexta’ marca a diferença?

Marisa Torres Silva tem estado a acompanhar para este blogue os principais lançamentos de gratuitos, que têm ocorrido ao longo deste ano. Aqui estão as suas anotações relativamente à iniciativa mais recente, que começou a ser distribuído na zona de Lisboa:

Photo Sharing and Video Hosting at PhotobucketMais um gratuito a juntar à “colecção” – depois do lançamento do Global Notícias, do grupo Controlinveste, chegou ontem às bancas o primeiro semanário destas características, de seu nome O Mundo à Sexta, ou simplesmente Sexta. O projecto conjunto do Público e de A Bola é bastante ambicioso, a começar pela própria tiragem: 350 mil exemplares. Também a presença da publicidade é forte (como aliás seria de esperar), com 12 páginas inteiras, num total de 40, além de outros anúncios. O novo título partilha recursos humanos, logísticos e de conteúdos com ambos os jornais, mas não se limita, como acontece no Global, a ser um “digest” das notícias publicadas nesses meios.
De acordo com o que escreve o director, João Bonzinho, o Sexta será um jornal “com notícias mas não um jornal de notícias”. Isto para mostrar que a novidade do título não é propriamente a actualidade “pura e dura”, mas sim os assuntos e as matérias, ainda que actuais, de que os “outros” falam menos.
Olhando para o primeiro número, há que referir um aspecto, no mínimo, curioso: a grande presença de efemérides. Senão, vejamos: os 252 anos passados do Terramoto de 1755, na secção “País”; os 140 anos da compra do Alasca dos E.U.A. à Rússia e o balanço dos cinco anos de presidência de Lula da Silva, na secção “Mundo”; o centésimo jogo de Figo na Liga dos Campeões, na secção “Desporto”; ou o 40º aniversário de Julia Roberts, na secção “Artes”. Isto além de notícias já “mastigadas”, como o acordo do Tratado Europeu ou o primeiro voo do Airbus 380.
A questão que se coloca é simples: será que a utilização de “cabides noticiosos”, por si só, marca a diferença e constitui de facto uma abordagem alternativa da realidade? Para se distinguir efectivamente dos “outros” (Gratuitos? Diários e semanários pagos?), o Sexta ainda tem um longo caminho a percorrer…

Marisa Torres da Silva

Jornalismo e participação dos cidadãos

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket Acaba de ser publicado online o pequeno livro “Alternatives on media content, journalism and regulation – The grassroots discussion panels at the 2007 ICA Conference“, editado por Seeta Peña Gangadharan, Benjamin De Cleen e Nico Carpentier. O trabalho resultou de um dos painéis do congresso da International Communication Association realizado no passado mês de Maio em Chicago.
Nico Carpentier explica a génese da publicação:
“(…) we came up with the idea to organize three so-called grassroots discussion panels, bringing in activists and alternative media people into the ivory tower that academia often still is. Our aim was to organize a dialogue between the people that actually organize, realize, and live the participatory and bottom-up processes that we so eagerly analyze. By asking a wide variety of people from the evenly diverse alternative (or counter-hegemonic) worlds, we maneuvered us academics in the position of the audience, which was (at first) forced to listen to the presentations of our guests. And we were silent, and listened to the fascinating stories about how civil society intervened (sometimes successfully, sometimes less successfully) in the creation of alternative content, in the organization of alternative journalisms and in the attempts to influence the regulation that impacts upon the communicative processes. Only after the presentations, our and their questions came, in successful attempts to discover the areas where our interests met. We found many. When looking back at these dialogues, we decided that the civil society narrations were too relevant and too fascinating to leave them unpublished. Hence this book (…)”.

Na mesma colecção havia sido já publicado o livro “Researching Media, democracy and participation. The intellectual work of the 2006 European media and communication doctoral summer school“, editado por Nico Carpentier, Pille Pruulmann-Vengerfeldt, Kaarle Nordenstreng, Maren Hartmann, Peeter Vihalemm and Bart Cammaerts.

Web 2.0 – questionando o pessimismo de alguns

A revista “Textos de la CiberSociedad” acaba de publicar (em catalão) La Web 2.0 com a distopia en la recent Internet“, da autoria de Antonio Cambra González. O artigo tem o interesse de  incluir já alguns dos questionamentos recentes colocados ao conceito de web 2.0, proposto por O’Reilly, em 2005, como, por exemplo, os formulados por Andrew Keen, em The Cult of the Amateur.

O autor sustenta que é possível ter em conta os contributos e desafios formulados por alguns  críticos do conceito (e desta dimensão da internet, que para alguns é tida como deriva cultural), sem cair no ‘pessimismo’.