Dos jornais de hoje

Liberdade e escolha

“Ter liberdade é poder escolher, mas não é só a liberdade que permite as escolhas; são também as nossas escolhas que geram a liberdade, que destroem os muros que de outra maneira se vão fechando sobre nós.
A escolha implica um desejo, um sonho, e não vale a pena tentar olhar para o futuro se não soubermos aquilo que queremos construir, se não soubermos em cada gesto salvaguardar os bens que queremos e recusar o odioso”.
(…)
“Quantos inocentes achamos aceitável que morram em Gaza? Durante quantos anos achamos aceitável que o Médio Oriente continue mergulhado nesta guerra suja? Dez anos? Para sempre? Ou a pergunta não faz sentido porque a resposta nos é indiferente? Se conseguirmos responder a estas perguntas poderemos saber o que queremos escolher e o que não estamos dispostos a aceitar, o que nos parece desumano, errado”.

José Vítor Malheiros, Público, 31.12. 2008

Notícias de 2009

“Nas previsões mais pessimistas para 2009, há uma espécie de optimismo ao contrário: a de que o ano novo nos trará, a bem ou a mal, um mundo novo. Queremos notícias sensacionais, mesmo que más: a crise no seu auge, uma grande decisão dramática de Obama, uma convulsão política em Portugal. Desde 2001 que andamos preparados para um apocalipse. O Iraque prometia uma catástrofe vietnamita: tudo acabou, no entanto, com um acordo de retirada. Al Gore, com o seu aquecimento global, também gerou esperanças – mas afinal, continua a chover e a fazer frio. Muito provavelmente, 2009 irá decepcionar-nos. Continuaremos à espera do “pior da crise”, Obama conservará o seu mistério, e as sondagens recusar-se-ão a alegrar a oposição portuguesa. A pior notícia talvez venha a ser a falta de grandes notícias”.

Rui Ramos, Público, 31.12.2008

O condão do sofrimento

“O sofrimento tem o condão de acordar o que de mais profundo há em nós, a nossa irracionalidade. O instinto de sobrevivência está para além do bem e do mal, das boas e das más intenções. Na Palestina, dois povos, o palestino e o israelita, lutam há décadas pela sobrevivência. A humilhação diária de um e o medo do outro são péssimos conselheiros. O desafio da Razão é fazer um e outro compreender que só sobreviverão juntos”.

Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 31.12.2008

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Complexidades do jornalismo: um caso com The Guardian

No próximo número de “The New York Review of Books” vem publicado um texto do director do diário Guardian que deveria ser lido e debatido em todas as redacções, bem como nas escolas de formação de jornalistas.

A peça de Alan Rusbridger, intitulado “A Chill on ‘The Guardian’“, refere-se a um embróglio em que o jornal se viu metido desde a Primavera deste ano, depois de uma investigação jornalística sobre alegadas estratégias do grupo multinacional de alimentação Tesco de fuga aos impostos. Os trabalhos jornalísticos publicados viriam a revelar-se incorrectos em vários aspectos significativos, apesar de os jornalistas envolvidos serem especialmente especializados e credenciados.  O jornal pediu desculpas públicas por duas vezes, mas isso não impediu o grupo de ter insistido em accionar um pesado processo judicial por difamação que, depois de muitas peripécias e gastos astronómicos em advogados, consultadorias e diligências super-especializadas, até acabou em bem para o jornal.

O caso é interessante por vários motivos:

– a alta complexidade dos hiper-poderes e das engenharias financeiras a que deitam mão, fora do alcance da maior parte dos jornalistas, mesmo especializados;

– o tempo e dinheiro que um meio de comunicação terá de gastar para investigar e dar conta ao público daquilo que, de outra forma, permanecerá na sombra;

– os riscos que corre quem se atreve a trilhar esses caminhos, incluindo o de afrontar múltiplas equipas de poderosos consultórios de advogados e de consultadoria financeira (e a correlativa falta de accountability com que podem contar os protagonistas desses poderes);

– A natureza e alcance das leis relativas à difamação, variáveis de país para país, dando umas mais chances ao trabalho dos jornalistas e outras mais aos que se acham vítimas daqueles;

O caso de The Guardian foi desencadeado antes da emergência da presente crise, que tem fustigado de modo particular o Reino Unido. Imagine-se a dificuldade de cobrir os meandros, natureza e alcance da crise!

Texto de apoio: Tambini, D. (2008) “What is Financial Journalism for ? Ethics and Responsibility in a time of Crisis and Change: A Polis Report”, London School of Economics

Teoria matemática da comunicação faz 60 anos

Passam este ano 6o anos sobre a publicação do célebre texto de Claude Elwood Shannon “A mathematical theory of communication”, que tanto iria marcar as concepções e aplicações da informação, na segunda metade do séc. XX.
O artigo foi originalmente publicado nas edições de Julho e Outubro de 1948 do “The Bell System Technical Journal”, aparecendo a teoria associada também aos nomes de Warren Weaver e Norbert Wiener.

Põe o foco em conceitos e dimensões como entropia, ruído, transmissão, (de)codificação, sinal, sistema de informação. A designação da teoria é, ela própria, criadora de ruído, visto que, mais do que teoria da comunicação, é uma teoria da informação (e de um certo conceito de informação). Mostra-se distante de uma concepção dialógica de comunicação e indiferente aos aspectos semânticos. Logo a abrir o texto fundador, escreve Shannon:

“O problema fundamental da comunicação consiste na reprodução exacta ou aproximada, num determinado ponto, de uma mensagem seleccionada num outro ponto. Ocorre com frequência que as mensagens possuem significados (…)  Estes aspectos semânticos da comunicação são irrelevantes para o problema da engenharia”.

(Via: Media Trend)

Jornalistas presos: online já lidera

Alguns indicadores de tendências revelam que. em várias partes do mundo, os debates sobre quem é ou não é jornalista é secundário face àqueloutro sobre quem se atreve a dar notícias e publicar comentários de interesse público que desagradam aos poderes instalados.

Os dados divulgados no início deste mês pelo Committee to Protect Journalists indicam que, pela primeira vez, o número de “jornalistas” online presos (56) por delito de opinião e informação ultrapassou o de qualquer outro meio (53 os de imprensa, seguidos a grande distância pelos de outros meios).
A China continua a liderar nesta tabela, acompanhada por países como Cuba, Burma, Eritreia e Uzebequistão.

Querer saber e querer ignorar

“Têm-se infelizmente esquecido algumas preciosas lições de Freud sobre o papel decisivo que a cegueira tem na vida psíquica da humanidade, sobre a ambivalência estrutural entre dois pólos, o de querer saber e o de querer ignorar, que caracteriza o ser humano. E são muitas as situações, nos mais variados planos da vida, em que a eficácia da conduta humana depende justamente da cegueira em que ela assenta”.

Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 27.12.2008

Ano de 2008 em imagens

reuters-luiz-vasconcelos-a-criticaaeO blogue “The Big Picture – News Stories in Photographs”, do Boston.com, publicou, nos últimos dias , uma espécie de balanço do ano em imagens. Uma escolha destas é sempre discutível, mas vale a pena ver:

Já agora, para quem se interessa pelas viagens espaciais do vaivém da NASA, merece a pena dar um salto ao post que retrata em imagens um ciclo completo da Endeavour, incluindo uma aterragem na base área de Edwards, na Califórnia, e o seu transporte, acoplada a um Boeing 747 modificado, para a base no Centro Espacialo Kennedy, na Florida.

(Crédito da Foto: REUTERS/Luiz Vasconcelos-A Critica/AE)

Panorama da Internet no Mundo

A Internet World Statistics acaba de divulgar os dados mais recentes relativamente ao crecimento e grau de penetração da Internet no Mundo.  Tanto os dados globais como as distribuições pelo tempo e pelo espaço são altamemte reveladores – da velocidade do crescimento, por um lado, e das assimetrias da distribuição, por outro.

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Fonte: Internet World Stats (Dados dos utilizadores em milhões)

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