Que fazer com os comentários?

ImagemO Diário de Notícias decidiu, por estes dias, passar a sinalizar todas as caixas de comentários com a seguinte advertência: “Conteúdo eventualmente ofensivo“. Na mesma nota, diz-se que “as opiniões, informações, argumentações e linguagem utilizadas pelos comentadores desse espaço não refletem, de algum modo, a linha editorial ou o trabalho jornalístico do Diário de Notícias” e esclarece-se que os textos “podem, por vezes, ter um conteúdo susceptível de ferir o código moral ou ético de alguns leitores“, pelo que “o Diário de Notícias não recomenda a sua leitura a menores ou a pessoas mais sensíveis.”
No espaço semanal de comentário que tem na SIC-Notícias, Pacheco Pereira disse que se tratava de uma postura hipócrita. Concordo. É mau demais não gerir (por opção ou por limitação de meios) os comentários mas é bem pior assumir relativamente ao delicado assunto uma postura declarada de rendição. O DN desistiu sem sequer ter tentado.
O problema que está na origem de tão bizarra atitude não é novo e não é apenas nacional. As soluções encontradas pelas empresas são muito diversas mas para algumas a guerra está longe de estar perdida.
Como explica o Provedor do Leitor do Washington Post, Patrick B. Pexton, (sim, o jornal que está a crescer substancialmente na web às cavalitas da opção errada do NYTimes) a empresa precisa de continuar a dar atenção (com moderação sensata, diz) aos espaços de comentários:
I think that in the messiness lies virtue. Online commenting boards are an online speaker’s corner and free-speech release valve.They’re also a real-time correction and information-gathering mechanism.”

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Jornalismo e xenofobia

O título principal da capa do JN desta segunda-feira consegue discriminar, numa mesma frase, mulheres e nacionais do leste europeu. Ao escolherem a manchete “Melhores carteiristas são mulheres do leste”, com o subtítulo “JN surpreendeu em plena ação em Lisboa sofisticadas ladras, na maioria oriundas da Roménia e da Eslovénia”, os editores do Jornal de Notícias colaboraram para fomentar o xenofobismo.

O jornal, ao classificar criminosos de acordo com a nacionalidade e o género, prestou um desserviço, cujas consequências certamente estão agora a ser sentidas pelas mulheres do leste que não se enquadram no perfil de “sofisticadas ladras”, mas que emigraram dos seus respetivos países para em busca de uma vida melhor.

A responsabilidade ética perante a sociedade é uma das mais nobres qualidades de um bom jornalista. A discriminação torna o jornalismo sofrível.

Cabe lembrar aqui o Código Deontológico do Jornalista, que diz, em seu artigo 8º:

“O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidade, ou sexo.”

Os ‘Thatcher wannabees’ e os média

A Grã- Bretanha, liderada por um governo conservador, está envolta numa recessão mais longa do que previsto e a solução adoptada parece continuar a centrar-se no corte substancial da chamada ‘despesa do Estado’. Quando o governo de Londres fala em ‘despesa do Estado’ junta à expressão a ideia de desperdício, de gestão ineficiente, de ‘gordura’. Nos últimos anos, esta estratégia transformou por completo – para pior, para muito pior – setores tidos como exemplares no país que, no ínicio do século passado, deu ao Welfare State um formato que viria a ter enorme influência na criação dos sistemas de apoio social na Europa. As universidades deixaram de ser entendidas como um serviço da comunidade ao serviço da comunidade, passando a ser, em vez disso, um negócio (como quase qualquer outro) pelo qual as famílias podem optar se para isso tiverem disponibilidade (como já fazem na compra do automóvel, ou do aparelho de TV). Os hospitais enfrentam cortes severos e os transportes públicos são já tão caros que se tornam impeditivos para muitos cidadãos.
A Grã-Bretanha fez tudo isto, apesar de ter à sua disposição um mecanismo de que países da zona Euro já não dispõem – a política monetária.
O orçamento para 2012, agora apresentado, dá mais um passo em frente numa estratégia que parece existir sem qualquer avaliação de resultados – propõe o alargamento dos cortes às pensões.

É um estilo de gestão que, infelizmente, tão bem conhecemos – o fazer ‘porque sim’. Sem mais.

Onde está, então a diferença substancial entre o que faz o governo conservador britânico e o que faz o ‘sabe-lá-ele-bem-o-que-é’ governo nacional?
Está na forma como as medidas são apresentadas pelos média e na forma como são debatidas em público.

Deixam-se aqui, para apreciação, imagens de algumas das primeras páginas de hoje:

A democracia tem destas coisas: um like é um voto

A participação está na moda. Tão na moda que quem não participa não é cool, não está in. É democrático. É bonito. Mas merece ponderação. Digo eu. Haverá diferença entre escolher o nome para um novo iogurte ou decidir limitações ao trânsito no centro da cidade?

A democracia tem destas coisas. Se participamos, somos engajados e motivados, adquirimos de algum modo um grau extra de cidadania. Se não participamos e somos apenas cidadãos no número e no papel perdemos o direito moral à cidadania. Mas devemos questionar que tipo de participação é esta e que tipo de cidadania queremos e merecemos.

As instituições desdobram-se em acções, actuações e iniciativas para promover a participação, potencializada pela procura de formas alternativas nas novas tecnologias mas também no acesso deliberativo. É democrático. É bonito. Mas merece ponderação. Digo eu. Haverá diferença entre escolher o nome para um novo iogurte ou decidir limitações ao trânsito no centro da cidade?

Moralismos àparte, a participação tem a sua dose de perversão, não sendo a sua instrumentalização como legitimação do poder a menor de todas.

É por isso que eu, que vivo no norte, acabo de participar numa decisão que não me diz respeito, votando no logo que servirá de imagem e identidade ao Orçamento Participativo de Lisboa 2012. Não me diz respeito porque, não vivendo lá, não tenho nada a ver com o assunto. Ou, sendo Lisboa a capital, talvez eu me me possa considerar uma cidadã de Lisboa, agora que todos somos cidadãos do mundo?
Isso não interessa nada. Eu participo porque posso. Eu e toda a gente que vá à página do Facebook “Concurso de Imagem Orçamento Participativo de Lisboa”. Um like é um voto. E um voto é uma tomada de decisão.
Ou talvez seja apenas o reforço de uma velha constatação:
“A democracia é tão somente um mecanismo de mercado: os votantes são os consumidores; os políticos são os empresários.”
Crawford Brough Macpherson in A democracia liberal: origens e evolução, 1977

Jornalismo: lendo sinais

Dois casos recentes do jornalismo gostaria de aqui evocar hoje. O primeiro foi protagonizado pelo número da revista Time com data de 5 deste mês. A sua capa continha, sobre fundo branco, as fotos tipo passe de 20 pessoas e, em título: “Eu decido: por que os latinos decidirão a escolha do próximo presidente”. Nos dias imediatos à saída do texto, levantou-se na Internet um enorme sururu, não tanto motivado pela relevante matéria tratada no texto, mas por um pormenor da capa. Alguém reconhecera num dos alegados ‘latinos’ anónimos, a cara de alguém que não era de origem ‘latina’ (significando nos Estados Unidos da América, regra geral, originário de países da América Latina).


O segundo caso vem no número de Março do jornal “Madeira Livre”, do PSD daquela Região Autónoma. Traz na última página cinco fotos igualmente tipo passe de outros tantos jornalistas e sobre elas este título: “São estes indígenas que também viram contra nós a opinião pública do continente”.
No primeiro caso, jornalistas são autores de um erro, que poderíamos classificar, apesar de tudo, venial, descoberto e ampliado por leitores atentos (e, não raro, mais dados a comentar o secundário e até anedótico do que o essencial); no segundo caso, são jornalistas o bode expiatório de um regime de condicionamento a que nenhum poder se atreve a pôr cobro.

Dois pequenos sinais, duas metáforas de outros tantos problemas que, numa escala maior, afectam esse bem essencial e complexo para as democracias, que é o jornalismo.
Todos sabemos que vive dias muito difíceis e que as dificuldades podem ser a sua sepultura, se ficarmos quedos, ou a sua reinvenção, se agarrarmos a oportunidade que nos é dada. Ora, teve início esta semana, em Coimbra, um ciclo de debates e auscultações sobre o futuro do jornalismo, conduzida sob a animação de um jornalista de referência como é Adelino Gomes, que percorrerá o país até ao próximo Outono, reunindo cidadãos, investigadores, estudantes e … jornalistas. Estes últimos, porém, não foram muito notados nas duas sessões que já decorreram. Qualquer mudança não se poderá fazer sem os jornalistas. Mas para isso, é naturalmente preciso que eles a queiram fazer. O jornalismo lê sinais e interpreta a actualidade. Há que ler também os sinais do jornalismo.

(Texto publicado na edição de hoje do jornal Página 1, da Renascença)

Complemento:

  • Sobre a capa da Time, ver uma leitura que segue uma direção distinta e mais aprofundada da que aqui faço, neste artigo de Eugênio Bucci, intitulado “Imagens invisíveis“.
  • Sobre o caso do “Madeira livre” (!), o Sindicato dos Jornalistas emitiu um comunicado em 1 deste mês, no qual denuncia “uma tentativa de condicionamento da liberdade dos jornalistas” que ” pode constituir uma instigação, nomeadamente para os militantes e simpatizante do PSD-Madeira, à perseguição dos jornalistas visados, ou pelo menos uma indicação implícita a atitudes incorrectas para com os visados”.

Onde está a revista do Expresso?

Este fim de semana vinha, com o jornal Expresso, uma publicação semelhante às que estão disponíveis de graça nos escaparates de entrada dos supermercados.
Deve ter sido engano.
A Direção do jornal – que talvez tenha perdido tempo demais a deliberar sobre se considerava ou não uma resposta de Luís Marinho a Miguel Sousa Tavares como ‘uma resposta’ (no sentido legal, que lhe concede direitos especiais de publicação) – também precisava de olhar com atenção para os problemas sérios que o jornal aparenta estar a enfrentar na zona de acondicionamento final do produto.
Vejam lá isso, por favor…

Um livro sobre rádio!!!

ImagemSão tão poucos os livros publicados sobre rádio que, quando aparece um novo título, é um motivo de grande regozijo para os que se dedicam a esta área dos media. A mais recente publicação é a de João Paulo Meneses e problematiza a história da rádio. Estudos sobre a rádio. Passado, presente e futuro está publicado pela Mais Leituras e reúne em mais de duas centenas de páginas trabalhos diversos do jornalista que é também autor de uma das poucas teses portuguesas sobre o meio radiofónico.