“Antena aberta” ou fechada?

Se bem entendi José Nuno Martins, no seu programa de sábado, ele considera, enquanto provedor do ouvinte, que não compete à rádio pública ter na sua grelha de programação programas de microfone aberto, dirigidos à participação do cidadão comum. O caso que motivou a ‘deliberação’ do provedor foi a edição do programa “Antena Aberta”, emitido pela Antena 1, em 4 de Julho último.

José Nuno Martins  – que se debruçou sobre o assunto ao longo de quatro semanas – entende que a linguagem, o insulto, o abuso de identidade e, por conseguinte, o risco de o espaço da antena poder ser utilizada para fins que não o do debate dos assuntos de actualidade e a não interferência do condutor do programa o tornam impróprio para a RDP.

Diz que a rádio pública tem outras formas de fazer participar os cidadãos (bem conhecidas na casa, ainda que sem as explicitar), considerando também que programas de tipo fórum são próprios de quem quer caçar audiências e, logo, mais adequadas a estações privadas.

Não sigo a posição do provedor do ouvinte. Entendo ser vantajoso e salutar que a rádio pública disponha de programas do tipo da Antena Aberta. Quer neste quer no Fórum da TSF, é verdade que por vezes se ouvem enormidades; que não raro se torna penoso acompanhar certos pretensos contributos; que é fácil a grupos organizados manipular a participação enviesando-a a favor de certas agendas particulares.

Mas isso não lhes tira, a meu ver, o interesse e o papel que têm (ou que podem ter) em fazer ouvir outras vozes nas grandes rádios. Tais programas, ainda que com uma ‘estética sonora’ que por vezes deixa a desejar, são uma manifestação – ambígua, é verdade – do país que somos. Não vale a pena escamotear a realidade.

Que possa ser feito um esforço no sentido de qualificar esses tempos de emissão, parece-me necessário e desejável. Assim como acautelar manipulações ou ofensa de direitos de terceiros. E aí talvez a RDP devesse procurar distinguir-se e renovar o modelo. Acabar com o espaço seria empobrecer a participação dos cidadãos e a democracia. Um tal sinal, dado precisamente pela rádio pública, seria um péssimo sinal.

Complementos:

Hierarquias da informação televisiva

“[O] herói português da semana é Pedro Santana Lopes. (…) Quem aqui viesse e verificasse como o país se indignou tanto por ter havido um momento em que se eclipsaram as elucubrações de Pedro Santana Lopes sobre os “problemas dos partidos e do sistema político” para aparecer um treinador de futebol ficaria, portanto, a pensar que os portugueses se incomodam quando, na hierarquia da informação, não têm precedência os assuntos ponderosos. Mas, se quem cá chegou tivesse chegado há mais de uma semana, poderia sentir-se algo confuso com o facto de os que acham bastante mal que um político seja interrompido por um treinador de futebol não tenham demonstrado qualquer insatisfação quando, antes, durante vários dias seguidos, o espaço mais nobre dos principais jornais televisivos havia sido preenchido, durante longos minutos, por relatos que não conseguiam acrescentar qualquer pormenor ao facto de o mesmo treinador ter cessado o seu contrato de trabalho.(…)”.
Eduardo Jorge Madureira, Diário do Minho, 30.09.2007

Birmânia

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Ver também:

Gratuitos – do que não se fala

Voltam as notícias sobre a circulação paga de jornais e revistas. Todos (quase) encontram motivos para declarar que subiram aqui ou ali, deste ou daquele ponto de vista. Só não noticiam – e isto é grave, porque subtrai informação importante ao público – o que se passa no sub-sector dos gratuitos, que é talvez aquele que mostra mais sinais de dinamismo e que está a mudar o contacto dos cidadãos com o jornalismo impresso. Por isso se justifica a transcrição desta breve da newsletter Meios e Publicidade de hoje (acesso mediante registo):

APCT: Gratuitos voltam a subir

28 de Setembro de 2007, por Ana Marcela

O segmento dos gratuitos voltou a subir a sua circulação total. 353.695 exemplares é a circulação total do segmento segundo os números da APCT referentes ao primeiro semestre deste ano. Um montante que representa uma variação positiva de 10%, representativa de mais de 32.036 exemplares. O Metro é líder do segmento com uma circulação total de 178.908 exemplares, o que significa uma subida do gratuito da Metro Internacional, agora liderado por Luís Pimenta, na ordem dos 13,7%, que revela um aumento acima dos 21 mil exemplares. O Destak surge este semestre com uma circulação total de 174.787. Números que indicam um incremento de 6,4% na circulação total do título da Metro News, e de mais de 10 mil exemplares.

Estranheza

Alguns leitores deste blogue enviaram-me mensagens revelando estranheza pelo facto de a notícia do falecimento do Prof. Claude-Jean Bertrand, que aqui dei anteontem, não ter surgido nos grandes media (Rogério Christofoletti, do Monitorando, por exemplo, estranha não a ter encontrado nem no Le Monde). Entendo, por isso, transcrever aqui a mensagem de mail recebida anteontem, de um endereço do próprio Claude-Jean Bertrand (com quem tive alguns contactos em anos recentes, a propósito de uma investigação que ele estava a desenvolver). A mensagem é assinada por uma familiar e foi difundida em inglês e francês:

Claude-Jean Bertrand
to “Undisclosed-R.

Sep 25 (2 days ago)
We are sorry to inform you that Claude Jean Bertrand, Professor Emeritus at the University of Paris II, passed away on September 21.
He promoted the concept of Media Ethics, Accountably Systems and Deontology in foundations of democracy, the world over.
He is survived by his beloved wife, Michele, four children and five grandchildren.
A civil ceremony will be held on Thursday September 27, at 2.30 pm at the Mont Valerien Crematorium (Nanterre).
Michele Cabaret-Bertrand

Son épouse, Michèle, ses quatre enfants et ses cinq petits-enfants, ont la grande tristesse de vous faire part du décès de Claude Jean Bertrand, Professeur émérite de l’Université de Paris II.
Spécialiste de la déontologie des médias, il fut l’ardent défenseur à travers le monde du concept d’éthique et de la responsabilité sociale des médias.
Une cérémonie civile sera célébrée le jeudi 27 septembre à 14h30 au crématorium du Mont Valérien (Nanterre).
Michèle Cabaret-Bertrand

“O país está doido!”

É pelo menos insólito o que aconteceu esta noite na SIC Notícias. Convidado para uma entrevista a pretexto da discussão da actual situação do PSD, Santana Lopes foi interrompido pela pivot, porque José Mourinho acabara de chegar a Portugal naquele instante. À entrevista sobrepôs-se então um directo do aeroporto de Lisboa. Quando a emissão regressou ao estúdio, Santana Lopes estava indignado. Reconhecendo ironicamente que José Mourinho é mais importante do que “todos nós”, o ex-Primeiro Ministro considerou que “o país está doido”, porque sobrepõe um treinador de futebol a um debate sobre a situação política do país. Suspendeu a entrevista e deixou-nos um bom pretexto para reflectir sobre critérios editoriais. Os mesmos em que a SIC insistiu agora no noticiário das 23h00, quando lamentou o sucedido.