Mafalda – 45 anos de ‘jornalismo cidadão’

Uma criança irrequieta, contestatária, com uma imaginação ainda por domar (por favor ver esta – parte 1 e parte 2 – palestra de Ken Robinson nas Ted Talks) acaba de fazer 45 anos de idade.
Confesso que às vezes falo dela na secreta esperança de ainda sermos um nadinha parecidos (somos quase da mesma idade 🙂 ) e confesso também que gosto de estar presente naqueles momentos especiais em que os meus filhos dizem coisas ‘à Mafalda’ (como acontece, inevitavelmente, com a maioria das crianças).
Quino é um génio de apelo universal e a sua Mafaldinha tem um ar de perenidade que continua a tirar de nós gargalhadas sonoras. Parabéns à ‘jornalista cidadã’ que conheci muito antes de saber o que era o jornalismo cidadão…
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O jornalismo e o “caso das escutas”

O tratamento jornalístico do chamado «caso das escutas» será debatido na próxima edição do programa Clube de Jornalistas, a emitir depois de amanhã, dia 30, pela RTP2. Participam o juiz Eurico Reis e os jornalistas Vicente Jorge Silva e José Carlos de Vasconcelos.

Duas semanas para a história

Do ponto de vista do jornalismo, o que se passou em Portugal nas duas últimas semanas, ficará provavelmente como um marco histórico.
Ainda que os contornos da matéria em causa em torno do chamado caso das escutas aguardem ainda clarificações que se podem revelar decisivas para a análise do dossier, temos já sobre a mesa matéria de sobra para estudar e reflectir.
Como diz o provedor do leitor do Diário de Notícias, na sua coluna de ontem, não devemos cair no erro de considerar que este caso – e o comportamento de uma parte dos jornalistas nele assumido – representa o zénite da crise do jornalismo. É um facto que o jornalismo, pelo entrosamento e osmose com a sociedade, é ciclicamente afectado por casos problemáticos.
Mas não sigo Betencourt Resendes quando ele pretende reduzir a crise actual apenas ao efeito das tecnologias. Um sintoma que bem ilustra a situação: os resultados da investigação constante do livro de Vasco Ribeiro, acabado de lançar, segundo os quais dois terços da informação política dos nossos principais diários é, por assim dizer, agendada não pelos jornalistas mas pelas fontes, através dos sistemas profissionalizados de relações públicas, assessorias, spin doctors, etc.
Mas nesta mesma semana, em que o jornal Público esteve particularmente em foco, como ler declarações de Belmiro de Azevedo à SIC Notícias, defendendo que gostaria que o diário do grupo Sonae dê lucro e seja independente “com menos jornalistas e menos investigação”?
Não ouvi essas declarações, mas elas não foram desmentidas. É a primeira vez, que me lembre, que um alto responsável de um grupo de média defende que um jornalismo independente se pode fazer não só com menos jornalistas, mas também como menos investigação.
Uma matéria sobre a qual precisamos de continuar a reflectir.

A “destemida gente” da imprensa cor de rosa

“(…) A morrinha é o nosso estado natural: nem para a frente nem para trás (…). Mas parece existir uma nova gente com uma espantosa dinâmica pronta a mudar o nosso fadário. Tomei conhecimento desta destemida gente, não por qualquer jornal especializado em temas económicos, não por nenhum programa de televisão ou rádio mas, espantem-se as almas, pela chamada, faltando melhor termo, imprensa cor de rosa. (…) Não há número de qualquer das várias revistas da especialidade que traga uma senhora que apenas trabalhe em casa ou que tenha um emprego, dito, normal. Não há professoras, médicas, contabilistas, gestoras, cabeleireiras . São todas mulheres de negócios. (…) Um cidadão fica cansado só de ler a quase sobre-humana actividade destas senhoras (…). Os jornalistas que as entrevistam não perguntam qual o ramo de actividade empresarial destas hiper-activas criaturas. E muito bem, digo eu. Uma coisa é perguntar qual o tipo de implante mamário que resolveram colocar, o cabeleireiro que frequentam, a estância de ski que frequentam, os pormenores do último divórcio, os colégios dos filhos. Isso, claro está, deve ser público e notório. Outra, completamente diferente e a merecer toda a confidencialidade, é perguntar que tipo de negócio desenvolvem. Ninguém tem nada a ver com isso. É matéria reservadíssima (…)”.

Pedro Marques Lopes in Diário de Notícias, 27.9.2009

[Texto completo: AQUI]

“Ver um bocado da campanha”

Título do JN de hoje:
“Lobo Xavier, Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes juntos em iniciativa do PSD”.
Leitura: AQUI.

Jornais velhos: reciclar ou guardar (e estudar)?

A Imprensa é uma riqueza documental, mais parecida com a História do que com o adubo. Esta história da reciclagem tende a esquecer que há uma diferença entre uma pilha de jornais e um monte de esterco, por muito fértil que seja.

Miguel Esteves Cardoso,in Publico, 23.9.2009

O editorial de José Manuel Fernandes

O editorial de hoje de José Manuel Fernandes sabe a pouco.
O director do Público considera que o relevante, neste mega-caso, “é analisar os factos políticos, não os factos mediáticos.” E acrescenta que o comportamento do Público, neste processo, é matéria sobre a qual não se pronunciará “nem hoje, nem aqui”.
Salvo melhor opinião, José Manuel Fernandes está equivocado. É que o comportamento dos media, e nomeadamente do Público, fez e faz parte dos “factos políticos” e é peça-chave para a compreensão do caso. E este é um caso emblemático de como um jornal de referência não se deve comportar, como, de resto, salientou, no domingo, o Provedor do Leitor e, em tom mais analítico, Joaquim Fidalgo. Discordo, pois, que se deixe de lado os “factos mediáticos”.
Na falta de muita informação relevante para compreender este caso em toda a sua extensão e alcance, há algo que parece desde já claro: nenhum dos protagonistas directamente envolvidos nesta história ficou bem na fotografia.

Duas notas complementares:

1. O director afirma que aquilo que o provedor escreveu quanto ao facto de a sua caixa de mail ter sido vasculhada é mentira. Ter-se-á tratado de precipitação do provedor? Um facto desta gravidade não deveria ser atirado de ânimo leve para a praça pública.

2. Um amigo chama a minha atenção para um facto que pode não ser menor, neste processo: José Manuel Fernandes é cuidadoso, no editorial de hoje, ao sublinhar que Fernando Lima foi afastado das funções que exercia, por se ter tornado impossível prosseguir as funções que exercia junto de Cavaco Silva. Mas não há confirmação de que tenha sido nem demitido nem afastado da Presidência, ao contrário daquilo que a esmagadora maioria dos media e dos comentadores e dirigentes partidários tomaram como certo. Será assim?