Responsabilidades do jornalismo

Eugénio Bucci tem vindo a publicar, nas últimas semanas, no brasileiro Observatório de Imprensa, uma série de artigos sobre questões actuais do jornalismo e a liberdade, que vale a pena compendiar. Bucci é doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e autor de alguns livros, entre eles Sobre Ética e Imprensa (São Paulo: Companhia das Letras, 2000) e foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007. Eis os links para os textos:

Da mais recente peça, sobre a formação contínua de jornalistas, destaco:

Persiste em parte das redações, ainda, a tristonha presunção de que o jornalismo se faz e se aprende “na prática”: se o sujeito leu uns livros bons, tem vocabulário acima do comum, é curioso e esperto, vai brilhar. Assim é que esse ofício se firmou e se reproduz, com base na ilusão de auto-suficiência. Talvez ela bastasse até meados dos anos 1970, mas hoje é apenas vã. O jornalismo, como as demais atividades, impõe a seus praticantes que estudem.

É verdade que temos jornalistas notáveis que nunca foram à universidade, assim como, no passado, também tivemos bons dentistas que não tinham diploma. Ainda hoje, aliás, há parteiras no interior que, sem ter passado pela faculdade, trazem crianças ao mundo. Não se pode mais pretender, porém, que a imprensa atinja bons níveis sem ter pontes com a pesquisa e com a capacitação aprofundada. Estudar com método, se já não era no passado, é no presente parte integrante da responsabilidade social do jornalista.(…)

Liberdade de Imprensa

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A Ásia e o Médio Oriente continuam a ser zonas do mundo onde a liberdade de imprensa é especialmente ameaçada. Por outro lado, os governos dos países menos tolerantes têm vindo a prestar uma crescente ‘atenção’ à informação na Internet e, em especial, aos bloggers. Estas são algumas das conclusões do Índice da Liberdade de Imprensa 2007 que a organização Repórteres Sem Fronteiras acaba de divulgar e que se referem a um conjunto de indicadores de natureza objectiva, que não pretendem ser um instrumento de aferição da qualidade dessa mesma liberdade.
Portugal mantém a posição atingida em 2006.

Documentos de referência:

Indústrias Culturais: de blogue a livro

Rogério livroTextos do blogue Indústrias Culturais constituem o essencial do conteúdo de um livro que o seu autor, Rogério Santos, vai lançar no próximo dia 25, em Lisboa. Intitulado “Indústrias Culturais. Imagens, valores e consumos”, o trabalho é editado pelas Edições 70 e tem prefácio de Isabel Capeloa Gil, directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, instituição em que o autor também lecciona..
O livro é apresentado por António Pinto Ribeiro (da Fundação Calouste Gulbenkian), decorrendo o evento na livraria Almedina, ao Saldanha, pelas 19 horas.

Blogue da Lusófona

Nasceu há dias o blogue Jornalismo na Lusófona, ligado ao Curso de Comunicação e Jornalismo daquela instituição universitária. A equipa é constituída por Helena Garrido, Hermínio Santos, Daniel Cruzeiro, António José Teixeira, Carla Rodrigues Cardoso e Raquel Alexandra.
O novo blogue quer ser “um espaço de partilha de informação” e “incluirá chamadas de atenção sobre leituras, colóquios e links interessantes; partilhará documentos, intervenções públicas de professores e alunos; fomentará o debate de questões polémicas; e dará particular atenção às iniciativas académicas assegurando a sua cobertura informativa com vídeo, fotos, sons e textos”.

Alguém está a mentir

Photo Sharing and Video Hosting at PhotobucketAfirma o Diário de Notícias de hoje, sem nuances nem fontes, com chamada de primeira página:

Rui Rio pressionou Ferreira Leite a dizer ‘não’

[“Ontem, depois de uma conversa com Luís Filipe Menezes, Manuela Ferreira Leite recebeu um telefonema de Rui Rio, presidente da Câmara do Porto e arqui-inimigo de Menezes, a pressioná-la a recusar.]

Diz hoje Rui Rio, uma das fontes que não foi ouvida pelo DN, em declarações à Lusa:

Rui Rio desmente ter pressionado Ferreira Leite a recusar convite de Menezes

[“Eu nem falei com a doutora Manuela Ferreira Leite no sábado”, garantiu hoje à Lusa Rui Rio, que desabafou: “pelos vistos, nem a 200 quilómetros de distância me deixam sossegado”]

É certo que Rui Rio poderia não ter falado no sábado, mas num dos dias anteriores, visto que a intenção de Menezes já era conhecida há semanas. É certo que se Rui Rio tivesse tido algum papel na decisão da ex-ministra das Finanças não iria reconhecê-lo em público, ainda que a personalidade objecto da alegada pressão torne a notícia menos plausível. Mas mais certo ainda é este tipo de notícias desacreditar o DN e o jornalismo. Porque lança a suspeita entre os leitores de que o jornal entra em jogadas e se coloca ao serviço de interesses particulares. Mesmo que estivesse certo do que escrevia, nunca poderia fazê-lo do modo como o fez.

Vamos ver como o jornal amanhã descalça a bota.

ACT. (15.10): “O DN sabe que Rui Rio teve um papel preponderante na decisão da ex-ministra, tendo telefonado em pleno congresso, o que não passou despercebido a algumas testemunhas. Apesar disso, ontem o autarca -uma das ausências mais notadas – viu-se na necessidade de desmentir qualquer interferência”.

Temos, assim, que:

  • – “Algumas testemunhas” aperceberam-se que Rui Rio telefonou “em pleno congresso”;
  • – O DN sabe (por tais testemunhas?) que Rui Rio teve “um papel preponderante na decisão da ex-ministra” (exercido através do telefonema?)
  • – “Apesar” de o DN saber, Rui Rio viu-se na necessidade de desmentir.
  • – Pergunta final: tratou-se de “papel preponderante”, de “interferência” ou de “pressão”?

Quem mexeu no Código? Não basta insinuar.

Têm sido várias as insinuações – ou mesmo afirmações – de que, no processo de definição e aprovação do recente Código do Processo Penal, alguém, em algum momento, terá introduzido uma disposição que torna igual que um violador tenha violado uma ou cem vítimas. A jogada teria sido conduzida ao serviço de alguns arguidos do processo Casa Pia.
Foi o que Catalina Pestana disse às escâncaras na entrevista ao Sol. Mas não basta insinuar.
Já há tempos me perguntava porque é que o assunto não é objecto de investigação jornalística, dada a gravidade das insinuações e acusações.
Hoje, o Diário de Notícias dá alguns passos nesse terreno, numa peça assinada por Filipa Ambrósio de Sousa e Licínio Lima (cf. “Crime continuado pôs o PS contra o Governo“). Mas é necessário ir mais longe. Num processo desta natureza, em que ninguém quer assumir a paternidade da medida e em que a responsabilidade corre o risco de morrer solteira, é necessário saber ao certo o que se passou. Quem fez o quê e quando e com que objectivos. Dada a natureza do assunto, será assim tão difícil apurar com minúcia os passos que conduziram a este resultado?

RR – Passos certeiros

A inauguração, esta tarde, da nova Basílica de Fátima foi, para a Rádio Renascença, o motivo certo para dar início ao aparecimento de uma nova funcionalidade no seu site – a infografia animada.
Depois da experiência (inédita no contexto nacional) com o ‘Página 1‘ a RR dá mais um passo no sentido de uma presença de valor acrescentado na net.
Embora o ritmo possa ainda ser lento demais (se comparado com o de empresas noutros países) e embora o próprio site pareça não ter a flexibilidade suficiente para dar o merecido destaque a estas iniciativas a verdade é que elas vão acontecendo.
É um sinal de que a empresa está atenta. É um sinal positivo.

Declaração (de interesse, mas também de muita satisfação): Parabéns ao talentoso Pedro Candeias, de quem fui professor.

“Imprensa diária: crónica de uma morte anunciada?”

rapport_information.gifO Senado francês acaba de publicar o relatório intitulado Presse quotidienne d’information: chronique d’une mort annoncée?, encomendado a um assim designado Grupo de Trabalho sobre a crise da Imprensa, criado em Janeiro passado pela Comissão dos Assuntos Culturais. Ao longo dos últimos meses, o grupo procedeu a audições a um vastíssimo leque de actores de algum modo ligados à Imprensa, incluindo as novas formas de publicação no espaço da web.

“Au terme de ses travaux – refere uma nota daquele órgão de soberania de França – il propose cinq pistes de réflexion tendant à favoriser la reconquête du lectorat, à faciliter la prise en main du produit presse par les jeunes générations, à accélérer l’entrée des entreprises de presse dans l’univers numérique et à conforter le statut des journalistes. Ces pistes prennent des formes variées adaptées à la diversité des enjeux : décisions internes aux entreprises de presse, modifications législatives et évaluation des politiques d’aides publiques. Leur mise en oeuvre rapide permettrait de sortir d’une situation regrettable tant pour le pluralisme de l’information que pour le bon fonctionnement de notre démocratie”.

“Oslo (Suécia)” ou o jornalismo de carneirada

O blogue ‘Northern Lights‘ mostra à saciedade como o seguidismo face às notícias de agência leva a que – neste caso, em Espanha – jornais electrónicos e impressos, gratuitos e pagos, locais e nacionais, incluindo o recém-aparecido ‘Público’, todos tenham deixado passar o erro de localizar Oslo na Suécia.

Leituras

A propósito do Nobel da Física 2007

A propósito do prémio Nobel da Física, Alberto Sá, que desenvolve, no quadro do seu doutoramento na Universidade do Minho, um projecto de investigação sobre memória na Internet, enviou-nos o texto seguinte:

A Academia Sueca decidiu atribuir o Prémio Nobel da Física de 2007 ao trabalho desenvolvido sobre a magneto-resistência gigante, premiando o esforço dos cientistas Albert Fert e Peter Grünberg. De uma maneira geral, trata-se do reconhecimento pelos avanços tecnológicos ocorridos desde finais da década de 80 e que possibilitaram a contínua miniaturização do disco-duro. Na prática, o âmbito do prémio extravasa o domínio da categoria contemplada, a Física: ao recorrer a impulsos electro-magnéticos para representar o “zero” e o “um” binários, o galardão estará verdadeiramente a reconhecer o contributo para a edificação de um novo paradigma informacional, com incontestáveis e irreversíveis repercussões sócio-culturais e económicas, as quais, actualmente, são ainda objecto de discussão para apreensão da sua real magnitude e alcance, como demonstra a sucessiva desmultiplicação do fenómeno Web.

A rápida e maciça computorização da sociedade, ritmada pelos impulsos inovadores da nanotecnologia, veio alastrando a essência da digitalização a todas as esferas da criação humana: na produção de bens e serviços, na expressão artística, na excelência científica e intelectual, no domínio da administração pública, nas dimensões do social. Paulatina mas determinadamente, o computador tornou-se o instrumento de trabalho privilegiado para a produção de conhecimento e de informação, e ganhou impacto como interface de comunicação entre seres humanos. Na penumbra, o disco-duro é o garante desse novo paradigma tecnológico. O progresso tecnológico veio permitir o aumento da capacidade de armazenamento e a progressiva diminuição do preço dos disco-duros, tornando exequível a megalomania de Vannever Bush de tudo querer armazenar através do sistema “Memex”, de 1945, da qual, a empresa Google procura assumir o testemunho.

Seja para memória individual ou simples forma de revivalismo nostálgico, seja para a posteridade ou para eliminar o arquivo físico, deve-se aos agora galardoados o facto de, actualmente, ser mais custoso (em tempo) apagar do que guardar.

Alberto Sá 

comUM – um ciberjornal universitário

Já tem um percurso relativamente longo, mas ressurge agora, com novo layout e apostando em novas dimensões que só o digital permite. O comUM é um projecto a acompanhar com atenção, nomeadamente pelos que, nos media profissionais, procuram novos talentos e novas valências para as suas equipas.

comUM

Nova edição do e-journal do OberCom

Saiu uma nova edição (Vol. 1 Nº 2 – 2007) do Observatorio e-journal, do OberCom, com artigos de Portugal, Brasil, Espanha, Suíça, Itália, Canadá e Estados Unidos. Os textos publicados são os seguintes:

Editorial
Gustavo Cardoso, Rita Espanha

Weblogs between Counterinformation and Power: an Italian Case History
Fausto Colombo, Maria Francesca Murru

A rede de comunicação World Wide Web no domínio *.pt: métricas fundamentais
António Machuco Rosa, Jorge Giro

A construção sonora da realidade – uma análise à cobertura radiofónica da campanha para o referendo ao aborto
Luís Rodrigues Bonixe

El apagón analógico… ¿y después qué? Estrategias de la TDT en España
David Fernández Quijada

Los Culturales en la Radio Autonómica en España
Aurora García González

Commercialisation and Programming Strategies of European Public Television.
Bienvenido León

Ritorno al Futuro. Il presente ed il passato della Mobile Tv
Benedetta Prario, Gabriele Balbi

IPTV – Será a solução para a difusão de ITV?
Luís Miguel Pato

Media, Images of Justice, and Brazilian Reality Television
Vicente Riccio

‘Crouching Tigers’: Emerging Challenges to U.S. Entertainment Supremacy in The Movie Business
Jonathan Taplin

The supplied diversity of cinema in the Euro-Mediterranean space. A value chain approach.
Vera Araújo

Comunicación y Salud: paradigmas convergentes
Lise Renaud, Carmen Rico de Sotelo

O Virtual e o Político: a Análise de um Confronto Discursivo da Comunidade Brasileira de Software Livre
Luis Felipe Rosado Murillo

Quando o conhecimento é um produto. Agentes transdisciplinares de mobilização do Conhecimento. Um estudo de caso
Filipa Martins Ribeiro

Revisión de las investigaciones psicológicas sobre creatividad
Jorge del Río Pérez

Os artigos estão disponíveis aqui.

Informação televisiva no Clube

O programa ‘Clube de Jornalistas’ de quarta-feira, dia 10, propõe-se debater a informação que se faz em televisão. Os tópicos da ‘agenda’, avançados pelos responsáveis do programa, referem, sobre este tema, “aberturas de mais de 15 minutos sobre futebol, conferências de imprensa ‘sem direito a perguntas’, directos em catadupa sem informação relevante”. Em estúdio estarão Paquete de Oliveira, Emídio Rangel e João Barreiros, com a moderação a caber a João Alferes Gonçalves. Na RTP2, depois das 23 e 30.

Gestos: um dia sem e-mails

Photo Sharing and Video Hosting at PhotobucketRecebe dezenas e dezenas de mails por dia? Necessitaria de horas e horas para gerir ou responder a essas mensagens? Interage cada vez menos directamente com os seus amigos e até com colegas de trabalho que estão no gabinete ao lado? Porque não parar esse novo tipo de ‘espiral de silêncio’?
É o que funcionários de algumas empresas dos Estados Unidos estão a fazer, ao lançar a campanha da ‘sexta-feira livre de e-mails‘. Nesse dia todos (os aderentes, espera-se) fazem um esforço no sentido de contactar por telefone ou, melhor ainda, interagir presencialmente com os seus interlocutores.