“É chegada, dizem-me, a hora de partir”

JFJF despedida

Ninguém pode esperar eternizar-se num qualquer sítio, porque tudo é passageiro. Mas a coluna do Joaquim Fidalgo tem sido – era? – um dos espaços de respiração do Público. Nos assuntos, no registo de abordagem, na qualidade da escrita. Um exemplo de crónica.
Ignoro (escrevo, surpreendido por este parágrafo final da coluna de hoje, às 2 da madrugada) ignoro, dizia, os motivos invocados para levar JF a dizer discretamente ‘até logo’ aos leitores. Dizem-lhe que é chegada a hora de partir.
Lamento muito que assim seja. Julgo não ser o único.

Mas, que diabo, será este um assunto que apenas à Direcção do Público diz respeito? E aos leitores do jornal ninguém deve explicação? Eu, que pago a assinatura, gostava de a ter.

(Crédito da foto: PÚBLICO)

Anúncios

29 thoughts on ““É chegada, dizem-me, a hora de partir”

  1. Pingback: Uma perda enorme « PROMETEU

  2. Pingback: Haja coragem - é preciso mudar mais! « Atrium - Media e Cidadania

  3. Confesso que não entendo. Não dá para entender. Mas, também, o que é que há para entender na (des)orientação actual do Jornalismo em Portugal?
    Há um padrão preocupante: mandam-se os melhores embora. Sempre pela via do silêncio.

  4. As crónicas do J.Fidalgo sabem equacionar e interrogar o significado e mesmo a transcendência (social, ética, afectiva, jornalítica) do quotidiano, em linguagem sensível e de aparência simples, inteligente e de ironia bondosa, mesmo quando advertimos que essa bondade é um “fingimento” para discordar, indignar-se ou propor: ver para crer, anotar pensando… Método muito contrário ao que por aí grassa: aplicar pré-conceitos e alta inteligência exibicionista aos fenómenos, acontecimentos, pessoas. Se mandaram partir ou interromper, é lá com quem manda; mas no meu círculo, era uma voz grata que comentávamos.

  5. a abordagem, pois claro. não tenho pena desta saída: o que se passa, de facto, é um empobrecimento precoce, evitável, das páginas do Público. nem que por um dia na semana. confesso: era a razão maior para comprar o jornal às quartas, bem antes de olhar sequer para a capa. um despertador. pena, não: triste. e pobre.

  6. Faço minhas as palavras de Luís Miguel Loureiro e que reflectem a dura verdade. Com a devida vénia: «Confesso que não entendo. Não dá para entender. Mas, também, o que é que há para entender na (des)orientação actual do Jornalismo em Portugal? Há um padrão preocupante: mandam-se os melhores embora. Sempre pela via do silêncio.»

  7. Enquanto isso, no Brasil, o governo cria por decreto um canal de TV
    estatal… e já cria resistência dentro do congresso nacional.
    Principalmente dos deputados ligados aos canais comerciais….

  8. Pingback: boblog » Blog Archive » “P” sem Fidalgo

  9. Fiquei agora a saber. Realmente é apenas mais uma aposta na desertificação dos públicos criados. Não creio em todo este discurso do prejuízo que todos os jornais portugueses apregoam. Creio antes que estes apenas buscam mais lucro todos os anos e como o número de leitores não aumenta todos os anos para dar resultados ao nível da banca ou das telecomunicações apregoa-se o prejuízo.
    Contudo cada vez menos compro o jornal diário, o ritmo frenético raramente nos dá o tempo necessário para absorver uma notícia com princípio, desenvolvimento e fim e por isso o modelo web se aplica mais à sociedade deste século. Não só por isto, mas também porque já não estamos dispostos a limitar-nos a uma única perspectiva e comprar um diário é ver o mundo por uma via apenas. Aqui mais uma vez a web permite abrir horizontes, não só absorver mais rapidamente, como quando interessa, ir mais fundo. E o, quando interessa, é uma questão de regulação dos feeds pessoais para que estes nos tragam tudo e apenas aquilo que verdadeiramente nos interessa e não ficar depende daquilo que o editor julgou ser o meu interesse.
    Sobre isto, fica a ideia “Can bloggers be journalists? Federal court says yes”

  10. Pingback: Serviço Público « O filtro

  11. «Valem-nos os poetas.
    E vale-nos o amor, o que seria de nós, e o que seríamos nós com o silêncio, se não fosse o amor! Porque o amor sabe falar com palavras, mas sabe também (sobretudo?…) falar com o silêncio. Dizer tudo, dizer só o essencial, dizer-se a si – não só, mas com. Como alguém também já explicou, quando estamos com pessoas mais ou menos conhecidas, medianamente próximas, medianamente amigas, sentimos necessidade de encher o aparente vazio dos momentos em que a conversa pára; mas entre duas pessoas que se amam, pelo contrário, nunca o silêncio é constrangedor, nunca é o vazio, nunca é a distância entre palavras. É um dizer de dentro, da alma, dos olhos, do fundo. E diz-se tudo. E ouve-se tudo. Em silêncio.»

    Joaquim Fidalgo, Público, 27 de Julho de 2005

    Retomo este texto, escrito antes de um período de férias, para fazer votos de que, pelo menos entre os amigos que admiram o Joaquim, nunca este silêncio (no Público) seja constrangedor, seja o vazio ou a distância entre palavras. Que possa, pelo contrário, ser também de algum modo «um dizer de dentro, da alma, dos olhos, do fundo». E, ainda que de outro jeito, que possa dizer-se tudo. Ouvir-se tudo. Apesar do silêncio no Espaço Público onde nos acostumámos a lê-lo, como uma certa música do quotidiano!

  12. Corresponderá esta “partida” a uma renovação de fundo dos colunistas do “Público”? Se sim, fico à espera de novos nomes em todos os dias da semana. Se se trata de uma “partida” isolada”, fica a pergunta: porquê? A coluna era muito bem escrita, apresentava olhares que nos surpreendiam pela sua singularidade e ritmava as páginas de um jornal que, segundo me parece, não está a atravessar um período muito positivo…

  13. O Público ficou muito mais pobre com a partida de Joaquim Fidalgo, na sequência de um conjunto de medidas que tem vindo a afastar o jornal de um rumo que o prestigiou.
    É um fraco sinal para os leitores quando as referências do Público abandonam as suas páginas…

  14. Será este “P” o “Público” que Joaquim Fidalgo ajudou, com tanto entusiasmo, a nascer? E a viver e a dar luta e a ser referência? Mereceria ainda tanta qualidade naquele canto de página de oito em oito dias? Não, não e não; o “P” não é o “Público”, é uma referência cada vez mais pálida e não merecia Joaquim Fidalgo. Mas nós, leitores de (pelo menos) quarta-feira, continuávamos a marecer e a agradecer aquela visão tão especial. Tê-la-emos, espero, um dia destes, em páginas que façam por merecê-la também.

  15. Na Oceania de George Orwell, vigorava o totalitarismo disfarçado de democracia. O IngSoc (o Partido), gerido pelo Grande Irmão, reduzira o indivíduo a mera peça numa engrenagem. O personagem principal de “1984”, Winston, trabalhava no “Ministério da Verdade” e a sua ocupação era basicamente a de reescrever a história e a informação quotidiana. Quem pensásse de maneira diferente ou se insurgisse contra o sistema seria acusado de prática de ‘crimidéia’. A Polícia do Pensamento entrava em cena e vaporizava os incómodos elementos em nome da ordem reinante.
    Na sua essência, esta “hora de partir” não é mais do que a face escandalosa das novas formas de censura. O “Público” comporta-se aqui como o mau filho que resolve “dispensar” o pai que o viu nascer. Chama-se a isto ingratidão. Resta saber que “trunfo” vai agora ocupar o “espaço”… publicidade…?… opinião à medida…?
    Enquanto pensam, nós ficamos a aguardar a força desta voz, e de todas as vozes que não se calam, nos blogues, onde (ainda) é possível dizer “não” ou dizer simplesmente: “penso diferente”.
    A escrita de Joaquim Fidalgo é “tempo de chegar” e nunca “tempo de partir”.
    Coragem! Felicidades!

  16. Pingback: Hora de partir

  17. Caro Fidalgo, apenas agora li esta notícia. Só posso lamentar.
    Não será casual que envie esta mensagem no dia de Finados…

  18. Não dá para entender? Então é porque nunca ouviram falaram em José Manuel Fernandes, o Marquês de Pombal do jornalismo português…

  19. Sabes que mais Jaquim? Eles não te merecem. E nem sequer é de hoje.
    Faz-nos só uma crónica para o Natal, ok?
    Abraço mano

  20. Caro Joaquim

    Lamento que “partas” e que te tenham deixado ou forçado a “partir”.
    Espero continuar a ler-te noutro qualquer suporte, ou, pelo menos, neste blog. Abraço solidário da Estrela Serrano

  21. Que o silêncio não seja um vazio… a haver vazio, não será, com certeza, no JF, que é um homem de alma cheia. Por isso, o ‘P’ que vá atrás do Público… antes que seja tarde demais.

  22. Concordo plenamente…com José Manuel Fernandes: Joaquim Fidalgo destoava neste Público. Quem disser o contrário não passa de um saudosista, dos tempos em que o Público era «o jornal», em que fazia a sua própria agenda e ousava inovar, insistia em formar, além de bem informar.

    Fico à espera de o ler de novo, no meio de umas páginas mais interessantes que as que, ultimamente, o acompanhavam. Para continuar a acreditar que ainda há lugar ao bom jornalismo em Portugal.

  23. Joaquim Fidalgo era a diferença no formalismo jornalístico em que tem assentado o Público. Ele, que nunca foi meu docente, acabou por me ensinar muito do que é a arte da crónica, mesmo não escrevendo sobre o assunto!
    A grandeza de um autor vê-se por isto: quando se começa a ler um texto e não se repara no nome do autor (seja propositado, seja por descuido) mas percebe-se ali uma linguagem familiar. “Alto lá, eu conheço este estilo de algum lado!”… “Ups, lá está, o Joaquim Fidalgo!”

    Joaquim Fidalgo: a situação é lamentável, mas a vida continua noutro sítio qualquer. A qualidade tende a afastar-se do jornalismo mas vai resistindo. No passado, hoje e no futuro. Bem haja!

  24. Há espaços que fazem o nosso tempo. Palavras que figuram nos altares das memórias do quotidiano, onde insistimos em passos de quase-bailarinos na construção de um mundo em que continuamos a acreditar.
    Há espaços, linhas e entrelinhas que fazem parte da nossa vida: aí vemos, com a limpidez dos olhos da criança que espreitam discretamente atrás das cortinas as gotas da chuva mais cristalina e se arregalam depois contra o vidro perante o voo de qualquer pássaro mais insólito; e aí cremos profundamente na surpresa de qualquer instante.
    Há espaços bocados-de-nós que ninguém deveria poder arrancar. pelo menos, sem nos perguntarem se podiam…

  25. No “Público” infelizmente já pouco me espanta. As quebras de qualidade e, sobretudo, de rigor e verticalidade são nítidas. Com a deriva populista da concorrência, o Público ficaria com o seu espaço mais resguardado, mas…. Depois de Mário Mesquita, agora Joaquim Fidalgo…Até quando?

  26. O ‘Público’ é agora dado, enfiado nos sacos dos clientes do hipermercado Continente, quase à má fila. Eu agradeço a amabilidade da Sonae, mas sou daquelas, Joaquim, que pagava – com todo o gosto e orgulho – para te ler. Era um investimento meu/nosso, dos teus leitores que sabem bem o que vales. Por isso iremos ao teu encontro, sempre. Um jornalista de referência nunca se esquece.
    Um abraço amigo da Sara

Os comentários estão fechados.