A pequena coluna que quinzenalmente publico no Página 1, da Renascença, é hoje dedicado àqueles assuntos de potencial interesse público – e são muitos – e àquelas pessoas e grupos – e também são numerosos – que raramente ou nunca se ouvem, vêem ou lêem nas notícias.
Nunca chegaremos a avaliar em toda a sua extensão a dimensão desse silêncio mediático e noticioso e o seu efeito sobre o que sabemos e o que fazemos, baseados no que nos dizem e nos oferecem. Mas é claro que dizer isto não pode ser outra coisa que não um apelo a olhar para esse continente – gosto de lhe chamar “noite social”. Apelo dirigido aos jornalistas, certamente, visto que lhes cabe um papel crucial nessa matéria; mas dirigido também a todos nós, que contactamos com esse lado nocturno, porventura somos mesmo habitantes desse continente, e nos calamos, agravando, com esse silêncio, o silêncio institucional e público.
Dos últimos dias, dois casos (nem sequer dos mais sintomáticos, longe disso) que não passaram pelas notícias e que, a meu ver deveriam ter passado: a morte de Rui Polónio Sampaio, advogado do Porto que foi, ao longo de décadas, antes e depois do 25 de Abril, uma figura cívica de incontornável dimensão; e também a morte de Edward Schillebeckx, um dos maiores teólogos do século XX, marcante durante e após o Concílio, incomodado pelo Vaticano, defensor de uma visão do papel da Igreja que, em muitos aspectos, colide com a orientação hoje reinante. Ninguém deu conta; ninguém achou importante. Meros critérios editoriais? Generalizados?