O ritmo da TDT na Europa

A “Notícias TV” desta semana faz um mapeamento da TDT na Europa e dos diferentes ritmos a que vários países  andaram (ou andam), não só no que diz respeito ao arranque deste processo de transição, mas também relativamente ao ano do switch off analógico. Percebe-se claramente um arrastamento, havendo países (como o Reino Unido) que arrancaram com o processo de implementação da TDT há mais de uma década… Outros, como a Suécia, contam menos do que isso desde o arranque à implementação.

In “Notícias TV” n.º 208 (de 6 a 12 de Janeiro de 2012), páginas 14 e 15

Leia-se, também, a nota introdutória que arruma Portugal para os últimos lugares europeus na transição do sinal analógico para o digital e, mais, que lhe atribui o “inovador” feito de manter a oferta de quatro canais televisivos: “Dos pioneiros holandeses, luxemburgueses e alemães, até aos demorados processos ingleses ou espanhóis, a experiência portuguesa é uma das últimas a ter lugar. Porém, Portugal contraria em absoluto o que sucedeu noutros países: é a única que não oferece nem mais um canal aos quatro que já existem”.

Os dois mundos da TDT portuguesa

Parece haver dois sistemas de TDT em Portugal. Um deles é o que a população recebe, o outro é o que as empresas de telecomunicações construíram, com alguns apoios importantes.

O da população está cheio de equívocos. É o pior da Europa em oferta de programas – pois contempla apenas os quatro canais generalistas, a qualidade de receção da imagem deixa a desejar, o sinal não está disponível para cerca de 1 milhão de cidadãos – que estão nas chamadas zonas de sombra e são obrigados a pagar mais de 100 euros para assistir aos canais TV aberta via satélite, não há uma oferta de serviços em HD, nem a TV móvel, muito menos serviços interativos diferenciados, como, por exemplo, aplicações para pessoas com necessidades especiais.

Já o sistema das empresas vai muito bem. É um dos responsáveis pelo crescimento de quase 30% do mercado de televisão paga em Portugal, que aumentou de 43,7%, em 2008, segundo dados do Obercom, para 70%, em 2011, segundo dados da Anacom. Algo extraordinário em tempos de recessão. A TDT das empresas também prospera na área da Internet em banda larga, pois já foram leiloadas frequências que serão libertadas a partir do apagão analógico, previsto para abril, quando os operadores de telemóveis poderão fornecer serviços 4G. Uma transação que trouxe aos cofres públicos 370 milhões de euros. O sistema das empresas ainda tornou monopólio da PT a distribuição dos sinais televisivos terrestres e a venda de equipamentos pra a receção em zonas de sombra. Além disto, como comprova o documento abaixo, inicialmente a PT seria obrigada a arcar com todos os custos referentes ao kit satélite, mas a Anacom mudou a lei em abril e jogou a maior parte da conta para a população.

Entre os dois sistemas, posiciona-se a Anacom, que deveria primar pelos interesses da população. Mas, nas declarações do regulador, tudo está a correr muito bem na TDT da população, pois as pessoas estão devidamente informadas, há subsídios excelentes para as famílias se adaptarem à receção da TDT, o apagão nas zonas piloto foi um sucesso e Portugal está preparado para avançar.

No entanto, bastou que os meios de comunicação investigassem um pouco mais a fundo e fizessem uma série de reportagens para as coisas começarem a mudar. A RTP, cumprindo o seu importante papel de serviço público, foi a primeira a levar à televisão os dados que mostravam que havia algo errado na TDT da população, enquanto a TDT das empresas prosperava.

Houve recuos por parte da Anacom, que decidiu fasear o apagão no litoral, que atingiria grande parte das pessoas que vivem na costa, e também anunciou uma pequena diminuição do custo do kit satélite. Mas, em termos de modelo, até o momento nada mudou.

Na tabela abaixo podemos comprar os dois mundos da TDT:

TDT da População

TDT das empresas

  • Mesmo número de canais da TV analógica, o que deixa Portugal com a menor oferta de canais na TDT da Europa, segundo dados do Observatório Audiovisual Europeu.
  • Oferta de dezenas de canais em plataformas de TV pagas, incluindo canais temáticos da RTP, de acesso exclusivo aos serviços por subscrição.
  • Redução da cobertura em relação ao sistema analógico.
  • Monopólio da PT na distribuição dos sinais digitais terrestres.
  • Mais de 100 euros de investimentos para assistir aos canais da TV aberta nas zonas de sombra.
  • Monopólio da PT na venda do Kit satélite para as zonas de sombra.
  • Cerca de 30 euros para a compra de um descodificador nas zonas cobertas pela TDT.
  • Crescimento de aproximadamente 30% do mercado de TV paga, desde o início da implementação da TDT.
  • Aparente impossibilidade de adiar o apagão analógico e rever o modelo da TDT.
  • Frequências libertadas pela TDT na faixa dos 800 Mhz já leiloadas para TMN, Vodafone e Optimus, para a exploração do 4G.

Agora que os dados dos dois mundos da TDT tornaram-se públicos, vamos aguardar para ver se os agentes políticos vão agir para diminuir a clara disparidade do processo.

As queixas dos telespectadores

O Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica, em Lisboa, promove amanhã uma sessão sobre “As queixas dos telespectadores em Portugal e Espanha”. O programa é o seguinte:

Perplexidade em torno de uma recusa

Esclareçamos, desde o início dois pontos: há vários nomes capazes de exercer o cargo de provedor do telespectador da RTP e a votação em urna fechada da proposta do nome de Felisbela Lopes, apresentado pelo Conselho de Administração da RTP ao Conselho de Opinião não pode ser questionado na sua legitimidade.
Mas, dito isto, é-nos permitido -e diria até que exigido – a nós, cidadãos e observadores do que se passa, que demos conta das nossas perplexidades.
Não é fácil encontrar alguém com o currículo de Felisbela Lopes, naquilo que o cargo exige: conhecimento profundo do meio televisivo, experiência dos estúdios, capacidade de comunicar, defesa do serviço público, coerência e princípios éticos na actuação.
Estamos, pois, expectantes, relativamente à justificação que o Conselho de Opinião da RTP vai apresentar (se é que ainda não apresentou).
Motivos que vieram a público, alegadamente assumidos por alguns conselheiros, ridicularizariam o Conselho, se acaso viessem a sustentar a posição maioritária negativa adoptada por aquele órgão. Não faz sentido, tanto quanto vejo, dizer-se que a pessoa proposta não teria a maturidade suficiente para ‘afrontar’ a administração, na medida em que os interlocutores das matérias com que lida o provedor ou provedora são, antes de mais, os directores de informação e de programação.
Muito mais grave é a sugestão de que o argumento da idade possa ter, de qualquer modo, pesado na decisão. Tal argumento, além de grosseiro e injusto, é completamente ilegal. Indo por aí, só faltaria acrescentar que se trata de uma mulher e que, além do mais, vem do Norte – de Braga, para cúmulo.
Aguardemos pelos desenvolvimentos deste caso estranho (pelo menos até se conhecer a fundamentação da posição negativa do Conselho de Opinião). Seria lamentável que, depois do trabalho de qualidade do Prof. Paquete de Oliveira, enquanto primeiro provedor do telespectador, assistíssemos agora, na escolha do seu sucessor, a qualquer tipo de politização do cargo ou à adopção de vias e de lógicas que não sejam as da transparência e da competência.

Como se identificam os telespectadores com os canais?

A Marktest Audimetria/MediaMonitor acaba de divulgar dados que se revelam importantes para perceber os graus de afinidade dos telespectadores com cada um dos canais de sinal aberto, discriminados por um conjunto de variáveis sociodemográficas (estes dados estão disponíveis no Anuário de Media & Publicidade 2009 da Marktest).

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“Clube de Jornalistas” na RTP chegou ao fim

Por uma série de afazeres prioritários, não me dei conta de que o programa “Clube de Jornalistas”, na RTP2, terminou. Acabo de ver a notícia no site do Clube. E, naturalmente, lamento a decisão e não fico tranquilo com o silêncio dos media sobre o assunto, em particular o silêncio da própria RTP. Não me dei conta de que o assunto tenha sido noticiado.
O programa surgiu no quadro do projecto do então ministro Morais Sarmento de abrir o segundo canal público à sociedade civil e, desde então, foram emitidos 197 programas, por onde, segundo dados do Clube, passaram mais de 500 convidados e foram divulgados outros tantos depoimentos.
O fim do Clube de Jornalistas na RTP é, afinal, mais uma manifestação de um quadro preocupante: os media -e a televisão em especial – têm dificuldade de se discutir em público. E mais ainda quando se trata do jornalismo. Por isso, e apesar de todas as críticas que se possam fazer ao programa que ia para o ar já perto da meia noite, ele constituía um espaço de reflexão importante e praticamente único.
A RTP, a quem cabem especiais responsabilidades nesta matéria, não pode limitar-se a retirar o “Clube de Jornalistas” da grelha de programação. A cidadania e a qualidade de vida democrática levam-nos a exigir que a perspectiva do exame crítico da acção dos media e do jornalismo prossigam, desejavelmente em programa com formato mais ambicioso e dinâmico e em horário mais razoável.

Entretanto, fica aqui o link para o vídeo da última edição.

No dia em que o Telejornal da RTP faz 50 anos… (7)

… Júlio Magalhães, director de informação da TVI, considerou a generalização das auto-estradas como um factor que mudou francamente o carácter temporal da notícia. «A rapidez com que vamos e vimos obrigou a que houvesse mais informação na televisão», admitiu, reconhecendo igualmente o papel das novas tecnologias na alteração do espectro televisivo. Finalmente, colocou nas audiências um acento muito importante, para não dizer decisivo, nas mudanças operadas no jornal televisivo como género jornalístico.

No dia em que o Telejornal da RTP faz 50 anos… (6)

… José Alberto Carvalho, director de informação da RTP, admitiu que «o serviço público pode suscitar alguns problemas de consciência». E sobre a mudança em curso no formato da informação televisiva, o jornalista da estação pública anotou a relação de confiança como esfera em mudança. A própria necessidade de reinventar a televisão todos os dias é um sinal do imperativo de mudança. Noutro sentido, José Alberto Carvalho reconheceu ser necesssário alargar as agendas informativas e contrariar o mimetismo jornalístico.

No dia em que o Telejornal da RTP faz 50 anos… (5)

… José Arantes, ex-assessor de Cavaco Silva, reconheceu que o combate político se faz hoje sobretudo na comunicação social. Nessa medida, considerou que o Telejornal é um ponto de interesse estratégico na batalha política: é transversal à audiência, é transmitido no melhor horário para formar opinião, todos os portugueses vêem a mesma notícia à mesma hora (o que provoca um ‘sentido de irmandade nacional’), provoca sentimentos nacionais…

No dia em que o Telejornal da RTP faz 50 anos… (3)

… Estrela Serrano, membro da ERC e ex-assessora de imprensa, considerou que hoje «não há nenhum presidente, nenhum primeiro-ministro, que possa controlar um órgão de comunicação social…», embora admita que o possa fazer pontualmente, não havendo nisso nenhum mal, pois faz parte da relação entre jornalistas e fontes/actores de infomação.

No dia em que o Telejornal da RTP faz 50 anos… (2)

… a jornalista Judite de Sousa explicou os factores que vão tornando o Telejornal num produto mais voltado para o cidadão comum: as preocupações com os tons de voz, a preferência por textos mais emotivos, a aproximação aos palcos dos acontecimentos com o jornalista a sair mais para a rua…  Numa intervenção em que fez o elogio dos pivots, Judite de Sousa falou do Telejornal como um produto pensado ao pormenor, planeado em todos os seus detalhes, para levar ao telespectador a urgência da notícia.

No dia em que o Telejornal da RTP faz 50 anos… (1)

… a jornalista Maria Elisa, participante da conferência que assinala na Fundação Portuguesa das Comunicações este aniversário, reconhece que, com a Revolução de Abril de 74, o papel do jornalista se foi tornando muito facilitado pelas novas tecnologias, pelo aparecimento de cadeias internacionais de informação. Mas o papel do jornalista foi também, para a ex-pivot, sendo progressivamente colocado à prova, nomeadamente no que respeita à independência da sua actividade.

Genéricos do Telejornal nos últimos 25 anos

Eis alguns exemplos de genéricos do Telejornal nos últimos 25 anos, interessantes para verificar mudanças e continuidades, no momento em que se evocam os 50 anos deste programa diário (o primeiro abre no site da RTP):

Genérico do TJ

O serviço público na era do ‘overload’ informativo

“Num tempo de superabundância de informação, cremos ser mais importante do que nunca a existência de um serviço público de qualidade que acredite realmente nos valores que o mercado não fornece”.
A afirmação é de Nic Newman, fundador da edição digital da BBC e actualmente supervisor de jornalismo no departamento de tecnologia e meios do futuro da cadeia pública britânica, e vem publicada numa entrevista feita pelo diário espanhol ABC.
Newman explica a sua perspectiva:
“Há quem pense que a abundância de informação torna desnecessário o serviço público, e que o mercado se encarregará de resolver as coisas. Porém, o que se tem visto nos Estados Unidos e noutros países é que este modelo reduziu o espectro da informação: há muitas organizações, mas todas fazem o mesmo. Há uma enorme carência que se observa na cobertura internacional de qualidade, na cobertura política e noutros campos”.
Dir-se-á – acrescento eu – que os serviços públicos estão longe de proporcionar essa informação diversificada e de qualidade, que Nic Newman defende. Mas, perante isso, que fazer? Acabar com o serviço público ou exigir que ele se transforme e responda, pela diferença, àquilo a que, de outro modo, não teríamos acesso?

Para ler a entrevista: Nic Newman: «Un servicio público de noticias es hoy más importante que nunca»

UMinho e RTP evocam os 50 anos do Telejornal

O Centro de Estudos Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho e a RTP promovem, no próximo dia 19 de Outubro (segunda-feira), na Fundação das Comunicações, em Lisboa, uma conferência que visa assinalar os 50 anos do Telejornal.
O programa é o seguinte:
50 anos do TJTJ_50 anos1