A entrevista televisiva: mais pode ser… menos?

Nos últimos anos, vem-se generalizando no jornalismo televisivo a entrega das entrevistas a grandes figuras do Estado, ou os grandes debates eleitorais, não apenas a um jornalista mas, muitas vezes, a dois ou mais.  Está ainda por demonstrar a vantagem, para o campo jornalístico e para o sucesso da sua produção discursiva mediadora, desta alteração do formato.

A leitura imediata é aparentemente favorável a esta situação: havendo mais jornalistas com possibilidade de fazer perguntas, há um alargamento do campo de possibilidades. No terreno das práticas, os jornalistas podem preparar melhor as questões, definindo e dividindo entre si os papeis que desempenharão, nomeadamente, na atribuição e desenvolvimento de questões relativas a áreas temáticas de generalidade ou de especialidade. Por outro lado, tratando-se da ocupação de um plateau televisivo, a presença de vários jornalistas pode indiciar uma vantagem semiótica de quem detém a função-pergunta, que é também quem detém a função mais geral de mediação e de representação do público. Mais representação e mais diversidade podem ser uma vantagem imediata. Será assim?

Julgo existirem algumas questões que, dentro de uma definição dinâmica do género entrevista, esta evolução do seu formato televisivo, nos coloca. Um dos problemas práticos, inerentes à sua própria execução em tempo real, das entrevistas conduzidas por mais do que um jornalista, é que nem sempre são fáceis de coordenar. A pré-coordenação, que comporta vantagens imediatas evidentes, já elencadas acima, pode esboroar-se nos próprios constrangimentos instantâneos do formato que colocam, directamente, em confronto, o estabelecimento do diálogo com o entrevistado com o limite temporal do formato.

Existem também, por um lado, o entrevistado e as dificuldades próprias que ele coloca (José Sócrates, por exemplo, era visto pelos jornalistas como “um animal político” por excelência, tornando-se cada entrevista televisiva em directo com o antigo Primeiro-Ministro um exercício que colocava, desde logo, os jornalistas, perante os seus mais íntimos receios de exposição de fragilidades próprias – em resumo, uma entrevista com alguém como Sócrates, era invariavelmente um exercício auto-intimidatório desde a fase de preparação) e, por outro, a própria necessidade de intercoordenação das questões e do seu sequenciamento temporal, dificultando o aprofundamento de qualquer estratégia dialógica, ou seja, a própria partilha do plateau com outro(s) jornalista(s) e a necessidade de respeitar as perguntas por ele(s) preparadas, tornam-se, muitas vezes, constrangimentos não totalmente previstos.
Assim, ao contrário do que possa parecer no imediato, o facto de uma entrevista de televisão ser conduzida por mais do que um jornalista não significará que haja uma vantagem final do lado jornalístico. Poder-se-á até especular e discutir a possibilidade de que a evolução do formato possa estar a gerar uma vantagem do lado dos entrevistados, porque lhes acabam por ser fornecidas, pela gestão do processo em tempo real, zonas de sombra, espaços maiores do que os inicialmente aparentes, para dominar a produção do discurso, transformando essas zonas de sombra em zonas de conforto, sabendo que dificilmente o formato os fará sair delas.

Um dos maiores problemas que se colocam ao campo jornalístico é que o grau de preparação técnica que uma entrevista, hoje, exige, nomeadamente no conhecimento dos intrincados assuntos da actualidade económica e financeira, restringe o campo de possibilidades dos jornalistas. Essa exigência é potencialmente geradora de um muito maior receio de errar, porque, desde logo, os meandros técnicos das questões permitem múltiplas linhas-de-fuga, ou seja, a própria especificidade temática constrói, também, para o entrevistado, zonas intersticiais, zonas de sombra.
Repare-se como, por exemplo, é em momentos posteriores de análise e opinião, que os jornalistas-especialistas que, muitas vezes, já se encontraram no papel de entrevistadores, se revelam particularmente cáusticos. Vimo-lo ontem, nas televisões, nos debates que se seguiram à entrevista de Pedro Passos Coelho à RTP.

Em tudo isto, há um outro problema de base: a entrevista televisiva, além de se inserir num género jornalístico amplo é, em si mesma, um formato próprio dentro desse género. Além do constrangimento do tempo, que não existe na entrevista para o jornal, por exemplo, a sua semiótica é muito mais complexa. Há jogos semióticos cruzados, produção de significações paralelas e variadas, que nem sempre têm relação directa com o discurso propriamente linguístico que está a ser produzido. A entrevista televisiva torna-se, assim, outra coisa. É um texto feito de múltiplos textos. Por isso, ontem e hoje, é possível lermos e escutarmos tanto sobre o conteúdo como sobre a forma. Diria mesmo que, em televisão, essa forma se torna, tantas vezes, mais decisiva do que o próprio conteúdo.

Leia-se, por exemplo, o modo como começa a análise da Estrela Serrano à entrevista.

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Um Dia com os Média

Convocar os cidadãos e a sociedade para refletir sobre os papel e o lugar dos media nas suas vidas é o objetivo da Operação Um dia com os Media, projeto que irá decorrer no próximo dia 3 de maio, dia mundial da liberdade de imprensa, com múltiplas iniciativas por todo o país.
Esta Operação surge num tempo em que as tecnologias e plataformas digitais permitem, como nunca, que os cidadãos se exprimam no espaço público, fazendo por isso sentido que o olhar crítico e participativo relativamente aos media seja, ele próprio, um exercício de liberdade.

Promovida pelo Grupo Informal sobre Literacia para os Media, esta operação congregará um vasto e variado conjunto de atividades concebidas e realizadas pelas mais diversas instituições, tais como bibliotecas, meios de comunicação, escolas, instituições do ensino superior, grupos de alunos, centros de investigação e formação, associações, universidades de seniores, movimentos, igrejas, autarquias e outras, glosarão o mote Um dia com os media: Que significado têm os media na nossa vida e como poderiam tornar-se mais relevantes?
São diversas as ações programadas, como sejam, programas de rádio e televisão, conferências, mostras, concertos, debates, projeção de filmes, concursos escolares, ações de formação, jogo lúdicos, ações de rua, entre outras.
A lista completa de ações pode ser consultada AQUI.

Toda a informação sobre a Operação pode ser encontrada AQUI.

Grupo Informal sobre Literacia para os Media

O Grupo Informal sobre Literacia para os Media é uma plataforma que reúne entidades públicas com missões no domínio da literacia para os media, sendo presentemente constituído por: Comissão Nacional da UNESCO, Conselho Nacional de Educação, Entidade Reguladora para a Comunicação Social, Gabinete para os Meios de Comunicação Social (GMCS) e Universidade do Minho – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade.
Entre os muitos projetos desenvolvidos pelo Grupo, importa destacar o Portal da Literacia para os Media e o Congresso “Literacia, Media e Cidadania”, do qual resultou a “Declaração de Braga”.

Aquele anúncio dos cavalos é o quê?

No livro ‘O retrato de Dorian Gray’, Oscar Wilde escreve: “But beauty, real beauty, ends where an intellectual expression begins“.
Numa leitura um nada mais prosaica, Boss AC diz-nos, na letra da sua mais recente música, “Ó Homem fazias-me rico em vez de bonito”.
Há, em ambas as frases, a noção da mútua exclusão; no primeiro caso entre a beleza e a expressão intelectual e, no segundo, entre a beleza e a fortuna (alguns, certamente iludidos, poderiam até pensar que as duas são próximas).
A publicidade – a Publicidade de grande qualidade – sempre viveu na corda bamba que continua a esticar-se entre estas polaridades; sempre quis ocupar territórios que, em simultâneo, nos deslumbram e nos provocam; sempre quis cativar-nos com astúcia, com elegância, com humor. E sempre – sobretudo depois dos pioneiros anúncios do VW carocha nos Estados Unidos – fez por mostrar-nos que tinhamos direito a muito, a partir de muito pouco.

A mais recente publicidade televisiva da Portugal Telecom contraria tudo isto.
É lindíssima, mas não tem mensagem absolutamente nenhuma.
É caríssima e faz tudo para não o esconder.

O novo (e longo – outro detalhe de ostentação) anúncio mostra-nos um universo fictício, muito belo, descoordenado, aleatório, onde tudo pode acontecer (e com o dinheiro gasto – tudo acontece mesmo!) mas onde tudo vale muito pouco porque não há propósito.
Nesse mundo imaginário, com amazonas em câmara lenta e setas que, por entre nuvens de talco, rasgam o infinito, não há horizonte – os fundos são sempre negros – e não há cronologia.
O tempo e o espaço não existem e os indivíduos saltam e contorcem-se no vazio.
Não são gente, certamente (como diria o outro), porque gente não é assim – nós somos história, somos espaço e somos relações.
Os personagens azulados do tal anúncio rico, que afinal é muito pobre, são coisas, são instrumentos.

A PT, que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro que ganha à custa dos inúmeros monopólios (ou pseudo ‘posições dominantes’) que detém, diz-nos que bem, bem, era sermos mesmo como os amorfos estrunfes do seu anúncio – alegres saltitões calados.
E ‘calados’ é, para eles, mesmo muito importante.

Da inovação que não há sobre a “inovação” que, supostamente, há

A RTP Informação dedicou, na sexta-feira, um dia inteiro à inovação. Neste sábado, a partir de uma conferência-debate que organizou, o DN veio esclarecer, entretanto, que “inovar não basta: é preciso ser empreendedor e exportar”

O tema da inovação é recorrente na agenda dos media, a própria palavra é um dos fetiches da comunicação contemporânea, surgindo constantemente utilizada e reciclada para reutilização. E, como fetiche constantemente realizado, o que nele sobra em excitação, falha em compreensão.

Centremo-nos, apenas,  no questionamento da inovação sob o ponto de vista das relações de domínio do espaço comunicacional: de facto, além de recorrente, a inovação surge recorrentemente tratada, isto é, o discurso que se produz, não só nos media mas também nas esferas política e académica, é invariavelmente fundado numa repetição que associa inovação a tecnologia, e nesta, a economia. Isto é, trata-se o inovador como concretização prática do que é novo no território do objecto. Tal como denuncia o DN, a inovação pouco valor parece ter como conceito subjectivo, ou seja, quando se situa apenas no território da ideia e, aí, na teoria, na reflexão, na sua complexidade matricial, se não se puder tornar coisa concreta, objectivada, simplificada, aplicável, visível.

A preocupação que daqui emerge, para todos os que têm de conjugar a sua acção nos campos da investigação científica e da comunicação terá, pois, a ver com o efectivo valor da ciência que se faz e da ciência que é necessário fazer, quando se sabe que as estratégias para a comunicação de ciência estão já, de certa forma, reféns deste esquema discursivo, que se impõe como jogo e regra de jogo. Que espaço sobra, pois, à ciência que contém um potencial de inovação no território das ideias, do confronto de complexidades e dúvidas, ou seja, uma ciência fundada na questão, se existe, a montante e a jusante dos seus processos fluidos, a certeza de que a única ciência mercantilizável nos espaços comunicacionais, é a ciência que se fixa no poder imediato da resposta?

Sendo, simultaneamente, observadores extrínsecos e intrínsecos à academia, quer parecer-nos que esta viverá, hoje, mais do que nunca, sob o jugo deste paradoxo. O que a fragilizará cada vez mais como locus de produção de conhecimento e a pode reduzir a uma mera fábrica de saberes empiricamente aplicáveis, cujo fim será sempre o da utilidade e utilização imediatas (há dias, esta preocupação surgia expressa numa entrada de Manuel Pinto, a propósito da denúncia de Hermínio Martins de um “frenesi do articulismo” na actual produção académica).

E assim, ao falarmos da inovação como esquema discursivo que produz ideias dominantes no espaço comunicacional, podemos estar a falar, afinal, da sua efectiva negação.

Vida de insecto

Flower Power

Se há coisa que a publicidade faz bem é retratar a nossa alma e acompanhar todos os momentos da nossa vida. Confortável e irritantemente omnívora. Irresistível.

O VW carocha surge em 2012 adaptado ao momento, como sempre fez, com este novo outdoor. Oferece-nos POWER, tira-nos FLOWER. A vida não está para menos mas apetece perguntar: Onde estão os hippies? E os yuppies? Que utopias nos restam a nós, breves insectos deste imenso universo?

A mensagem da flor riscada é a tradução do conceito exibido já no ano passado, na Super Bowl, o  21th Century Beetle.

Ecológicos e minúsculos, respirando as nossas vidas intensamente superficiais desaprendemos de sonhar. A Volkswagen – carro do povo –  recorda-nos dessa pulsão e dá-nos um empurrãozinho.

1964

1966 - Don't laugh.

1967

1968 Live below your means

Receita para os tempos que correm: viver abaixo das possibilidades.

O escaravelho tem sete vidas. Ou mais.

Imagem de abertura: www.ligateamedia.pt; Publicidade vintage: http://www.adclassix.com

Sessão sobre Semiótica Social Crítica


“Semiótica Social Crítica: agenda para a pesquisa multimodal” é o tópico que Carmen Rosa Caldas-Coulthard, conhecida Professora e investigadora do CELS – Centre for English Language Studies, da Universidade de Birmingham, vai discutir com os alunos de doutoramento de Ciências da Comunicação da UM e com todos os interessados, no próximo dia 27, a partir das 14.3, na Sala de Actos do Instituto de Ciências Sociais, Campus de Gualtar da Universidade do Minho, em Braga.
A iniciativa é do Centro de estudos de Comunicação e Sociedade e do Curso de Doutoramento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho.
Carmen Caldas-Coulthard lecciona nas áreas da linguagem e do género, linguagem nos média, análise narrativa, discurso, cultura e comunicação e estudos de tradução. Investiga actualmente a forma como as identidades são construídas no discurso e como os diversos modos de comunicação contribuem para o significado global dos textos. Tem um interesse particular na questão de como o género e as representações culturais são realizadas no discurso dos média e nas novas tecnologias.
Entre as suas obras destacam-se Language and Gender (Atica, 1991), News as Social Practice (F.U.S.C., 1997); Texts and Practices: Reading in Critical Discourse Analysis (ed. com Malcom Coulthard, Routledge, 1996), The Writer’s Craft, the Cultures’ Technology, (ed. com Michael Toolan, Rodopi, 2005), Desvendando Discursos (ed. com Leonor Scliar Cabral, F.U.S.C., 2007), Identity Trouble: Critical Discourse and Contested Identities, (ed. com Rick Iedema, Palgrave, 2008).

Capas de jornais e eleições norte-americanas

Nos últimos dias, observei as capas dos jornais americanos durante a cobertura das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Chamaram-me a atenção, sobretudo, as capas da terça-feira (04/11), dia de ir às urnas; e também as do dia seguinte (05/11), o esperado momento de divulgar o candidato eleito.
Após uma rápida e superficial observação de tais capas (disponibilizadas no Newseum), constatei uma intensa repetição de títulos e fotos. “It’s time to decide“, e suas variações, era o que predominava: “Time for the decision“; “Time for you to choose“; “Decision day“; “It’s up to you“… Outros periódicos optaram pela notabilidade histórica do evento: “A historic election day“; “This campaign is History“… Enquanto outros aderiram à campanha de incentivo aos cidadãos a votarem: “Vote“; “Vote today“, “The power of one“….
Quanto às imagens, o constante eram as fotos de cada um dos candidatos lado a lado (ou “frente a frente”), sendo que muitas dessas imagens eram idênticas: candidato e bandeira dos Estados Unidos ao fundo.
Já nas capas da quarta-feira, reparei novamente que as variações entre os diferentes periódicos eram mínimas. Alguns (muitos, por sinal) simplesmente diziam o óbvio: “Obama wins” – esta manchete repetiu-se por capas e mais capas, sendo que muitas delas, além da mesma manchete, apresentavam também a mesma foto. Vários outros voltaram à abordagem histórica, que já havia sido mencionada no dia anterior: “A historic day“; “Historic victory“; “Obama makes History“… Muitas primeiras páginas apresentavam simplesmente “Obama“, enquanto várias outras referiam-se às palavras do próprio candidato: “Change has come“; “Yes, we can“…
Pergunto-me, portanto, o porquê de tais repetições, ainda mais tratando-se de repetições do óbvio. Fico com a impressão de que, inconscientemente, os jornais determinaram certas categorias nas quais deveriam concentrar-se – DECISÃO; HISTÓRIA; VOTO; MUDANÇA – como se não fosse “permitido” escolher títulos ou imagens fora das abordagens pré-estabelecidas.20081105_obama-grabs-headlines(imagem retirada daqui)

É facto que a rotina nas redacções muitas vezes impossibilita a elaboração de uma primeira página mais criativa. Mas neste caso não se trata de uma primeira página inesperada ou de uma assunto que tenha surgido repentinamente. Há muito tempo os meios de comunicação acompanham intensamente as eleições norte-americanas e já era mais do que sabido quais seriam os temas desses dois dias: a disputa final entre os dois candidatos, e a vitória de um deles. Portanto, estas manchetes poderiam estar sendo elaboradas já há muito tempo, certo? Logo, não poderiam ser mais criativas e não tão “coincidentes” entre si?
Não questiono se o tema deveria ou não estar nas capas de todos os jornais. Acredito que este era, sem dúvida, o assunto do dia e, tanto como leitora, quanto como jornalista, parece-me evidente dar o destaque merecido às eleições daquele país, sobretudo naquele país. Penso, entretanto, que as possibilidades de abordagem são inúmeras. Não só em relação aos títulos (que dependem sobretudo da criatividade – e boa vontade – de quem os elabora), como também em relação às fotografias. Seguramente não eram poucas as imagens disponibilizadas pelas agências de notícias nos últimos dias. Seguramente seria possível que cada um desses veículos optasse por uma imagem diferente e ainda assim sobrariam muitas e muitas outras a serem escolhidas. Por que, então, os jornais tendem a escolher as mesmas fotos e títulos? Por que, mesmo os que são diferentes, não são assim tão diferentes? Estariam os jornalistas condicionados a agir maquinalmente, sem nem se darem conta disso? Ou trata-se simplesmente da preguiça de se criar algo novo? Como já disse, neste caso das eleições norte-americanas, a velha desculpa da “falta de tempo” não justifica. Não tenciono culpabilizar ninguém e nem mesmo dizer como as capas devem ou não ser feitas, mas penso que esta é uma questão que merece ser questionada e reflectida, já que é recorrente no jornalismo contemporâneo.

Daniela Caniçali
(repórter fotográfica)