Um Dia com os Média

Convocar os cidadãos e a sociedade para refletir sobre os papel e o lugar dos media nas suas vidas é o objetivo da Operação Um dia com os Media, projeto que irá decorrer no próximo dia 3 de maio, dia mundial da liberdade de imprensa, com múltiplas iniciativas por todo o país.
Esta Operação surge num tempo em que as tecnologias e plataformas digitais permitem, como nunca, que os cidadãos se exprimam no espaço público, fazendo por isso sentido que o olhar crítico e participativo relativamente aos media seja, ele próprio, um exercício de liberdade.

Promovida pelo Grupo Informal sobre Literacia para os Media, esta operação congregará um vasto e variado conjunto de atividades concebidas e realizadas pelas mais diversas instituições, tais como bibliotecas, meios de comunicação, escolas, instituições do ensino superior, grupos de alunos, centros de investigação e formação, associações, universidades de seniores, movimentos, igrejas, autarquias e outras, glosarão o mote Um dia com os media: Que significado têm os media na nossa vida e como poderiam tornar-se mais relevantes?
São diversas as ações programadas, como sejam, programas de rádio e televisão, conferências, mostras, concertos, debates, projeção de filmes, concursos escolares, ações de formação, jogo lúdicos, ações de rua, entre outras.
A lista completa de ações pode ser consultada AQUI.

Toda a informação sobre a Operação pode ser encontrada AQUI.

Grupo Informal sobre Literacia para os Media

O Grupo Informal sobre Literacia para os Media é uma plataforma que reúne entidades públicas com missões no domínio da literacia para os media, sendo presentemente constituído por: Comissão Nacional da UNESCO, Conselho Nacional de Educação, Entidade Reguladora para a Comunicação Social, Gabinete para os Meios de Comunicação Social (GMCS) e Universidade do Minho – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade.
Entre os muitos projetos desenvolvidos pelo Grupo, importa destacar o Portal da Literacia para os Media e o Congresso “Literacia, Media e Cidadania”, do qual resultou a “Declaração de Braga”.

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A democracia tem destas coisas: um like é um voto

A participação está na moda. Tão na moda que quem não participa não é cool, não está in. É democrático. É bonito. Mas merece ponderação. Digo eu. Haverá diferença entre escolher o nome para um novo iogurte ou decidir limitações ao trânsito no centro da cidade?

A democracia tem destas coisas. Se participamos, somos engajados e motivados, adquirimos de algum modo um grau extra de cidadania. Se não participamos e somos apenas cidadãos no número e no papel perdemos o direito moral à cidadania. Mas devemos questionar que tipo de participação é esta e que tipo de cidadania queremos e merecemos.

As instituições desdobram-se em acções, actuações e iniciativas para promover a participação, potencializada pela procura de formas alternativas nas novas tecnologias mas também no acesso deliberativo. É democrático. É bonito. Mas merece ponderação. Digo eu. Haverá diferença entre escolher o nome para um novo iogurte ou decidir limitações ao trânsito no centro da cidade?

Moralismos àparte, a participação tem a sua dose de perversão, não sendo a sua instrumentalização como legitimação do poder a menor de todas.

É por isso que eu, que vivo no norte, acabo de participar numa decisão que não me diz respeito, votando no logo que servirá de imagem e identidade ao Orçamento Participativo de Lisboa 2012. Não me diz respeito porque, não vivendo lá, não tenho nada a ver com o assunto. Ou, sendo Lisboa a capital, talvez eu me me possa considerar uma cidadã de Lisboa, agora que todos somos cidadãos do mundo?
Isso não interessa nada. Eu participo porque posso. Eu e toda a gente que vá à página do Facebook “Concurso de Imagem Orçamento Participativo de Lisboa”. Um like é um voto. E um voto é uma tomada de decisão.
Ou talvez seja apenas o reforço de uma velha constatação:
“A democracia é tão somente um mecanismo de mercado: os votantes são os consumidores; os políticos são os empresários.”
Crawford Brough Macpherson in A democracia liberal: origens e evolução, 1977

É só fachada.

Agora que vem aí a Primavera chega-nos aquela vontade de renovar a vida, a casa e o mundo. Mesmo que seja só cosmética e no essencial fique tudo na mesma, mudar as almofadas do sofá ou fazer um novo corte de cabelo dá logo um ar mais lavado. A criatividade renova.

 Com a crescente dificuldade de cada vez mais famílias pagarem as hipotecas da casa, a Brainiacs from Mars, uma agência americana de marketing não convencional de alto impacto, lançou uma campanha, que é antes de mais nada de auto-promoção. Também tem o seu lado de responsabilidade social e oferece uma experiência positiva e envolvente ao consumidor, uma win-win situation. Seja qual for a etiqueta que lhe quisermos colocar, o que é certo é que tem dado que falar e consiste no seguinte: a Brainiacs paga a hipoteca da casa em troca do uso da fachada como espaço publicitário, durante os meses que durar o contrato, que pode ir de um mês a um ano. O interessante é que se compromete a voltar a pôr tudo num brinco, pintando o espaço usado com as cores originais. É uma espécie de Querido, mudei a casa, mas só por fora.

Neste negócio o cliente vende a alma ao diabo e sujeita-se à reacção adversa da comunidade de vizinhos, já que a pintura é em cores berrantes, mas ganha duplamente com o pagamento da hipoteca e com a renovação das paredes. Entre pagar a casa e mantê-la ou passar a vergonha, a escolha pode não ser fácil mas em tempo de guerra não se limpam armas. Quem quiser candidatar-se pode fazê-lo colocando fotos da sua casa na página do Facebook e preenchendo o formulário de candidatura. Para os que preferem uma relação mais personalizada, a agência propõe o  uso de uma t-shirt publicitária em troca do pagamento de três meses de hipoteca.

Que se saiba ainda não o fazem em Portugal, por isso talvez seja uma boa ideia para a renovação dos prédios decrépitos dos centros das cidades e uma solução de recurso para o ‘Querido, entreguei a casa ao Banco‘, previsível para todos os que se confrontam com esta possibilidade. E são muitos. Cada vez mais em Portugal. Segundo Tiago Mesquita no blogue 100 Reféns do Expresso,

“O número de pessoas que deixaram de pagar os empréstimos bancários aumentou 450%. Repito: 450%.”

Talvez seja um número suficiente para tornar uma campanha de renovação de fachadas rentável. Talvez um dia destes um banco pegue na ideia, faça um consórcio com uma marca de tintas e uma empresa de construção civil falida e comece a pintar as fachadas de novo, incluindo a sua, com cores fortes e vibrantes que nos façam acreditar. De novo.

‘Petits-fours’

No rescaldo do fogo de artifício da abertura de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 na qual não tive qualquer participação a não ser numa espreitadela fugaz à televisão, venho aqui dizer que também Eu faço parte!

E não é de agora. Na capa do livro da quarta classe, salvo erro, o Castelo de Guimarães representava uma realidade distante no tempo e no espaço, uma ligação às minhas raízes mais  remotas, construindo um sentimento de pertença anacrónico nas águas quentes de Pemba, candidata a mais bela baía do mundo.

Retirado do vídeo promocional Guimarães CEC 2012

Confesso que quando anos mais tarde visitei o castelo fiquei decepcionada por naquele monte de pedras em ruínas quase nada restar do castelo que eu tinha construído na minha imaginação, cheio de soldados de cota de malha espreitando nas ameias, comandados por um rei Afonso de coroa reluzente. Já era tarde demais para rever a história mas o castelo não perderia nenhum fulgor na memória afectiva que dele guardo.

Guimarães 2012 é um bom exemplo de um restyling de marketing territorial, ancorando-se numa janela-coração e na ideia de participação e envolvimento da população local para além dos vários públicos estratégicos. Não sei de quem partiu a ideia, se foi uma encomenda ou uma criação espontânea, mas quando vi o bolinho húngaro com a forma do logo da capital europeia, percebi que a aposta da comunicação estava ganha. Haverá melhor merchandising? A participação para dar voz à diversidade foi levada ao extremo e até se pode personalizar o logótipo. Crie aqui o seu.

Só quando nos apropriamos dos símbolos é que eles de facto nos representam e nos dias de hoje é fundamental comunicar olhos nos olhos, olhos no coração.

Guimarães, I lobe ya!

Obs: Bolinho-coração-logo gentilmente roubado a Paula Nogueira que atribui a autoria à “Pavico, uma empresa com história que se dedica a panificação, pastelaria e catering. Muito conhecida na cidade pelas coisas boas que produz mas também pelo arrojo de comunicação”. Ainda me prometeu uma caixa de bolinhos. A boa comunicação abre, de facto, novas possibilidades.

O que vamos agora ouvir sobre o Concórdia?

Quando, há anos, trabalhei em Inglaterra, dizia-se que um acontecimento só era mesmo ‘um acontecimento’ quando chegavam ao terreno os ‘grandes artistas’ (do jornalismo): Kate Adie, John Simpson, Misha Glenny, George Alagiah, Ben Brown ou o inesquecível Martin Bell (para citar apenas alguns).
É, naturalmente, um exagero, mas o certo é que esta perceção não era partilhada apenas pelos restantes jornalistas, mas também pelas audiências que se sentiam identificadas com aquelas pessoas de forma muito particular.
Não estando escrito em lado algum, este ‘sub-texto’ fazia parte do visível (para usar uma expressão do Luís Miguel Loureiro); as regras pareciam ser conhecidas de todos e o espaço era gerido por uma dose substancial de previsibilidade.
Há ‘grandes artistas’ em todas as áreas (não apenas na Comunicação) mas há para muitos deles o resguardo da menor visibilidade; são conhecidos na comunidade de interesses partilhados mas a sua presença não é sentida por audiências mais vastas.
Acontece isso, de alguma forma, com a Burson-Marsteller, a empresa que no passado domingo à noite aceitou gerir a comunicação de crise da proprietária do navio de cruzeiro, Costa Concórdia.
Especializada precisamente em comunicação de crise, a BM tem no seu portefolio trabalho com a indústria tabaqueira, com a Exxon (depois do acidente com o Exxon Valdez), com a Union Carbide (depois do acidente de Bhopal), com a Babcock and Wilcox (depois do acidente nuclear em Three Mile Island), com os governos do Egito, Argentina e Roménia (todos em períodos de regime autoritário) e ainda com o governo da Indonésia (na sequência do massacre do cemitério de Santa Cruz, em Timor-Leste).
Será, por isso, interessante prestar atenção à informação a que vamos ter acesso, de agora em diante, sobre o caso do Costa Concórdia.
O que vais ser dito e, sobretudo, o que ficará por dizer.
Está em campo não apenas ‘um grande artista’; A BM está para os ‘grandes artistas’ como o Sinatra estará para os ‘cantores famosos’ .

(Foto com permissões CC, retirada do espaço Flickr ‘Il Fatto Quotidiano‘)

Pingo Amargo

Está no nosso ADN. O Pingo Doce é uma marca portuguesa. E gostamos dela. Se não gostássemos, não nos importávamos. Mas a julgar pela proliferação de vozes críticas gostamos mesmo.

Começámos o namoro com anúncios-­poema de iluminação mística e voz colocada que transfiguravam uma vulgar truta de aquário num rodovalho requintado, posicionando-­‐se como uma cadeia de distribuição com um toque gourmet que nos dava a ilusão de uma vida mais bonita. Oficializámos a relação mais tarde quando o apelo à tradição veio acompanhado de uma descida de estatuto, tornando o sítio do costume um lugar mais popularucho, uma espécie de parque temático com sorrisos da charcutaria aos detergentes.
Não gostámos, criticámos a musiquinha irritante e semi-­pimba do venha cá até que ela começou a entrar no ouvido. E porque sabe bem pagar tão pouco, perdoámos e aproveitámos as promoções durante todo o ano, sem cartões nem complicações.
Estávamos nesta vidinha quando o parceiro com quem partilhávamos os nossos dias assumiu publicamente que afinal o que é nosso, o nosso azeite, o nosso vinho, o nosso pão com azeitonas, o nosso bacalhau da Noruega, enfim, o nosso amor por Portugal, tinha andado a fazer olhinhos a um sistema fiscal bem mais vantajoso.
Afinal não tínhamos casado para o melhor e para o pior? Não gostámos. Sentimos a facada nas costas. Menos de um ano depois de Soares dos Santos apelar a um governo de salvação nacional, procurava a sua e a nossa salvação numa relação extra-conjugal e explicava porquê num comunicado em que nos diz que nos ama desde 1792.

Comunicado Pingo Doce distribuído nas lojas em 5.1.12

Distribuído nas lojas perante a estupefacção de muitos dos consumidores que nem sequer tinham dado conta de qualquer tipo de polémica, tal como não se tinham apercebido da publicidade enganosa dos 0% de IVA no verão passado, o Pingo Doce assumia uma estratégia de comunicação de crise, comunicando para evitar outros protagonismos e mais ruído.
A traição poderá sido mais simbólica que real mas doeu. Gritámos: Podes ficar com a casa e o carro mas não me tires o carrinho de compras! Esperneámos e retaliámos com acusações anti-­patrióticas e boicotes. Alguns de nós foram até fazer compras à mercearia da esquina nessa semana. Só para aprenderem a não brincar com os nossos sentimentos e com a nossa fidelidade.
Mas porque as coisas não estão fáceis e o Cabaz Família nos dá 3kg de peixe congelado por 10 €, em breve a amargura deste amor corrompido dará lugar a um breve amuo. Até parece a letra de um fado, mas não é.

Entre raivas, apoios e indiferenças o Pingo Doce tem estado no centro dos argumentos esgrimidos contra e a favor, ganhando ainda mais tempo de antena. No fim da novela o que interessa é que o consumidor irá ao Pingo Doce enquanto isso lhe for favorável. E o consumidor está a aprender a fazer contas. As contas que lhe permitirão decidir pelo divórcio ou por manter um casamento de paixão morna com os habituais altos e baixos da conveniência.

O sapato de cristal da Cinderela poderá ser um clomp de madeira feito para turistas em Volendam e o melhor é pormo-­nos em cima dos tamancos e caminhar como se fossem stilettos.
Antes isso. Afinal já nascemos descalços. É bom que cada um de nós compare e comprove. Este é o pingo amargo-­doce de que se aprende a gostar.

Veja mais intervenções sobre esta relação de amor-ódio aqui e aqui.