Ai a culpa agora é da fonte?…

Embora me custe, quase me apetecia dizer: ainda bem que o treinador Domingos Paciência decidiu accionar judicialmente quem escreveu e difundiu notícias, baseadas apenas numa “fonte não identificada”,  sobre um episódio que ele garante ser falso! E custa-me, mas quase me apetecia continuar: e oxalá o assunto não morra antes de chegar a tribunal mas, pelo contrário, vá até julgamento e permita que tudo se esclareça! Esta história das “fontes não identificadas”, a propósito de tudo e de nada, já não se aguenta e é tempo de tentar pôr alguma ordem na coisa, em nome do respeito pelas pessoas e da credibilidade do jornalismo.

Há um aspecto que me parece da maior importância sublinhar e que parece andar bastante esquecido: o recurso a fontes que não se identificam deve ser um recurso EXCEPCIONAL e não uma prática banal, normal, quase quotidiana. Conceder a uma fonte de informação o estatuto de confidencialidade (sobretudo quando está em causa uma notícia que pode causar dano a terceiros) é uma decisão grave e que merece muitíssima ponderação, não só pela maior fragilidade com que a informação passa a circular, mas sobretudo pelas consequências futuras que daí podem advir. Porquê? Porque a partir do momento em que concede estatuto de confidencialidade a uma fonte, o jornalista passa a assumir ELE PRÓPRIO toda a responsabilidade pela informação que vai divulgar. Se amanhã lhe pedirem que prove o que diz, ele terá de estar em condições de o fazer por ele próprio e terá de assumir esse ónus, pois já não pode repartir com ninguém as explicações e justificativos (género “foi aquele senhor que me disse…”). Dar estatuto de confidencialidade à fonte é prescindir dessa partilha de responsabilidades. Portanto, é bom que o trabalho jornalístico — incluindo confirmação por outras vias, recolha de elementos adicionais de prova (dcumentais ou outros), audição das partes envolvidas e/ou acusadas, etc. — tenha sido feito. E bem feito. Se as coisas correrem mal, mais tarde, não vale vir deitar as culpas para a fonte na qual se confiou cegamente, a ponto de se lhe ter dado esse estatuto excepcional (e valiosíssimo, porque tendencialmente inimputável…) de fonte confidencial. Não vale. É feio. 

Poderá retorquir-se: “Mas se a fonte tiver enganado o jornalista?… Não merece ela própria ser  denunciada nesse caso?… Não é isso que diz o Código Deontológico dos Jornalistas?…”.

É verdade, o Código Deontológico admite essa possibilidade (ver artigo 6º). Pela minha parte, contudo, considero que é uma possibilidade que deve ser usada asbolutamente em última instância e com carácter excepcionalíssimo, depois de muito  investigado o assunto e de recolhido o parecer do Conselho Deontológico do SJ (já aconteceu em Portugal, há uns anos). Em situação normal, mesmo que se venha a descobrir que a fonte enganou o jornalista, isso não lhe dá (ao jornalista) o direito automático de a denunciar, transgredindo assim umas das mais emblemáticas “regras de ouro” da sua ética e deontologia profissional. Ele, jornalista, tem de estar preparado para arcar com as responsabilidades até ao fim… Se não, que não confiasse em absoluto na fonte.  Que investigasse mais. Que cruzasse informação. Que questionasse o estatuto de confidencialidade pedido. Se não fez isso e acabou por ser ludibriado, que se auto-critique, que peça desculpa e que aprenda para o futuro. Mas que não caia na tentação de lavar as mãos como Pilatos e mandar as culpas todas para as costas de uma fonte em que decidiu confiar cegamente e a quem deu tempo de antena…  Isso não vale. E espero que, salvo circunstâncias da maior gravidade e excepcionalidade, a agência Lusa não o faça. Para bem do jornalismo.

A Rádio na frequência da Web

Está já disponível o vol.20 (2011) da revista Comunicação e Sociedade, recolhendo textos em torno do futuro da rádio em ambiente digital.
Madalena Oliveira e Pedro Portela, os organizadores deste número, dizem no seu texto de apresentação:
Repensar a rádio no actual contexto de uma sociedade digital, ou mais especificamente no contexto da web, impõe que se repense a sua relação com a imagem, mas também, de um modo mais generalizado, os termos do seu contrato de escuta. Se é verdade que a emissão tradicional se mantém de alguma maneira na web – que nessa medida é apenas um novo dispositivo de escuta, um novo receptor do sinal radiofónico -, também o é que a oferta associada aos sítios das emissoras na Internet exige uma redefinição da sua relação com os ouvintes.
Mais detalhes aqui (esclarecimentos e encomendas através deste endereço)

O que é que o teu google diz de ti?

Diz-me com quem andas, diz-me o que pesquisas, dir-te-ei quem és. Tudo começou por causa de um artigo em que tropecei por acaso. Ou terá sido pelos desígnios do motor de busca e de toda a cabala de monitorização em que vivemos invisivelmente perscrutados, analisados e manipulados?

O Google nos 200 anos de Charles Dickens

Já não sei o que me levou ao “The web of one”, a teia de cada um é a nova rede de Susana Albuquerque, directora criativa da Lowe Ativism, numa edição já antiga da Marketeer, mas sei o que me levou a fazer depois: investigar o que o meu Google diz de mim.

Quando procuro uma definição de portugueses, as primeiras respostas referem: “Os portugueses são o povo ou nação com origem em Portugal, na Península Ibérica ou ilhas (Açores e Madeira), no sudoeste da Europa. O português é a sua língua.” Um artigo da Wikipédia. Bastante científico e equilibrado, certo? Mas depois os resultados da minha pesquisa começam a revelar valores subjectivos atribuidos automaticamente: os portugueses são “demasiado sofisticados”; “pobres, estão desmobilizados mas consideram-se felizes”;  “muito generosos”; “românticos e tradicionais”; “preconceituosos”. As fontes indicadas são: ionline, publico, dn, destak, youtube.

Experimentei internacionalizar a pesquisa, declinando a fórmula nas línguas em que pude dar um jeito. As respostas falam por si: Es cierto??? Los españoles son feos???; The English are German, the Welsh are real Britons; Les Français sont aussi stupides que les américains; Gli italiani sono matti; Die Deutschen sind ein Haufen Individualisten…

Isto é: os espanhóis têm problemas de auto-estima, os ingleses são uma fraude, os franceses não são tão bons quanto gostariam de fazer crer, os italianos são loucos e os alemães um bando de individualistas. Bate certo?

O que é que isto dirá de mim? Estará o perfil que o Google define para cada um de nós de acordo coma nossa própria percepção ou necessidades de informação? As prioridades atribuídas correspondem às que nós atribuiríamos se pudéssemos escolher conscientemente?

Lanço-vos o mesmo desafio: pesquisem “os portugueses são” e partilhem aqui os vossos resultados. Ou não… Podem ser inconvenientemente reveladores.

Revistas de cultura visual com acesso gratuito

A editora Taylor & Francis disponibiliza até dia 29 de fevereiro acesso livre para um conjunto de revistas ligadas à cultura visual. Através de um simples registo, pode-se consultar revistas como ‘Digital Creativity’; ‘History of Photography’; ‘Photographies’; ‘Visual Resources’; ‘Visual Studies’; ‘Visual Anthropology’ e ‘Word & Image’, sendo possível fazer pesquisa por termos chave e depois o download dos textos integrais em PDF.

Da inovação que não há sobre a “inovação” que, supostamente, há

A RTP Informação dedicou, na sexta-feira, um dia inteiro à inovação. Neste sábado, a partir de uma conferência-debate que organizou, o DN veio esclarecer, entretanto, que “inovar não basta: é preciso ser empreendedor e exportar”

O tema da inovação é recorrente na agenda dos media, a própria palavra é um dos fetiches da comunicação contemporânea, surgindo constantemente utilizada e reciclada para reutilização. E, como fetiche constantemente realizado, o que nele sobra em excitação, falha em compreensão.

Centremo-nos, apenas,  no questionamento da inovação sob o ponto de vista das relações de domínio do espaço comunicacional: de facto, além de recorrente, a inovação surge recorrentemente tratada, isto é, o discurso que se produz, não só nos media mas também nas esferas política e académica, é invariavelmente fundado numa repetição que associa inovação a tecnologia, e nesta, a economia. Isto é, trata-se o inovador como concretização prática do que é novo no território do objecto. Tal como denuncia o DN, a inovação pouco valor parece ter como conceito subjectivo, ou seja, quando se situa apenas no território da ideia e, aí, na teoria, na reflexão, na sua complexidade matricial, se não se puder tornar coisa concreta, objectivada, simplificada, aplicável, visível.

A preocupação que daqui emerge, para todos os que têm de conjugar a sua acção nos campos da investigação científica e da comunicação terá, pois, a ver com o efectivo valor da ciência que se faz e da ciência que é necessário fazer, quando se sabe que as estratégias para a comunicação de ciência estão já, de certa forma, reféns deste esquema discursivo, que se impõe como jogo e regra de jogo. Que espaço sobra, pois, à ciência que contém um potencial de inovação no território das ideias, do confronto de complexidades e dúvidas, ou seja, uma ciência fundada na questão, se existe, a montante e a jusante dos seus processos fluidos, a certeza de que a única ciência mercantilizável nos espaços comunicacionais, é a ciência que se fixa no poder imediato da resposta?

Sendo, simultaneamente, observadores extrínsecos e intrínsecos à academia, quer parecer-nos que esta viverá, hoje, mais do que nunca, sob o jugo deste paradoxo. O que a fragilizará cada vez mais como locus de produção de conhecimento e a pode reduzir a uma mera fábrica de saberes empiricamente aplicáveis, cujo fim será sempre o da utilidade e utilização imediatas (há dias, esta preocupação surgia expressa numa entrada de Manuel Pinto, a propósito da denúncia de Hermínio Martins de um “frenesi do articulismo” na actual produção académica).

E assim, ao falarmos da inovação como esquema discursivo que produz ideias dominantes no espaço comunicacional, podemos estar a falar, afinal, da sua efectiva negação.

A rádio e a ubiquidade por excelência

ImagemReunindo textos de 14 autores, o livro Radio and Society: new thinking for an old medium – que acaba de ser lançado pela Cambridge Scholars Publishing – considera que a rádio não apenas sobreviveu aos desafios da Internet como tirou proveito das suas vantagens para se expandir ainda mais como o mais ubíquo de todos os meios. Na nota de introdução, o editor reconhece que a rádio continua a enfrentar desafios críticos, mas admite ao mesmo tempo que a rádio é ainda encarada como um meio poderoso, influente e capaz de produzir mudança social e proveito comercial. Num campo habitualmente menos favorecido em termos de produção científica, este livro parece ser obrigatório para refletir sobre um meio que, diz o editor, «ainda está aí, ainda é interessante e importante e ainda se está a desenvolver».

TDT: quem parte e reparte…não é tolo e tem arte

A TSF noticia hoje que por causa da transição para a televisão digital terrestre uma aldeia transmontana foi ludibriada por revendedores da MEO (PT); os habitantes ou subscreviam o produto ou ficavam sem nada. E lá subscreveram, em contratos que os vincularam a dois anos de pagamentos (a notícia da TSF foi atualizada e passou a incluír a reportagem audio; reportagens video foram posteriormente apresentadas na RTP e na SIC).
Ontem, o Público dizia-nos que os habitantes de uma aldeia de Mochique estavam revoltados com a perda de qualidade no serviço de televisão a que acedem.
Percebe-se que a gestão das obrigações do prestador de serviço em termos de cobertura não foi decidida pela entidade reguladora; foi decidida pela regulado, em claro desfavor dos mais frágeis.
Falhando a cobertura, ter-se-á pensado, lá estará o ‘marketing agressivo’ de alguns revendedores de TV por cabo para ‘resolver’ a situação.

Perante um processo de transição cheio de falhas gravíssimas, a ANACOM lá vai tentando fazer passar, junto de quem anda distraído, um cenário de normalidade num quadro que de imediato nos faz lembrar as prestações de Muhammed Saeed al-Sahaf, o ex-ministro da Informação de Saddam Hussein.

Há instantes, no Facebook, Luís Miguel Loureiro comentava a notícia difundida pela TSF assim:
Na TDT, o comando está a ser Meo… Porque, bem vistas as coisas, a TDT é uma boa (a melhor) Zon para passarmos a ser, num ápice, o povo “mais rico” da Europa no que toca a ligar o ecrã lá da sala…
E pensar que este é o mesmo povo que, em vez de reclamar por uma TDT gratuita com dezenas de canais nacionais, regionais e locais, como toda a Europa tem, prefere reclamar contra o serviço público de Televisão mais barato do continente europeu e aceita sem duvidar todas as mentiras que são postas a circular sobre os custos do mesmo…

O poder mediático de um bom balanço

Nem quatro dias se haviam passado sobre o ‘apagão’ do primeiro de inúmeros emissores de televisão analógica que serão desligados nos próximos meses para que a Anacom (Autoridade Nacional para as Comunicações, vulgo, o regulador) viesse declarar o seu “balanço positivo”. Ora, não é preciso perder aqui demasiadas linhas com a relevância efectiva de um tal balanço, feito logo após o ‘apagão’ de um emissor e de apenas três retransmissores, a que se seguirá, e só nesta primeira fase do processo que decorre até 23 de Fevereiro, idêntica operação abrangendo, em quatro datas sucessivas, outros tantos emissores e perto de uma centena (!) de retransmissores . A desproporção entre o que foi feito e o que falta fazer é tal que qualquer olhar descomprometido notará facilmente a ausência de qualquer sentido para… o balanço que a Anacom decidiu fazer. E, no entanto, fez.

Porque é que terá interessado, então, à Anacom, tornar pública tamanha irrelevância? De que consistirá efectivamente o balanço, que o torne elemento tão apetecível na comunicação contemporânea?

Arriscaria uma hipótese, baseada em argumentação anteriormente aduzida, socorrendo-me das noções de campo social de Bourdieu: à Anacom, como a todos os detentores de capital simbólico não contestado no campo da comunicação (por serem, como é o caso, jogadores institucionais, respaldados nesse capital institucional que os torna actores imediatamente reconhecidos no jogo das visibilidades) interessa produzir o que designaria um objecto mediático. Isto é: interessa produzir e colocar em circulação, logo, administrar e controlar, algo de que o jornalismo tanto gosta e que tanto jeito lhe faz, na lógica industrial dominante de custo/produção: uma ‘estória’ em estado finalizado, terminada, definitiva, pronta-a-ver na superfície do visível. Mesmo que saibamos que não o é. Mas este jornalismo de mercâncias, que se entretém na acelerada circulação comunicacional de objectos como agente meramente reprodutor de ‘estórias’ em estado finalizado (pensando assim que as administra por deter o poder de administração do visível), não é mais do que mero instrumento nas mãos do poder que efectivamente se exerce. Ou seja, não é mais do que jornalismo-pé-de-microfone.

Note-se como, neste complexo campo da administração comunicacional dos objectos mediáticos, é tão dura e desigual a tarefa de questionamento e desconstrução deste tipo de ‘estórias’ em estado finalizado. O balanço faz-se, invariavelmente, como definitivo, e todo o desconforto surge quando é denunciada a sua absoluta incompletude. O jornalismo do instante, digo, usando o sentido crítico de um Perniola, a comunicação, não gosta da ‘estória’ por acabar, a industriação dos seus processos já não capta e observa processos em movimento, não perde tempo com isso. Facilita-se apenas como foto-finish, tornando-se assim produto vendável nos sucessivos e fugazes escaparates do quotidiano. Um dos mitos do jornalismo é, aliás, a própria notícia, pelo que faz correr os jornalistas para o teclado, para o telemóvel, para a câmara de televisão, para o ar. A notícia, essa ‘estória’ em estado finalizado, cujo suposto valor tantas vezes substitui a sua própria verificação, anulando o necessário tempo para o olhar em perspectiva, para a reflexão.

Torna-se, pois, extremamente difícil a tarefa de todos quantos sabem que a ‘estória’ não acaba no balanço, mas que necessita de ser constantemente vigiada, escrutinada, acompanhada, questionada. Porque o campo da comunicação acelerada de objectos mediáticos, administrado pelo jornalismo, continua dominado pelos jogadores institucionais cujo reconhecimento imediato se sobrepõe (quando não chega mesmo a esmagar) à necessidade de construção de uma auto-legitimação, por parte de todos os que têm de se elaborar como autoridades dentro do campo.

Por isso, é fácil a tarefa da Anacom. Com um balanço, resolve o problema. Sabe, porque o afirma do alto da mais inacreditável displicência, que cerca de 70 por cento dos lares portugueses já têm TV paga (o que também não parece preocupar a tutela governamental) e que, por isso, nem sequer vão dar conta da Televisão Digital Terrestre ou dos problemas com a emissão, ou da pura inexistência de uma emissão. E sabe que todos os restantes 30 por cento são problemas que podem ser facilmente administrados e ultrapassados com uma simples gestão dos objectos mediáticos finalizados que, em instantes medidos e precisos, saberá colocar em circulação na superfície do visível.

Desafio de Hermínio Martins aos cientistas sociais

A revista “Análise Social“, pioneira nas Ciências Sociais em Portugal, acaba de atingir o número 200, caminhando a passos largos para o meio século de vida. E recheia a edição com uma série de entrevistas de ‘pioneiros’ portugueses na área.  Li a entrevista que Helena Mateus Jerónimo faz ao pensador Hermínio Martins, apresentado como “uma das figuras académicas que mais se destacam no processo de formação do universo sociológico português e é autor de algumas incursões histórico-sociológicas inaugurais sobre essa terra incognita que foi (ou ainda é?) Portugal para o mundo académico internacional“.

Como motivação para a leitura desse texto inspirador, deixo aqui um excerto que julgo mais que pertinente também para as Ciências da Comunicação, particularmente numa altura em que começamos igualmente a incorrer no “frenesi do articulismo”, por aquele autor denunciados, e na falta de trabalhos de síntese  e revisão crítica de literatura. A pergunta que llhe é colocada pela entrevistadora é esta: “Na sua opinião, quais são as linhas de força teóricas e empíricas que emergiram nas ciências sociais portuguesas nos últimos 20 anos?”.  A (extensa) resposta começa assim:

“Para responder adequadamente a esta pergunta, teria de passar um ano e tal completamente dedicado a ler a produção abundante das ciências sociais em Portugal nos últimos 20 anos que refere. O que não vai acontecer, e duvido que alguém o possa fazer. Aliás, um dos problemas que se colocam para responder cabalmente a perguntas deste tipo, mesmo só com respeito a uma única das grandes ciências sociais, como por exemplo a sociologia, ou domínios mais específicos, como a sociologia urbana ou a sociologia da religião, por exemplo, é a falta de survey articles regulares e frequentes que apresentem e discutam o movimento das publicações e ideias em, digamos, quinquénios sucessivos. Idealmente, estes textos deveriam ser acompanhados por breves comentários dos autores referidos, quando eles o considerassem necessário, ou dos autores que se considerem injustamente omitidos. Assim, as suas versões iniciais deveriam ser previamente distribuídas pela comunidade científica visada para uma ampla discussão, dado que a parcialidade, a selectividade injustificada, e a simples ignorância podem viciar estes estudos. Um estrangeiro que leia português e queira ficar rapidamente a par do que se tem escrito nos últimos anos em Portugal numa dada área das ciências sociais, não pode desfrutar de muita ajuda de fontes escritas que façam um levantamento da área, porque esta modalidade de trabalho é muito insuficiente. Trata-se de um sintoma de anomia no sistema científico português, no sentido de Durkheim, quando analisou a divisão do trabalho social patológica, com a falta de comunicação, intercâmbio e de recuperação de trabalhos coevos ou recentes. Na correria de produção incessante de artigos, cada vez mais curtos, específicos e limitados  —  a que poderíamos chamar de “frenesi do articulismo” —, exacerbada pelas condições existenciais do trabalho científico hoje, aquele tipo de trabalho não se torna muito apelativo. Rouba muito tempo, exige muita dedicação, e representa, quando feito sem espírito de partido e sem ser um instrumento de luta na política académica, para “arrumar” os inimigos (o que acontece), representa uma espécie de altruísmo científico quase completamente desvalorizado e quiçá mesmo prejudicial para o autor […]”.

Para ler a entrevista na íntegra: AQUI.

Publicações IRIS – do Observatório Europeu do Audiovisual

Artigo meu e de Helena Sousa na primeira publicação da IRIS no novo ano de 2012.

Trata-se de uma colaboração permanente com o Observatório Europeu do Audiovisual e com o Institute for Information Law (Universidade de Amesterdão), entidade associada do Observatório Europeu do Audiovisual (Conselho da Europa), através do desenvolvimento de estudos colectivos e da redacção regular de artigos para a IRIS – Legal Observations of the European Audiovisual Observatory e para a base de dados Merlin.

Educação para os media – seminário

Por ocasião do 30º aniversário da Declaração de Grünwald sobre Educação para os Media, vai realizar-se nesta sexta-feira, dia 20, um seminário com Evelyne Bévort, directora-adjunta, com o pelouro da cooperação internacional, do CLEMI – Centre de Liaison de l’Enseignement et des Moyens d’Information, do Ministério francês da Educação e com Jose Manuel Pérez-Tornero (Universitat Autònoma de Barcelona) sobre “A educação para os media como via de leitura crítica do mundo actual”.

O evento realiza-se na Sala de Actos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, a partir das 14h30 e é organizado pelo Projeto ‘Navegando com o Magalhães: Estudo do Impacto dos Media Digitais nas Crianças‘.

De referir que a Declaração de Grünwald foi aprovada unanimemente pelos representantes de 19 nações durante o Simpósio Internacional sobre Educação para os Media organizado pela UNESCO, na cidade de Grünwald, na então República Federal da Alemanha, em 22 de Janeiro de 1982.

Eleições para a IAMCR

O Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade nomeou Janet Wasko para a Presidência da International Association for Media and Communication Research.
As nomeações para o Executive Board (1 Presidente, 2 Vice-presidentes, 1 Secretário-Geral e 1 Tesoureiro) e para 15 membros do International Council estão abertas até ao dia 1 de Março de 2012.
As nomeações devem ser formalizadas através de uma mensagem para o Presidente da Comissão Eleitoral, Cees Hamelink, e publicamente através da lista de anúncios da organização.
As nomeações podem ser feitas por membros individuais ou institucionais.
Os candidatos precisam de ter, no mínimo, 5 nomeações de, pelo menos, 2 país distintos.
A actual Presidente Annabelle Shreberny anunciou que não iria recandidatar-se.
A IAMCR realizou a sua primeira conferência em Portugal em 2010 .
Seguiu-se Istambul.
Este ano será em Durban.  Ver ‘General Call’ aqui.

O postal no princípio do post

Durante três anos e meio uma equipa de investigadores do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade recolheu, classificou e refletiu sobre postais ilustrados. Meio de comunicação démodé, dirão muitos, o bilhete-postal teve na história da correspondência interpessoal do século XX o ar gracioso de um suporte que à brevidade das palavras junta(va) uma imagem. Registo ligeiro, económico, breve, o postal ilustrado está, pode dizer-se com propriedade, no princípio dos posts que hoje publicamos em blogues. No postal como no post, ao apontamento do quotidiano procuramos juntar a gentileza de uma imagem. E do postal para o post perdemos, por outro lado, em tactilidade o que ganhamos em instantaneidade. Mas no postal ou no post encontramos também a vontade de arquivar a brevidade de gestos de partilha.

Imagem

Celebrando a memória do postal ilustrado e a sua relevância para a história da comunicação visual, a mesma equipa de investigadores acaba de publicar um conjunto de seis booklets que dão a conhecer parte de Portugal ilustrado em postais. Nesta coletânea, analisa-se a imagem construída e divulgada pelos postais ao longo dos anos relativamente a cinco cidades portuguesas – Bragança, Viana do Castelo, Braga, Viseu e Portalegre. Os booklets reunidos nesta obra são, na verdade, apontamentos sumários da imagem destas cidades ao espelho dos postais, num formato que repete, de algum modo, o jeito dos próprios bilhetes-postais: são brochuras breves, regionalizadas, ilustradas, coloridas, que mantêm o perfil ágil e afetuoso do objeto colecionável.

Na próxima segunda feira, dia 23, Henrique Barreto Nunes, ex-diretor da Biblioteca Pública de Braga, apresenta esta publicação coletiva, às 18h00, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. A entrada é livre.

Leituras

“If newspapers are no longer printed, the journalistic profession will change dramatically, and not necessarily for the better.”

“Dentro de 10 años solo leeremos en tabletas. Comprar un periódico o una revista en papel se verá como una experiencia retro, casi de lujo.”

Novos mercados, novos negócios…

Recentemente, acontecimentos estranhos (no mínimo estranhos) têm redimensionado (para não dizer virado de pernas para o ar) aquilo que é a concepção de fazer ciência. De fazer ciência com dignidade, com mérito transparente. E isto porque parece estar a surgir um novo negócio, extremamente lucrativo e engenhoso… Falo das publicações PAGAS em revistas científicas internacionais…

Tem sido prática, pelo menos de forma mais visível nos últimos meses, o editor da revista congratular o autor pela aceitação da publicação e anexar na simpática mensagem o formulário com a revisão de pares e com os devidos comentários (em pinceladas muito largas, diga-se, uns “peer review comments” muito genéricos) para enriquecer o texto para publicação. Ora, acontece que à 3ª ou 4ª mensagem de correio electrónico trocada lá vem o SE. No caso, o pagamento de uma certa quantia monetária por cada página do artigo…  Assim: “The flat price is $50 US dollar per page”. Por página, a multiplicar por cerca de 20 páginas, a dividir pelo número de autores… Ah, então afinal até parece que nem dá muito a cada um! Ironia, claro está.

Falo da David Publishing Company, mais concretamente da revista Journalism and Mass Communication, mas apenas com o objectivo de ilustrar o que parece ser um novo negócio neste mercado das ideias e de o usar como mote para a discussão. A “ciência sem consciência” de que fala Rabelais parece encontrar aqui um excelente porto de abrigo.

Um negócio no mercado das ideias e uma reformulação da noção de ciência estão, assim, na base de estratégias como esta. Um novo modelo de negócio, dirão!

Mas este exemplo não termina aqui. Após pesquisa sobre as características da revista (indexação, factor de impacto, etc…), descobrem-se na blogosfera diversas críticas e relatos de más experiências com a revista ou com a editora (aqui, aqui ou aqui). Descobre-se, ainda, que há já quem discuta o assunto (nomeadamente aqui e aqui) e há inclusivamente listas daquilo a que chamam “Predatory Open-Access Publishers” e comentários que se referem a esta prática como um acto fraudulento (como aqui, aqui, aqui ou aqui). Estas referências são das mais variadas áreas científicas, não apenas das Ciências Sociais, o que denota alguma sensibilidade para o assunto e uma reacção por parte da comunidade científica.

Segue novo e-mail da parte dos autores. “Obrigada pela oportunidade mas a decisão é pela não publicação”… E eis que a resposta é inédita! Já passam a prescindir do pagamento da dita “fee” e acrescentam:

Maybe there is a misunderstanding.
Our editors, reviewers and authors are from all over the world,
and we try our best to provide a platform for experts and scholars
worldwide to exchange their latest findings.
However,to be honest, our journal just began,
it is very new and there is no sponsor for us,
so we have to charge some fees to run our journal.
Please understand that and support us. Thanks a million!

Milhões – e milhões de tudo, não apenas de dólares  – são o que estará em causa em situações como esta, nas quais se inverte completamente o processo produtivo… Em que se pede o pagamento de quantias para publicar trabalho digno e esforçado, em que não se sabe bem que implicações terá isso… Será bom? Será mau? Um novo modelo de negócio? Válido não é de certeza, a meu ver. Pelo menos não nestes moldes.