Título ‘enganoso’

Quem ontem passou os olhos pelos títulos do Jornal de Notícias (com edição em papel renovada, por sinal) ficou talvez a pensar que este sábado houve um assalto a um taxista que não acabou bem. Numa chamada de primeira página, lia-se ‘Gangue mata taxista em Gondomar e vai jantar ao McDonalds’. Na página interior, em tudo idêntico, o título da notícia dizia ‘Matam taxista por 50 euros e vão jantar ao McDonalds’. Acontece que uma leitura mais atenta remete a notícia para julho de 2008, uma referência que só aparece a partir do terceiro parágrafo.

Seria mesmo este o título adequado a uma notícia que a única coisa que tem de novo é o facto de o gangue ter sido agora detido?

Ai a culpa agora é da fonte?…

Embora me custe, quase me apetecia dizer: ainda bem que o treinador Domingos Paciência decidiu accionar judicialmente quem escreveu e difundiu notícias, baseadas apenas numa “fonte não identificada”,  sobre um episódio que ele garante ser falso! E custa-me, mas quase me apetecia continuar: e oxalá o assunto não morra antes de chegar a tribunal mas, pelo contrário, vá até julgamento e permita que tudo se esclareça! Esta história das “fontes não identificadas”, a propósito de tudo e de nada, já não se aguenta e é tempo de tentar pôr alguma ordem na coisa, em nome do respeito pelas pessoas e da credibilidade do jornalismo.

Há um aspecto que me parece da maior importância sublinhar e que parece andar bastante esquecido: o recurso a fontes que não se identificam deve ser um recurso EXCEPCIONAL e não uma prática banal, normal, quase quotidiana. Conceder a uma fonte de informação o estatuto de confidencialidade (sobretudo quando está em causa uma notícia que pode causar dano a terceiros) é uma decisão grave e que merece muitíssima ponderação, não só pela maior fragilidade com que a informação passa a circular, mas sobretudo pelas consequências futuras que daí podem advir. Porquê? Porque a partir do momento em que concede estatuto de confidencialidade a uma fonte, o jornalista passa a assumir ELE PRÓPRIO toda a responsabilidade pela informação que vai divulgar. Se amanhã lhe pedirem que prove o que diz, ele terá de estar em condições de o fazer por ele próprio e terá de assumir esse ónus, pois já não pode repartir com ninguém as explicações e justificativos (género “foi aquele senhor que me disse…”). Dar estatuto de confidencialidade à fonte é prescindir dessa partilha de responsabilidades. Portanto, é bom que o trabalho jornalístico — incluindo confirmação por outras vias, recolha de elementos adicionais de prova (dcumentais ou outros), audição das partes envolvidas e/ou acusadas, etc. — tenha sido feito. E bem feito. Se as coisas correrem mal, mais tarde, não vale vir deitar as culpas para a fonte na qual se confiou cegamente, a ponto de se lhe ter dado esse estatuto excepcional (e valiosíssimo, porque tendencialmente inimputável…) de fonte confidencial. Não vale. É feio. 

Poderá retorquir-se: “Mas se a fonte tiver enganado o jornalista?… Não merece ela própria ser  denunciada nesse caso?… Não é isso que diz o Código Deontológico dos Jornalistas?…”.

É verdade, o Código Deontológico admite essa possibilidade (ver artigo 6º). Pela minha parte, contudo, considero que é uma possibilidade que deve ser usada asbolutamente em última instância e com carácter excepcionalíssimo, depois de muito  investigado o assunto e de recolhido o parecer do Conselho Deontológico do SJ (já aconteceu em Portugal, há uns anos). Em situação normal, mesmo que se venha a descobrir que a fonte enganou o jornalista, isso não lhe dá (ao jornalista) o direito automático de a denunciar, transgredindo assim umas das mais emblemáticas “regras de ouro” da sua ética e deontologia profissional. Ele, jornalista, tem de estar preparado para arcar com as responsabilidades até ao fim… Se não, que não confiasse em absoluto na fonte.  Que investigasse mais. Que cruzasse informação. Que questionasse o estatuto de confidencialidade pedido. Se não fez isso e acabou por ser ludibriado, que se auto-critique, que peça desculpa e que aprenda para o futuro. Mas que não caia na tentação de lavar as mãos como Pilatos e mandar as culpas todas para as costas de uma fonte em que decidiu confiar cegamente e a quem deu tempo de antena…  Isso não vale. E espero que, salvo circunstâncias da maior gravidade e excepcionalidade, a agência Lusa não o faça. Para bem do jornalismo.

Salvar o negócio do jornalismo – dois exemplos

Ken Doctor escreve, por estes dias, uma série de textos no espaço do Nieman Journalism Lab sobre exemplos bem sucedidos de empresas jornalísticas europeias.
No primeiro post fala-se do sucesso do grupo finlandês Sanoma, dono do maior diário escandinavo e de dois portais informativos de grande popularidade. A sua operação online (de conteúdos fechados) tem a adesão de 130 mil subscritores (a um custo unitário de 36 euros são mais de 4,5 milhões por ano).
No segundo post, do grupo Schibsted, que tem já 36 por cento do total dos seus rendimentos a partir do online; a decisão estratégica fundamental foi tomadas em 1999 quando se optou por uma separação clara entre as operações online e papel e se investiu, de forma deliberada e autónoma, em conquistar o mercado dos pequenos anúncios na internet.

São textos produzidos para uma audiência norte-americana, mas há detalhes que podem servir de exemplo a operações nacionais e, sobretudo, que podem sinalizar a existência (sim, mesmo na atual conjuntura) de novas oportunidades de negócio para projetos inovadores.

Das dúvidas às angústias

Não é novidade que sendo uma indústria fortemente financiada pela publicidade, onde as empresas menos investem em situação de dificuldades, os media sentem sempre os efeitos das crises económicas. A propósito da passagem do jornal la Tribune a versão online apenas, o jornal Le Monde faz um retrato algo desolador da imprensa do Sul da Europa, mostrando como a crise económica afecta grandemente a saúde do sector.

O artigo não refere Portugal. Contudo, os índices de baixa leitura de jornais e as debilidades do sector não nos podem deixar descansados: que tempos virão agora para os jornalistas portugueses? que consequências para a qualidade da informação disponibilizada aos portugueses? que efeitos na saúde da nossa democracia?

Estas questões, mais que dúvidas, começam a parecer cada vez mais angústias.

O que vamos agora ouvir sobre o Concórdia?

Quando, há anos, trabalhei em Inglaterra, dizia-se que um acontecimento só era mesmo ‘um acontecimento’ quando chegavam ao terreno os ‘grandes artistas’ (do jornalismo): Kate Adie, John Simpson, Misha Glenny, George Alagiah, Ben Brown ou o inesquecível Martin Bell (para citar apenas alguns).
É, naturalmente, um exagero, mas o certo é que esta perceção não era partilhada apenas pelos restantes jornalistas, mas também pelas audiências que se sentiam identificadas com aquelas pessoas de forma muito particular.
Não estando escrito em lado algum, este ‘sub-texto’ fazia parte do visível (para usar uma expressão do Luís Miguel Loureiro); as regras pareciam ser conhecidas de todos e o espaço era gerido por uma dose substancial de previsibilidade.
Há ‘grandes artistas’ em todas as áreas (não apenas na Comunicação) mas há para muitos deles o resguardo da menor visibilidade; são conhecidos na comunidade de interesses partilhados mas a sua presença não é sentida por audiências mais vastas.
Acontece isso, de alguma forma, com a Burson-Marsteller, a empresa que no passado domingo à noite aceitou gerir a comunicação de crise da proprietária do navio de cruzeiro, Costa Concórdia.
Especializada precisamente em comunicação de crise, a BM tem no seu portefolio trabalho com a indústria tabaqueira, com a Exxon (depois do acidente com o Exxon Valdez), com a Union Carbide (depois do acidente de Bhopal), com a Babcock and Wilcox (depois do acidente nuclear em Three Mile Island), com os governos do Egito, Argentina e Roménia (todos em períodos de regime autoritário) e ainda com o governo da Indonésia (na sequência do massacre do cemitério de Santa Cruz, em Timor-Leste).
Será, por isso, interessante prestar atenção à informação a que vamos ter acesso, de agora em diante, sobre o caso do Costa Concórdia.
O que vais ser dito e, sobretudo, o que ficará por dizer.
Está em campo não apenas ‘um grande artista’; A BM está para os ‘grandes artistas’ como o Sinatra estará para os ‘cantores famosos’ .

(Foto com permissões CC, retirada do espaço Flickr ‘Il Fatto Quotidiano‘)

Afinal o “24 Horas” não acabou…

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Disseram-nos há um ror de meses que o jornal 24 Horas tinha acabado. Até nos mostraram uma última primeira página bastante curiosa: o jornal acabava mas era o maior na denúncia e na capacidade de “contar tudo”…

Afinal, parece que não acabou. Ou então assumiu uma nova identidade, lá longe, junto da diáspora portuguesa. Pode ver-se aqui e aqui como o 24 Horas, com o mesmo logotipo e tudo, continua a existir e a constituir um autêntico “vício diário”. Mais: é, aparentemente, o único jornal diário de língua portuguesa publicado no estrangeiro, com distribuição em diversos estados dos EUA.

Mas o que é engraçado é que ele é igualzinho, igualzinho, ao ‘nosso’ Correio da ManhãNa imagem ao lado apresentamos exemplos de umas primeiras páginas recentes só para comparar. Mas é todos os dias assim, embora com algumas diferenças editoriais em páginas interiores.

Mais uma notícia à atenção do ministro Álvaro: às tantas, o Correio da Manhã também decidiu começar a ‘franchisar-se’ lá por fora e nós é que não sabíamos… Bem vistas as coisas, os pastéis de nata não são o único produto sólido e prestigiado que temos para exportar!

Quase, quase jornalismo

Deverá estar amanhã nas bancas a segunda edição da revista do Expresso depois da sua mais recente mudança.

Correndo o risco de falar ainda ‘a quente’ diria que – a julgar pelo exemplar a que tivemos acesso na semana passada – estamos em presença de um produto informativo cuja razão de ser está cada vez mais distante do jornalismo e cada vez mais próxima dos universos da comunicação institucional e da publicidade.

É fácil perceber porque isto sucede – o mercado publicitário está em quebra e o grupo Impresa vive também momentos de fragilidade. A solução passa, aparentemente, por reformular um produto com preços de tabela altos (em termos nacionais) por forma a apelar a mais anunciantes, no maior número possível de segmentos. Sendo um produto-associado, a revista procura deliberadamente terrenos publicitários para além daqueles abrangidos pelos cadernos principal e de economia e ‘joga’ nos anunciantes que querem chegar a um público interessado numa versão upmarket da Caras.

Uma observação muito rápida do que nos foi oferecido permite anotar a presença de seis textos de opinião, cinco segmentos com algo que poderia ser designado como notas breves, outros cinco com citações / excertos / inquéritos, dois trabalhos de perfil, uma pré-publicação de um livro, três entrevistas (sendo que uma delas é com um famoso ator de cinema, sobre um filme que, páginas antes, aparece publicitado), dois (se adotarmos um entendimento lato do género) espaços de reportagem – um em que se promete ter um ‘intruso’ (anónimo) em festas, vernissages e happenings e um outro em que se leva alguém (famoso, presume-se) a uma passeata e disso se dá conta – e pelo menos sete áreas autónomas de divulgação e sugestão de produtos (desde os vinhos, às roupas em saldo, à dança de varão).

No video de apresentação da nova aposta do Expresso a editora, Mafalda Anjos, prometia, de facto, “mais energia positiva, mais otimismo“, num “produto mais leve” em que se notaria um “reforço de toda a componente de serviços“.

Há, neste exemplo, indicações que podem ser úteis para discutir o atual estado da imprensa em Portugal:

– A relação – sempre sensível e instável – entre os interesses jornalísticos e os interesses das áreas ligadas ao marketing e à publicidade na empresa  é tendencialmente menos de equilíbrio e mais de subjugação;

– A importação para o papel de lógicas de organização dos temas, do espaço gráfico e da própria escrita da internet – não estando ainda provado em lado algum do planeta que tenham funcionado – acrescenta complexidade e arrisca-se a tornar o produto físico ainda mais redundante;

– As opções estratégicas parecem basear-se nas ideias que, noutros mercados e há já mais tempo, levaram muitas publicações a um definhamento agoniante; dá-se às audiências cada vez menos – levezinho, fresquinho, ‘micro-formatos’, como diz a editora – presumindo que isso aumenta os níveis de fidelidade (lembra a história do burro que estava quase, quase a habituar-se a não comer…);

– As opções estratégicas parecem estar ancoradas na ideia de que, no essencial, o jornalismo é aborrecido; conseguimos tolerá-lo mas em doses reduzidas, tão depuradas, tão estilizadas, tão bem paginadas que se confundem facilmente com a ‘energia positiva’.

O Expresso não é – longe disso – caso único, mas sinaliza o domínio absoluto de uma tendência de gestão muito limitada e sem horizontes que está a marcar, de forma decisiva, o jornalismo nacional.

Dir-se-á, com razão, “quando até o Expresso”…

Quem é dono do quê?

A paisagem mediática nacional está em estado de grande fluidez – talvez seja o normal em tempos de crise, ou talvez não.
Parece, em todo o caso, que o ‘assunto’ da propriedada dos média portugueses deveria ser mais discutido (nos próprios média mas também fora deles).
Regista-se com agrado a atenção da Estrela Serrano ao tema – aqui e aqui, por exemplo – mas as movimentações ocorridas nos últimos tempos e, sobretudo, as que parecem estar ainda em curso talvez necessitassem de maior visibilidade.
Duas notinhas recolhidas hoje, a este propósito, não presumindo que uma possa ter algo a ver com a outra: o FC Porto pode estar a preparar-se para lançar um grupo de média e o Público anuncia novo plano de corte na despesa.

Pagar para ver o mesmo, melhor

O diário britânico, The Guardian, inicia depois de amanhã uma experiência nova em que pede aos subscritores do seu app para iPad que passem a pagar £9,99 por mês.
É um passo importante sobretudo porque estamos na presença de um dos mais acérrimos defensores da disponibilização de conteúdos jornalísticos de qualidade gratuitos.
É um caso interessante porque o jornal parece ter estudado com atenção a sua audiência fora do papel, acenando a quem quer mais comodidade e um design mais cuidado com o pagamento (do qual um terço é devida à Apple) ao mesmo tempo que diz – quem não quer, pode sempre continuar a aceder às versões móveis do site.
Mais aqui.

Na web (também) vale a pena?

Percebi, esta tarde, que os sites de alguns dos principais títulos jornalísticos nacionais vestiam a cor de uma conhecida marca de supermercados.
Numa rápida verificação dei conta (por volta das 15h30) de que num universo de 13 ‘títulos’ foram sete os que concordaram com a proposta, dois deles – a TVI e o Público – aceitando não apenas preencher a tradicional ‘moldura’ a branco com a dita promoção mas ainda a inclusão dos tão populares pop-ups (no caso do site do Público percebe-se ainda, num cantinho, o tal do ‘P’ mas no caso da TVI até a identificação do canal desaparece).

Sendo estes tempos de crise generalizada seria despropositado não aceitar as razões pode detrás desta cedência. Creio, aliás, que nos casos em que não há interferência directa com os conteúdos informativos estamos perante algo que os jornais em papel já fazem, um pouco por todo o mundo, há alguns anos (PS2 – 16h50 – a referida marca optou também hoje por fazê-lo).
Nos outros – o Público e a TVI – parece-me, porém, que se dá um passo a mais.
A nota de relevo é, ainda assim, o facto de uma grande marca acreditar que faz sentido investir desta forma nos espaços informativos online. Há uns anos atrás, quando uma operadora de comunicações móveis decidiu promover a sua mudança de imagem colorindo de azul as capas de alguns dos principais jornais escolheu não apostar na web (mais aqui e aqui). Agora, aparentemente, as coisas já mudaram.

PS1 – 16h05 – Para que conste, Diário Económico e Jornal de Negócios também aderiram à campanha.

Defesa do jornalismo é problema de cidadania

No momento em que, ontem, recebia o Grande Prémio Gazeta de Jornalismo 2009 por uma reportagem sobre a vida de Joaquim Ferreira Torres,o jornalista Miguel Carvalho achou por bem dizer isto (intervenção completa aqui):

“(…) acima de tudo, entendo este prémio como uma homenagem à Imprensa escrita e a todos aqueles que, de Norte a Sul, por vezes enfrentando a mais ignóbil falta de escrúpulos e de meios, se recusam a escrever sem sombra de paixão.
Quero, de resto, dedicar este Prémio Gazeta a todos os camaradas de profissão que, mesmo perante os ventos do avesso, continuam firmes na defesa de um jornalismo com memória, identidade e responsabilidade.
Os tempos não estão fáceis também para nós, jornalistas.
Há quem, sem qualquer ligação ao meio e a esta nobre profissão, pretenda impor-nos um jornalismo low-cost, padronizado, feito de Portugal sentado e idolatrias do óbvio, montado, cada vez mais, numa desumanização galopante.
Mas a defesa do jornalismo, a sua independência e responsabilidade, não é um problema de jornalistas. É um problema de cidadania. E deveria ser uma causa de todos nós. A dignificação do jornalismo e dos seus profissionais é uma garantida de sociedades mais fortes, exigentes e pluralistas.
Um jornalismo mercantil, fragilizado, precário e acessório, ao sabor de imediatismos e de modas é um risco tremendo para a democracia e as liberdades.
Eu sei que o jornalista não pode mudar o mundo.
Mas continuo a pensar que é nosso dever tentar exercer a profissão como se isso fosse possível
E para isso não basta ser livre. É preciso ter coragem.
Se não cuidarmos do que lemos, do que escrevemos e do que transmitimos, estaremos a contribuir para que se cumpra, sem volta atrás, uma velha sentença do escritor Mário de Carvalho: «Um jornalismo cão há-de merecer um mundo cão».”

O Chile / as minas / os operários – olhar para além do ‘milagre’

Nestes que são tempos (ainda) de exaltação do espírito combativo humano, a propósito do salvamento dos mineiros chilenos, importará, por certo, estender o olhar um pouco para além da brilhante campanha de Relações Públicas levada a cabo pelo governo de Santiago.
(Foto de Rodrigo Arangua/AFP/Getty Images, retirada do espaço The Big Picture, no site Boston.com)

Esta que foi uma ‘história perfeita’ – tanto do ponto de vista jornalístico (inédita, apelativa para grandes audiências, cheia de emoção, com potencial de desenvolvimento visual e infográfico, com fontes disponíveis, com um final feliz) como das Relações Públicas (a deliberada banalização – para usar a expressão de Billig – da simbologia nacionalista, a gestão primorosa da relação com os média, a naturalização de processos de construção de imagem pública – de mineiros, familiares, técnicos e políticos)  resulta de um contexto e é parte de outras histórias que o jornalismo precisaria de contar.
Recomendam-se, nesse sentido, duas leituras:

1. “Au Chili, derrière l’euphorie médiatique, les hommes“, de Franck Gaudichaud, no Le Monde Diplomatique.

“Dans les faits, les trente-trois mineurs surmédiatisés demeurent paradoxalement sans voix. Ni eux, ni leur familles, ni le mouvement syndical – historiquement puissant dans ce secteur, mais affaibli par la dictature et ses réformes néolibérales –, n’ont eu l’occasion de donner leur analyse des causes de l’accident. A l’extérieur, ceux qui ont réussi à échapper à l’éboulement tentent de rappeler que leurs salaires n’ont pas été versés depuis plusieurs semaines : « Arrête ton show Piñera, nous sommes aussi trois cents dehors. » Ils se heurtent à l’indifférence générale.”

2. “Chile’s ghosts are not being rescued“, de John Pilger, no New Statesman.

“The accident that trapped the miners is not unusual in Chile, but the inevitable consequence of a ruthless economic system that has barely changed since the dictatorship of General Augusto Pinochet. Copper is Chile’s gold, and the frequency of mining disasters keeps pace with prices and profits. There are, on average, 39 fatal accidents every year in Chile’s privatised mines. The San José mine, where the men work, became so unsafe in 2007 that it had to be closed – but not for long. On 30 July last, a labour department report warned again of “serious safety deficiencies”, but no action was taken. Six days later, the men were entombed.”

Primeiras…que podiam ser últimas

Depois dos anúncios feitos ontem à noite pelo governo esperava ter visto hoje nas primeiras dos principais diários um reflexo da magnitude do evento ou, alternativamente, uma antecipação de cenários com sentido para as respectivas audiências específicas.
Percebemos pela imagem que só um diário – o JN – levou o assunto tão a sério como os seus leitores; nos restantes pode ter acontecido uma de duas coisas – ou os Jornalistas estavam de folga ou, pior do que isso, os jornalistas de serviço estavam tão anestesiados por outras questões/pressões que  se esqueceram do conceito de ‘serviço’.

O Público apresenta um título que está nos antípodas do que um título de jornal deve ser (não há opção estratégica nem considerações de latitude estilística que lhe valham); presume que os leitores já sabem o essencial sobre o assunto – e presume bem – mas trabalha o rosto da edição em ‘piloto automático’, quase como se a relação com a sua audiência fosse a coisa menos importante da actividade.
O i recorre a uma paginação visualmente mais agressiva mas – tendo em conta o estilo daquele periódico e o evento em causa – fica aquém do esmero de outras ocasiões.
O DN ganha, certamente, o prémio ‘a primeira podia ser a última ou podia ser outra qualquer ou podia até não existir’ com uma imagem banal de José Sócrates e uma manchete absolutamente redundante (os jornais já não são apenas e principalmente espaços onde se dão notícias; são, precisam de ser para não morrer, espaços de contexto, espaços onde se apresentam contributos para que os leitores melhor apreendam as notícias).
O CM também recorre a uma paginação ‘chapa 4’ e escolhe para manchete uma informação não nova.
Mais do que a falta de imaginação anota-se a falta clara de esforço de todos estes títulos; para um dia como outro qualquer, uma primeira como outra qualquer…estratégia perigosa em tempos como os que vivemos.

O DN e a BP

Esta manhã recebi o DN gratuitamente num posto de abastecimento da BP, coisa que já me havia acontecido antes. Porém, hoje a mancha verde e amarela da BP na capa do DN era particularmente evidente, ao ponto de ter chegado a confundir esta primeira página com as capas publicitárias que às vezes se sobrepõem à edição jornalística. Para além de a principal imagem da página chamar para uma notícia referente à petrolífera na página 24 e de uma caixinha publicitária chamar para a página 11, com indicação de um «desconto que é notícia» (ver caixas amarelas indicadas na imagem acima), a edição que me ofereceram tem ainda do lado esquerdo a indicação ‘Oferta BP Premierplus’. Coincidências?

Conhecidos os Prémios Gazeta 2009

O Júri dos Prémios Gazeta decidiu atribuir o Grande Prémio Gazeta 2009 a Miguel Carvalho, da revista Visão e o troféu Gazeta de Mérito a João Paulo Guerra. POr sua vez, a Direcção do Clube de Jornalistas deliberou atribuir ao quinzenário Repórter do Marão o Prémio da Imprensa Regional.

O prémio atribuído a Miguel Carvalho ficou a dever-se ao seu trabalho “Os segredos do Barro Branco”, centrado em Joaquim Ferreira Torres, controversa figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em Agosto de 1979.
“Com base numa investigação em que aos testemunhos actuais de pessoas que de algum modo estiveram ligadas a Joaquim Ferreira Torres se junta um aprofundado trabalho de recuperação de variada documentação, parte da qual inédita ou pouco explorada, Miguel Carvalho traça o perfil, o percurso, os relacionamentos e os contextos que acabaram por conduzir o protagonista ao trágico desenlace final. Numa linguagem concisa e num estilo fluido, Miguel Carvalho devolve-nos, reconstrói e enriquece a memória de um passado demasiado recente para poder ser esquecido ou ignorado, o que reveste “Os segredos do Barro Branco” de uma inegável actualidade.
O troféu Gazeta de Mérito foi atribuído pelo Júri a João Paulo Guerra pelo seu longo, diversificado e prestigioso percurso profissional de quase meio século de actividade na rádio, na imprensa e na televisão. Actividade essa à qual – na reportagem, na análise, na entrevista, na crónica – sempre imprimiu um cunho muito pessoal, feito de rigor, seriedade, competência e também, sempre que as circunstâncias o propiciam, de um fino humor. Iniciou a sua carreira na Rádio Renascença, em 1962, tendo trabalhado depois, a diversos níveis de responsabilidade e envolvimento, no Rádio Clube Português, TSF, Antena 1 (onde desde há alguns anos mantém a sua Revista de Imprensa), Diário de Lisboa, A Capital, O Jornal, O Diário, Público, Expresso, Diário Económico e SIC.
A Direcção do Clube de Jornalistas deliberou atribuir ao quinzenário Repórter do Marão o Prémio da Imprensa Regional, pela qualidade global do seu projecto jornalístico, que inclui presença no online. Sediado em Marco de Canaveses, o seu âmbito informativo ultrapassa largamente o nível local e alarga-se praticamente a todo o norte do país, desde o litoral ao interior transmontano. Publicado ininterruptamente desde há 26 anos, actualmente em formato de revista a cores, o Repórter do Marão, propriedade da Tâmegapress, apresenta um cuidado aspecto gráfico, possui uma dezena de redactores e colaboradores e mais de três dezenas de colunistas, constituindo um bom exemplo da renovação e revalorização da nossa imprensa local e regional, cuja necessidade se afigura cada vez mais urgente nestes tempos chamados de globalização”.

O Júri decidiu não atribuir o Prémio Gazeta Revelação por não ter encontrado trabalhos com a qualidade requerida para tal distinção.

(Informação do Clube de Jornalistas)