Pingo Amargo

Está no nosso ADN. O Pingo Doce é uma marca portuguesa. E gostamos dela. Se não gostássemos, não nos importávamos. Mas a julgar pela proliferação de vozes críticas gostamos mesmo.

Começámos o namoro com anúncios-­poema de iluminação mística e voz colocada que transfiguravam uma vulgar truta de aquário num rodovalho requintado, posicionando-­‐se como uma cadeia de distribuição com um toque gourmet que nos dava a ilusão de uma vida mais bonita. Oficializámos a relação mais tarde quando o apelo à tradição veio acompanhado de uma descida de estatuto, tornando o sítio do costume um lugar mais popularucho, uma espécie de parque temático com sorrisos da charcutaria aos detergentes.
Não gostámos, criticámos a musiquinha irritante e semi-­pimba do venha cá até que ela começou a entrar no ouvido. E porque sabe bem pagar tão pouco, perdoámos e aproveitámos as promoções durante todo o ano, sem cartões nem complicações.
Estávamos nesta vidinha quando o parceiro com quem partilhávamos os nossos dias assumiu publicamente que afinal o que é nosso, o nosso azeite, o nosso vinho, o nosso pão com azeitonas, o nosso bacalhau da Noruega, enfim, o nosso amor por Portugal, tinha andado a fazer olhinhos a um sistema fiscal bem mais vantajoso.
Afinal não tínhamos casado para o melhor e para o pior? Não gostámos. Sentimos a facada nas costas. Menos de um ano depois de Soares dos Santos apelar a um governo de salvação nacional, procurava a sua e a nossa salvação numa relação extra-conjugal e explicava porquê num comunicado em que nos diz que nos ama desde 1792.

Comunicado Pingo Doce distribuído nas lojas em 5.1.12

Distribuído nas lojas perante a estupefacção de muitos dos consumidores que nem sequer tinham dado conta de qualquer tipo de polémica, tal como não se tinham apercebido da publicidade enganosa dos 0% de IVA no verão passado, o Pingo Doce assumia uma estratégia de comunicação de crise, comunicando para evitar outros protagonismos e mais ruído.
A traição poderá sido mais simbólica que real mas doeu. Gritámos: Podes ficar com a casa e o carro mas não me tires o carrinho de compras! Esperneámos e retaliámos com acusações anti-­patrióticas e boicotes. Alguns de nós foram até fazer compras à mercearia da esquina nessa semana. Só para aprenderem a não brincar com os nossos sentimentos e com a nossa fidelidade.
Mas porque as coisas não estão fáceis e o Cabaz Família nos dá 3kg de peixe congelado por 10 €, em breve a amargura deste amor corrompido dará lugar a um breve amuo. Até parece a letra de um fado, mas não é.

Entre raivas, apoios e indiferenças o Pingo Doce tem estado no centro dos argumentos esgrimidos contra e a favor, ganhando ainda mais tempo de antena. No fim da novela o que interessa é que o consumidor irá ao Pingo Doce enquanto isso lhe for favorável. E o consumidor está a aprender a fazer contas. As contas que lhe permitirão decidir pelo divórcio ou por manter um casamento de paixão morna com os habituais altos e baixos da conveniência.

O sapato de cristal da Cinderela poderá ser um clomp de madeira feito para turistas em Volendam e o melhor é pormo-­nos em cima dos tamancos e caminhar como se fossem stilettos.
Antes isso. Afinal já nascemos descalços. É bom que cada um de nós compare e comprove. Este é o pingo amargo-­doce de que se aprende a gostar.

Veja mais intervenções sobre esta relação de amor-ódio aqui e aqui.

A rede que nos liga…e nos anestesia

No início da década de 70 do século passado, Gil Scott-Heron (desaparecido em 2011), por muito considerado o ‘pai do Rap’, dizia-nos num poderoso poema que a revolução não passaria na televisão…ela aconteceria ao vivo.

Excerto:
You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.”

O texto insurgia-se contra uma TV conservadora, em conluio com o sistema político e alheia aos sérios problemas que enfrentava a comunidade negra nos Estados Unidos.

Mais de 40 anos depois verificamos que tudo (o real e o simulado, como dizia ontem o Luís Miguel Loureiro) parece acontecer ao vivo.
E, naturalmente, com consequências.
Vale a pena perder cinco minutos com a apropriação/adaptação que Ronnie Butler Jr. (o homem que já nos tinha dado em 2010 um outro brilhante momento) faz do poema de Heron.

O Papa nas primeiras

O Papa estará, neste momento, a chegar a Portugal e, como já se percebeu, as televisões fizeram um grande investimento no ‘evento’ (todas elas gastando, na noite de ontem, parte considerável dos seus serviços noticiosos a explicar-nos precisamente isso – o que vão fazer e com que imensidão de meios materiais e humanos).
As primeiras dos jornais de hoje são, curiosamente ou talvez não, muito menos efusivas (porque há menos recursos? porque só online vão poder contrariar a força dos directos da TV?).
Há, porém, duas que se destacam claramente; uma, porque recorre a um artifício de design interessante e a outra…bem, a outra, como já alguém disse num twit que li esta manhã, faz lembrar aquelas ideias geniais, cozinhadas por volta das 4hoo, por entre dois copos disto e duas cachimbadas daquilo…

O ‘big brother’ de Cavaco Silva

Leitura: “O ‘big brother’ de Cavaco Silva“. Texto de João Lopes, no blog Soun+Vision. “Como viver — e, acima de tudo, como pensar — este imbróglio de desentendimentos e contradições a que chegámos?”, pergunta o crítico.

Mafalda – 45 anos de ‘jornalismo cidadão’

Uma criança irrequieta, contestatária, com uma imaginação ainda por domar (por favor ver esta – parte 1 e parte 2 – palestra de Ken Robinson nas Ted Talks) acaba de fazer 45 anos de idade.
Confesso que às vezes falo dela na secreta esperança de ainda sermos um nadinha parecidos (somos quase da mesma idade 🙂 ) e confesso também que gosto de estar presente naqueles momentos especiais em que os meus filhos dizem coisas ‘à Mafalda’ (como acontece, inevitavelmente, com a maioria das crianças).
Quino é um génio de apelo universal e a sua Mafaldinha tem um ar de perenidade que continua a tirar de nós gargalhadas sonoras. Parabéns à ‘jornalista cidadã’ que conheci muito antes de saber o que era o jornalismo cidadão…
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Os meandros complexos da comunicação

Ainda em tempo de rescaldo eleitoral, passei hoje de manhã por um dos cartazes de campanha de Paulo Rangel.

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São de facto, como muita gente já disse, cartazes pobrezinhos, baços, pouco ou nada apelativos, quase artesanais. Mais adiante, passei por cartazes do PS: enormes, modernos, bem produzidos, directos, cheios de cor, ricos. Mas o que é verdade é que os primeiros ‘ganharam’ as eleições e os segundos ‘perderam-nas’… Claro que é reducionista colocar as coisas assim, de modo tão simples, mas deixou-me a pensar como as estratégias de comunicação dos partidos, só por si, não são garante automático de sucesso. As célebres “teorias dos efeitos” dos media sobre as decisões políticas das pessoas estudam estes assuntos há décadas, e hoje sabe-se que não há, de facto, uma tradução directa das campanhas eleitorais nos votos efectivos.

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Num tempo em que se aposta até ao exagero em feéricos meios técnicos, em grandes cenários para televisão filmar, em músicas cientificamente estudadas para empolgar, em enormes cuidados na roupa ou no cabelo dos candidatos, em coisas do puro domínio ‘da forma’, é curioso constatar que os resultados obtidos podem sair tão ao contrário… Com aquele espectáculo todo que vimos na campanha, com os comícios tão cheios de bandeiras, com autocarros, camiões, brindes, folclore, encenação super-profissional e dinheiro q.b., o PS acabou por perder as eleições. Com aquela pobreza de cartazes, com umas acções de campanha mais modestas e meio solitárias, com uma suposta incapacidade de mobilização, com Paulo Rangel sozinho e abandonado, o PSD acabou por ganhar as eleições.

É claro que a campanha não explica tudo, longe disso. Mas também me parece que há aqui alguma matéria de reflexão sobre estas apostas excessivas na ‘comunicação’ super-profissionalizada (e super-cara) em que alguns partidos quase cegamente apostam, esquecendo-se que, afinal, se calhar é o conteúdo – e não a forma – que mais pesa nas decisões das pessoas.

Quem viu as campanhas de rua do PS e do PSD, nomeadamente através da televisão, quase garantiria que o PS tinha a vitória no papo (o próprio PS o imaginava, e agiu sobranceiramente em consonância, como foi por demais evidente). Afinal, quem ganhou foi o PSD… O que é que decidiu, então, a maior ou menor eficácia da comunicação de um e outro? Não terá sido uma questão de… substância?

Os padres que Deus quer” – reportagem JN

Desde o arranque do novo site, em finais de Maio de 2008, o JN online fez uma aposta muito forte na produção autónoma de conteúdos multimédia (autónoma, saliente-se…não confundir com inclusão de videos e/ou foto-galerias e/ou sons de agências ou disponíveis em plataformas como o YouTube).
Neste dia de Páscoa, sugere-se a mais recente reportagem, com autoria partilhada entre Cláudia Monteiro, Leonel Castro e Joana Bourgard: “Os padres que Deus quer“.

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Virá com uma parra?

Sobre a carnavalesca cena que teve lugar no passado fim-de-semana em Braga…

“Três polícias para quatro livros dá uma ideia da perigosidade dos volumes (e do realismo em arte), e só se estranha que não tenha sido chamado o Grupo de Operações Especiais, até porque uma mulher de sexo à vista é coisa mais perigosa do que um assaltante de cara tapada e espingarda de canos serrados na mão.
A boa notícia é que a PSP de Braga não tem falta de efectivos e não poupa neles quando, como explicou o subintendente Henrique Almeida, se trata de “evitar desacatos”, pois os livros estariam a atrair a atenção das crianças que andavam pela Feira com os pais, e a PSP de Braga, quando há “desacatos”, não actua sobre os “desacatadores”, actua sobre o que está quedo e não lhe oferece resistência, no caso os suspeitos do costume, livros.

A PSP terá decidido entretanto devolver o corpo do delito. Virá com uma parra?

Manuel António Pina, Jornal de Notícias

Pelo lado neutro da cor…

bwBlack & White é  um Festival só aparentemente sobre a neutralidade da cor.  Tem como objectivo «celebrar a estética a preto e branco, como forma específica, peculiar e única de manifestação artística». Pretende «estimular a criação de ambientes sonoros que remetam para a estética a preto e branco». No limite, pode reconhecer-se nos seus propósitos o intuito de «contornar um preconceito que relaciona o preto e branco com obras fastidiosas e pedantes».

A edição deste ano, que é já a 6ª, está agendada para Abril, de 22 a 25, e compreende, à semelhança das anteriores, uma competição de trabalhos submetidos a concurso. O call for artworks está aberto até ao dia 20 de Fevereiro. Podem ser submetidos trabalhos nas categorias de vídeo, audio e fotografia. Os prémios vão distinguir o melhor vídeo ficção, o melhor vídeo documentário, o melhor vídeo animação, o melhor vídeo experimental, o melhor vídeo musical, a melhor peça sonora, a melhor fotografia e um Grande Prémio B&W.

O Festival é promovido pela Escola de Artes da Universidade Católica Portuguesa. O Regulamento e a Ficha de Inscrição estão disponíveis no site do evento (aqui).

Ano novo…velhas práticas

Há práticas, no exercício da profissão, que mesmo sendo indicadoras de profundo desrespeito estão tão naturalizadas que parecem não constituír qualquer problema. Não serão problema para quem assim procede, não serão problema para quem lidera as empresas onde assim se age, não serão – aparentemente – também problema para quem regula a actividade. A serem, então, problema, sê-lo-ão apenas para os destinatários, para nós. Mas isso é, no fundo, coisa irrelevante.
E do que falo eu?


Falo da deliberada sobreposição do logótipo de uma estação de televisão em imagens que não tenham sido originalmente captadas por si ou por empresas do mesmo grupo.
Ontem à noite, os espaços informativos da RTP apresentaram declarações do primeiro-ministro, José Sócrates, à SIC mas lá fizeram o regular ‘esconde, esconde’ que, de tão primário, chega a ser insultuoso.

Em Abril do ano passado, a propósito de um episódio semelhante (curiosamente, com os mesmos actores mas em papéis invertidos), escrevi aqui algo que mantem toda a actualidade:
Os acordos de auto-regulação que, em momentos de maior aperto por parte das entidades reguladoras, os operadores nacionais tendem a querer fazer não podiam estabelecer regras claras?
A entidade reguladora andará atenta?
Bem sei que pode facilmente dizer-se que é uma questão menor; uma questão gráfica, ou de estilo.
Mas não é.
É uma questão de educação
.”

Curiosidades

Tornou-se prática comum do Google transfigurar a sua imagem por ocasião de datas especiais. O modo como o faz hoje, a propósito do dia de S. Valentim, é, no mínimo, ternurento. Uma nota para atenuar o peso dos dias…

News do not determine what is news – o quê?

Gnooze (não se lê o G…diz-se, portanto ‘nuze’, som idêntico ao de ‘news’) é um projecto com base num conceito de sucesso provado (Daily Show, por exemplo) – apresentador carismático (neste caso, apresentadora), tom absolutamente coloquial e um toque de comédia.
O formato é o de um videoblog, com excertos curtos e uma aparente (só aparente) realização descuidada.
Antecipa-se grande sucesso.

Exemplo: uma leitura ‘como faria o homem na rua’ do frenesim mediático em torno de umas declarações recentes de Hillary Clinton sobre Martin Luther King Jr.

Sugestão encontrada no Journalism Enterprise.

Novo blogue sobre postais ilustrados

Acaba de ser criado o blogue “Postais Ilustrados”. Os autores estão a desenvolver um projecto que pretende contribuir para uma socio-semiótica da imagem e do imaginário, bem como reapreciar os media tradicionais a partir destes meios aparentemente marginais.