Que bem que está a nossa TDT

A ANACOM disse ontem que desde o desligamento do primeiro emissor de televisão analógico, em Palmela, apenas 271 pessoas contactaram a linha de apoio da TDT por terem ficado sem sinal.
A maioria dos telespectadores que contactaram a linha de apoio não tinha tomado medidas para continuar a ver televisão, nomeadamente ainda não tinha adquirido um descodificador ou um kit satélite, adiantou ainda aquela entidade.
O balanço feito é, portanto, positivo.

Que leitura fazer disto?
Do ‘balanço’?
Da apresentação deliberadamente não contextualizada dos dados?
Do lugar da ANACOM enquanto (pelo menos no papel) garante dos direitos dos cidadãos?


Para ajudar à reflexão deixo (com a devida vénia) um excerto de um texto escrito este fim-de-semana por Miguel Gaspar na revista Pública (‘Este país não é de graça’):

Como já se compreendeu, todo o processo da TDT foi conduzido à medida dos interesses das empresas envolvidas. Da PT, que é dona da rede de transmissores, à Zon e à Meo e a acabar nos operadores de televisão, incluindo o quasi beatificado serviço público.
E o que é chocante é esse entendimento ter sido feito às custas dos espectadores mais desprotegidos, do ponto de vista cultural e do ponto de vista económico. Aqueles para quem televisão são quatro canais e mais nada (…). Em muitos casos, nas zonas onde a TDT não chegar, estes terão de comprar aparelhos para poderem ver televisão por satélite. Ao todo, irão pagar mais de 131 milhões de euros. (…) Este país não é para graças. De todo.

Vida de insecto

Flower Power

Se há coisa que a publicidade faz bem é retratar a nossa alma e acompanhar todos os momentos da nossa vida. Confortável e irritantemente omnívora. Irresistível.

O VW carocha surge em 2012 adaptado ao momento, como sempre fez, com este novo outdoor. Oferece-nos POWER, tira-nos FLOWER. A vida não está para menos mas apetece perguntar: Onde estão os hippies? E os yuppies? Que utopias nos restam a nós, breves insectos deste imenso universo?

A mensagem da flor riscada é a tradução do conceito exibido já no ano passado, na Super Bowl, o  21th Century Beetle.

Ecológicos e minúsculos, respirando as nossas vidas intensamente superficiais desaprendemos de sonhar. A Volkswagen – carro do povo –  recorda-nos dessa pulsão e dá-nos um empurrãozinho.

1964

1966 - Don't laugh.

1967

1968 Live below your means

Receita para os tempos que correm: viver abaixo das possibilidades.

O escaravelho tem sete vidas. Ou mais.

Imagem de abertura: www.ligateamedia.pt; Publicidade vintage: http://www.adclassix.com

‘Media’ privados ou públicos? A propriedade como poder de ocultação

Há dias, num “post” intitulado “Quem é dono do quê?”, Luís António Santos alertava aqui para a necessidade de uma maior discussão do ‘assunto’ da propriedade dos ‘media’ portugueses. O caso não é de somenos. É dos dispositivos de efectivo controlo do espaço comunicacional que se trata. Logo, é de democracia.

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Considero que a dissimulação de aspectos essenciais para o conhecimento de toda a maquinaria de produção da mensagem mediática, como a propriedade das empresas, é um dos aspectos cujo debate é mais decisivo na discussão da lógica privatizadora que avança de forma inexorável em Portugal. Mas os ‘media’ comportam ainda uma outra ‘nuance’: operam no âmago de um espaço de visibilidade que tudo substitui, isto é, constituem e administram eles próprios a visibilidade, produzindo uma extensa superfície de luz imediata: aquilo que vemos e nos é dado a ver. Ora, o que está visível separa, esconde, torna-se imagem que, constituindo-se visão do mundo, remete o que está aquém e além para a invisibilidade ou, pelo menos, para zonas de obscuridade. Diria: zonas de ocultação. Ou seja, ao constituírem e administrarem a visibilidade os ‘media’ detêm o poder de operar igualmente a dissimulação. E, como já aqui escrevi, sai vencedor da incessante batalha do visível contemporâneo aquele que mais capaz se revele a ocultar a sua posição.

Observemos, pois, o que se passa com a questão particular da propriedade dos ‘media’: na verdade, se o que está visível é a mensagem-imagem (o objecto mediático) que o ‘medium’ coloca em acelerada circulação, e se a visibilidade é constituída pelo conjunto de mensagens-imagens que são postas em circulação, todo o resto é remetido para zonas de ocultação, a começar pelo próprio processo de produção das mensagens. Não será difícil perceber que é, precisamente, nestas zonas de ocultação, porventura nas mais profundas e afastadas da superfície visível, que se situa o problema da propriedade. A propriedade dos ‘media’ não ocupará propriamente uma posição fixa, não está, certamente, isolada do sistema de visibilização, bem pelo contrário: ela interage com um sistema dinâmico a ponto de ser potencialmente decisiva no modo como o visível é constituído, reproduzido e administrado. Isto é: pode servir-se desse jogo do visível como poderosa superfície de dissimulação. Tornar algo visível pode significar a invisibilização do que é próprio. E este é um aspecto diferenciador da propriedade de empresas de ‘media’ relativamente à propriedade de outros tipos de organizações empresariais, económicas e financeiras: neste caso, não restam dúvidas de que propriedade é poder, mas também de que deste poder faz parte um decisivo poder de auto-dissimulação.

Onde reside, entretanto, a diferença essencial entre a propriedade pública e a propriedade privada se, neste simples esquema de visibilidade que nos serve de grelha analítica, tanto uma como outra parecem poder ser igualmente dissimuladas? Quer parecer-nos que a questão está na própria definição conceptual. Só faz sentido que o público opere num espaço de visibilidade que é sempre um espaço de publicidade. Assim, mesmo que se dissimule e, de certo modo, se privatize sob camadas de intransparência, privatizando os seus processos decisórios e produtivos, o público e o problema da sua propriedade estão sempre forçados ao regresso à superfície. Existirá sempre uma exigência de retorno ao visível. Ao privado é, entretanto, inerente a privacidade como carácter definidor, ou seja, é-lhe sempre conferido um direito de reserva, de permanência no privado. Veja-se, por exemplo, as justificações dadas recentemente para as nomeações na EDP, após venda aos chineses da Three Gorges (em especial as justificações de Eduardo Catroga, ancoradas na decisão de accionistas), ou para a (e)migração da Jerónimo Martins para a Holanda. É também deste aspecto decisivo para o debate da democracia que se joga o debate sobre a privatização dos ‘media’ do Estado.

(sobre este assunto, aconselha-se também a leitura de “O público, o privado e o ideológico”, publicado como nota, configurada como “pública”, por Rui Pereira, na sua página de Facebook)

Pingo Amargo

Está no nosso ADN. O Pingo Doce é uma marca portuguesa. E gostamos dela. Se não gostássemos, não nos importávamos. Mas a julgar pela proliferação de vozes críticas gostamos mesmo.

Começámos o namoro com anúncios-­poema de iluminação mística e voz colocada que transfiguravam uma vulgar truta de aquário num rodovalho requintado, posicionando-­‐se como uma cadeia de distribuição com um toque gourmet que nos dava a ilusão de uma vida mais bonita. Oficializámos a relação mais tarde quando o apelo à tradição veio acompanhado de uma descida de estatuto, tornando o sítio do costume um lugar mais popularucho, uma espécie de parque temático com sorrisos da charcutaria aos detergentes.
Não gostámos, criticámos a musiquinha irritante e semi-­pimba do venha cá até que ela começou a entrar no ouvido. E porque sabe bem pagar tão pouco, perdoámos e aproveitámos as promoções durante todo o ano, sem cartões nem complicações.
Estávamos nesta vidinha quando o parceiro com quem partilhávamos os nossos dias assumiu publicamente que afinal o que é nosso, o nosso azeite, o nosso vinho, o nosso pão com azeitonas, o nosso bacalhau da Noruega, enfim, o nosso amor por Portugal, tinha andado a fazer olhinhos a um sistema fiscal bem mais vantajoso.
Afinal não tínhamos casado para o melhor e para o pior? Não gostámos. Sentimos a facada nas costas. Menos de um ano depois de Soares dos Santos apelar a um governo de salvação nacional, procurava a sua e a nossa salvação numa relação extra-conjugal e explicava porquê num comunicado em que nos diz que nos ama desde 1792.

Comunicado Pingo Doce distribuído nas lojas em 5.1.12

Distribuído nas lojas perante a estupefacção de muitos dos consumidores que nem sequer tinham dado conta de qualquer tipo de polémica, tal como não se tinham apercebido da publicidade enganosa dos 0% de IVA no verão passado, o Pingo Doce assumia uma estratégia de comunicação de crise, comunicando para evitar outros protagonismos e mais ruído.
A traição poderá sido mais simbólica que real mas doeu. Gritámos: Podes ficar com a casa e o carro mas não me tires o carrinho de compras! Esperneámos e retaliámos com acusações anti-­patrióticas e boicotes. Alguns de nós foram até fazer compras à mercearia da esquina nessa semana. Só para aprenderem a não brincar com os nossos sentimentos e com a nossa fidelidade.
Mas porque as coisas não estão fáceis e o Cabaz Família nos dá 3kg de peixe congelado por 10 €, em breve a amargura deste amor corrompido dará lugar a um breve amuo. Até parece a letra de um fado, mas não é.

Entre raivas, apoios e indiferenças o Pingo Doce tem estado no centro dos argumentos esgrimidos contra e a favor, ganhando ainda mais tempo de antena. No fim da novela o que interessa é que o consumidor irá ao Pingo Doce enquanto isso lhe for favorável. E o consumidor está a aprender a fazer contas. As contas que lhe permitirão decidir pelo divórcio ou por manter um casamento de paixão morna com os habituais altos e baixos da conveniência.

O sapato de cristal da Cinderela poderá ser um clomp de madeira feito para turistas em Volendam e o melhor é pormo-­nos em cima dos tamancos e caminhar como se fossem stilettos.
Antes isso. Afinal já nascemos descalços. É bom que cada um de nós compare e comprove. Este é o pingo amargo-­doce de que se aprende a gostar.

Veja mais intervenções sobre esta relação de amor-ódio aqui e aqui.

Novos mercados, novos negócios…

Recentemente, acontecimentos estranhos (no mínimo estranhos) têm redimensionado (para não dizer virado de pernas para o ar) aquilo que é a concepção de fazer ciência. De fazer ciência com dignidade, com mérito transparente. E isto porque parece estar a surgir um novo negócio, extremamente lucrativo e engenhoso… Falo das publicações PAGAS em revistas científicas internacionais…

Tem sido prática, pelo menos de forma mais visível nos últimos meses, o editor da revista congratular o autor pela aceitação da publicação e anexar na simpática mensagem o formulário com a revisão de pares e com os devidos comentários (em pinceladas muito largas, diga-se, uns “peer review comments” muito genéricos) para enriquecer o texto para publicação. Ora, acontece que à 3ª ou 4ª mensagem de correio electrónico trocada lá vem o SE. No caso, o pagamento de uma certa quantia monetária por cada página do artigo…  Assim: “The flat price is $50 US dollar per page”. Por página, a multiplicar por cerca de 20 páginas, a dividir pelo número de autores… Ah, então afinal até parece que nem dá muito a cada um! Ironia, claro está.

Falo da David Publishing Company, mais concretamente da revista Journalism and Mass Communication, mas apenas com o objectivo de ilustrar o que parece ser um novo negócio neste mercado das ideias e de o usar como mote para a discussão. A “ciência sem consciência” de que fala Rabelais parece encontrar aqui um excelente porto de abrigo.

Um negócio no mercado das ideias e uma reformulação da noção de ciência estão, assim, na base de estratégias como esta. Um novo modelo de negócio, dirão!

Mas este exemplo não termina aqui. Após pesquisa sobre as características da revista (indexação, factor de impacto, etc…), descobrem-se na blogosfera diversas críticas e relatos de más experiências com a revista ou com a editora (aqui, aqui ou aqui). Descobre-se, ainda, que há já quem discuta o assunto (nomeadamente aqui e aqui) e há inclusivamente listas daquilo a que chamam “Predatory Open-Access Publishers” e comentários que se referem a esta prática como um acto fraudulento (como aqui, aqui, aqui ou aqui). Estas referências são das mais variadas áreas científicas, não apenas das Ciências Sociais, o que denota alguma sensibilidade para o assunto e uma reacção por parte da comunidade científica.

Segue novo e-mail da parte dos autores. “Obrigada pela oportunidade mas a decisão é pela não publicação”… E eis que a resposta é inédita! Já passam a prescindir do pagamento da dita “fee” e acrescentam:

Maybe there is a misunderstanding.
Our editors, reviewers and authors are from all over the world,
and we try our best to provide a platform for experts and scholars
worldwide to exchange their latest findings.
However,to be honest, our journal just began,
it is very new and there is no sponsor for us,
so we have to charge some fees to run our journal.
Please understand that and support us. Thanks a million!

Milhões – e milhões de tudo, não apenas de dólares  – são o que estará em causa em situações como esta, nas quais se inverte completamente o processo produtivo… Em que se pede o pagamento de quantias para publicar trabalho digno e esforçado, em que não se sabe bem que implicações terá isso… Será bom? Será mau? Um novo modelo de negócio? Válido não é de certeza, a meu ver. Pelo menos não nestes moldes.

Quase, quase jornalismo

Deverá estar amanhã nas bancas a segunda edição da revista do Expresso depois da sua mais recente mudança.

Correndo o risco de falar ainda ‘a quente’ diria que – a julgar pelo exemplar a que tivemos acesso na semana passada – estamos em presença de um produto informativo cuja razão de ser está cada vez mais distante do jornalismo e cada vez mais próxima dos universos da comunicação institucional e da publicidade.

É fácil perceber porque isto sucede – o mercado publicitário está em quebra e o grupo Impresa vive também momentos de fragilidade. A solução passa, aparentemente, por reformular um produto com preços de tabela altos (em termos nacionais) por forma a apelar a mais anunciantes, no maior número possível de segmentos. Sendo um produto-associado, a revista procura deliberadamente terrenos publicitários para além daqueles abrangidos pelos cadernos principal e de economia e ‘joga’ nos anunciantes que querem chegar a um público interessado numa versão upmarket da Caras.

Uma observação muito rápida do que nos foi oferecido permite anotar a presença de seis textos de opinião, cinco segmentos com algo que poderia ser designado como notas breves, outros cinco com citações / excertos / inquéritos, dois trabalhos de perfil, uma pré-publicação de um livro, três entrevistas (sendo que uma delas é com um famoso ator de cinema, sobre um filme que, páginas antes, aparece publicitado), dois (se adotarmos um entendimento lato do género) espaços de reportagem – um em que se promete ter um ‘intruso’ (anónimo) em festas, vernissages e happenings e um outro em que se leva alguém (famoso, presume-se) a uma passeata e disso se dá conta – e pelo menos sete áreas autónomas de divulgação e sugestão de produtos (desde os vinhos, às roupas em saldo, à dança de varão).

No video de apresentação da nova aposta do Expresso a editora, Mafalda Anjos, prometia, de facto, “mais energia positiva, mais otimismo“, num “produto mais leve” em que se notaria um “reforço de toda a componente de serviços“.

Há, neste exemplo, indicações que podem ser úteis para discutir o atual estado da imprensa em Portugal:

– A relação – sempre sensível e instável – entre os interesses jornalísticos e os interesses das áreas ligadas ao marketing e à publicidade na empresa  é tendencialmente menos de equilíbrio e mais de subjugação;

– A importação para o papel de lógicas de organização dos temas, do espaço gráfico e da própria escrita da internet – não estando ainda provado em lado algum do planeta que tenham funcionado – acrescenta complexidade e arrisca-se a tornar o produto físico ainda mais redundante;

– As opções estratégicas parecem basear-se nas ideias que, noutros mercados e há já mais tempo, levaram muitas publicações a um definhamento agoniante; dá-se às audiências cada vez menos – levezinho, fresquinho, ‘micro-formatos’, como diz a editora – presumindo que isso aumenta os níveis de fidelidade (lembra a história do burro que estava quase, quase a habituar-se a não comer…);

– As opções estratégicas parecem estar ancoradas na ideia de que, no essencial, o jornalismo é aborrecido; conseguimos tolerá-lo mas em doses reduzidas, tão depuradas, tão estilizadas, tão bem paginadas que se confundem facilmente com a ‘energia positiva’.

O Expresso não é – longe disso – caso único, mas sinaliza o domínio absoluto de uma tendência de gestão muito limitada e sem horizontes que está a marcar, de forma decisiva, o jornalismo nacional.

Dir-se-á, com razão, “quando até o Expresso”…

Crí(p)tica da ‘razão técnica’

(reflexões soltas a propósito da aparente complexidade, por vezes altamente críptica, da conversa dos “ratings”, dos debates da finança e da economia, ou da fuga tecnicamente assistida à explicação de casos como a TDT[1], ou seja, dos inúmeros episódios de comunicação contemporânea no espaço público que surgem codificados e, aí, ocultos sob a iluminação intensa de argumentos e “razões técnicas” que, na prática, ao ofuscarem e prenderem o olhar imediato, afastam a cidadania do centro do debate democrático assegurando modos exclusivistas de controlo do espaço comunicacional)

Parar é morrer.

Quem não aparece esquece.

Toda a nossa existência parece ser, hoje mais que nunca, sobre o constante refinamento dessa ligação: a luz e o movimento. Intensos. Perpétuos. O mundo e a vida, sem eles, correm o risco do desabamento numa fatal falha de sentido.

Desde a alvorada moderna, com os seus preparativos renascentistas, que aprendemos a conhecer o poder da luz óptica sobre os corpos terrestres. Começámos a negar a luz como exclusivo do divino, trouxemo-la para o meio de nós, para onde as coisas se vêem, de facto. Ver é crer. Ver é conhecer.

A ciência, e o primado da observação e da sua consequente verificação, constituem a prova desse poder massivo da luz óptica. Foi a luz que iluminou os corpos (terrestres e celestes) e, neles, começou a revelar a sua “mathesis” universal, o seu rigor, numa relação das formas com as fórmulas, afinal, o conteúdo matemático da vida que se constituirá como nova relação mística. Recuperaram-se os antigos, renasceu o teatro, e a luz, sempre, em todo o lado. A alvorada moderna fez passado das trevas medievas e lançou o mundo na promessa radiosa de um dia interminável.

Parece óbvio que, com a revelação óptica da luz, só podia vir mesmo o movimento, a seguir. Prometido, primeiro, como liberdade, como revolução. O livre movimento dos corpos, nesse intenso iluminismo dos tempos: a razão universal do indivisível indivíduo emancipado. Concretizado, finalmente, como confinamento dissimulado pela intensificação do movimento, isto é, como inapercebido controlo, razão técnica imediata que se apresenta ao movimento acelerado dos corpos que tudo vêem mas já nada compreendem. Razão técnica que há-de ser sempre uma, uma nova e inesperada, na miríade das razões técnicas.

Perdoe-nos Kant a ousadia da glosa, mas é de um mergulho críptico, de uma crítica da críptica ‘razão técnica’, que hoje necessitamos, sob pena de nos deixarmos levar na acelerada onda cinética. Perdidos num caleidoscópio de sombras sem sombra.

A luz forte que ilumina o movimento e a mobilização dos corpos tornou o visível insuportável, ofuscante. O filósofo francês Paul Virilio descreve-o como um campo de batalha e tem razão. A questão é que é do mais perigoso e traiçoeiro dos campos de batalha que se trata. O campo de batalha do visível faz da visibilidade a mais valiosa das suas mercadorias. Quem não aparece, esquece. Contudo, o “aparecer”, hoje, só se torna possível para corpos em movimento intenso e é aí que reside a sua armadilha. A sobrevivência, na guerra contemporânea está, mais do que nunca, relacionada não com o movimento em si, mas com a dissimulação. O “aparecer”, para o combatente, pode ser fatal se for um “aparecer congelado”, se se contiver numa imobilização. Por isso, ele esconde-se no avião furtivo, desaparece do radar comum usando o artifício técnico. O que “aparece” são apenas os seus efeitos. Quando ataca, já não está lá. A sobrevivência está, assim, relacionada com a capacidade rara de aparecer sem ser visto, sem ser detectado, a capacidade que cada combatente tiver de atacar sem nunca se deixar imobilizar. Parar é morrer. Assim, o “aparecer” é, hoje, um acto bélico, de um contra os outros. Ganha a guerra quem detiver a exclusiva chave da encriptação, quem possuir o restrito código de acesso à mensagem, quem se souber esquivar para lá da cortina técnica.

E o visível, já não será mais que um perigoso campo de batalha: intensamente iluminado, ofuscante e potencialmente paralisante. No campo de batalha, já ninguém é livre, e todo o movimento dos corpos é perseguido, controlado, rastreado e, potencialmente, tecnicamente anulado.

Percebe-se, pois, a importância de aprendermos a perscrutar o escuro da nossa contemporaneidade, tal como outro filósofo, o italiano Giorgio Agamben, escreve nas suas obras mais recentes. Afinal, é nesse imenso espaço onde o visível óptico não consegue chegar que as estratégias de ataque realmente se desenham. Será esse, porventura, o papel que resta a uma ciência da comunicação que se queira capaz de intervir no social em que está envolta. Será esse o papel que estamos intimados a assumir a cada tentativa de denúncia crí(p)tica que aqui nos propusermos fazer.


[1] Sobre este último tema, sugiro (re)leitura do excelente artigo escrito para este blogue por Sérgio Denicoli.

Quem é dono do quê?

A paisagem mediática nacional está em estado de grande fluidez – talvez seja o normal em tempos de crise, ou talvez não.
Parece, em todo o caso, que o ‘assunto’ da propriedada dos média portugueses deveria ser mais discutido (nos próprios média mas também fora deles).
Regista-se com agrado a atenção da Estrela Serrano ao tema – aqui e aqui, por exemplo – mas as movimentações ocorridas nos últimos tempos e, sobretudo, as que parecem estar ainda em curso talvez necessitassem de maior visibilidade.
Duas notinhas recolhidas hoje, a este propósito, não presumindo que uma possa ter algo a ver com a outra: o FC Porto pode estar a preparar-se para lançar um grupo de média e o Público anuncia novo plano de corte na despesa.

Pagar para ver o mesmo, melhor

O diário britânico, The Guardian, inicia depois de amanhã uma experiência nova em que pede aos subscritores do seu app para iPad que passem a pagar £9,99 por mês.
É um passo importante sobretudo porque estamos na presença de um dos mais acérrimos defensores da disponibilização de conteúdos jornalísticos de qualidade gratuitos.
É um caso interessante porque o jornal parece ter estudado com atenção a sua audiência fora do papel, acenando a quem quer mais comodidade e um design mais cuidado com o pagamento (do qual um terço é devida à Apple) ao mesmo tempo que diz – quem não quer, pode sempre continuar a aceder às versões móveis do site.
Mais aqui.

As imensas sobras dos jornais

Retomando uma curiosa tradição inaugurada por José António Saraiva n´O Sol, também o director do “i”, Martim Avilez de Figueiredo, decidiu fazer-se entrevistar para o seu próprio jornal (tendo até contratado uma estrela de fora, Mário Crespo, para se ocupar da tarefa), no dia – 7.9.09 – em que se comemorou a saída do nº 100 daquele diário. A entrevista tem algumas passagens muito interessantes, de que me permito salientar estas duas:

As vendas estão bem. O i tem de vender 12 mil exemplares em banca – é isso que achamos que valemos. Actualmente estamos a vender 9700 em banca, com uma subida. Vendemos 10 900 no primeiro mês, 7200 no segundo, 7400 no terceiro e 9100 no último mês. Isto são as vendas em banca. O que conta no mercado e que serve como padrão de comparação é a circulação paga, a maneira como fazemos circular o jornal: 12 753.

 

As sobras são grandes mas isso não tem só a ver com o problema da receptividade. Tem a ver com o drama da distribuição. Jornais com curvas de aprendizagem de 20/30 anos, como o “DN”, não conseguem trabalhar com sobras muito abaixo dos 50%. O “DE” não conseguia trabalhar com sobras abaixo dos 64%/68%. Nós estamos com sobras de 76,77%. Estamos ainda a aprender onde o i tem de estar para vender o que tem de vender

O director considera, assim, relativamente normal que o “i” esteja com quase 80 por cento de sobras. Ou seja, que tenha de imprimir diariamente quase 50 mil exemplares para conseguir vender 10 mil… E deitar ao lixo, todos os dias, 40 mil cópias…

A distribuição é, de facto, o grande “calcanhar de Aquiles” dos jornais portugueses, em termos empresariais. Nenhum escapa satisfatoriamente desta entorse.  Costumo dizer que se algum gestor conseguisse encontrar o segredo para uma distribuição mais eficiente de jornais no nosso pequeno mercado, diminuindo o desperdício diário das sobras para níveis aceitáveis, seria o empregado mais valioso e mais bem pago de qualquer empresa jornalística… Os jornais portugueses, em média, nunca conseguiram baixar a percentagem de sobras da casa dos 20-25 por cento (e o mesmo sucede com as revistas semanais), o que é um valor razoavelmente alto. Mesmo jornais como o Público, que é detido por um grupo económico especialista na área da distribuição (distribuição alimentar), nunca foram capazes de resolver aceitavelmente esta questão. Agora, passar de 20 ou 25 por cento para os supostos 50 por cento de sobras do DN, 64/68 por cento do DE ou 76,77 por cento do “i” (Martim Avilez “dixit”), vai uma diferença de todo o tamanho… Como é que se consegue viabilizar um  jornal com quatro exemplares diários para o lixo por cada um que se vende?… Também destes menos conhecidos dramas se faz a crise da imprensa portuguesa, castigada por um mercado muito pequeno, instável e fragmentado.

Jornalismo online = trabalho forçado

20090525_LeMonde_LesForcatsDeLinfoUm texto de Xavier Ternisien sobre o jornalista online, publicado originalmente na edição papel do Le Monde está a tornar-se o centro de uma discussão em França.
Intitulado ‘Les forçats de l’info’, o texto sugere que os jornalistas online são – pela forma como descrevem a cada vez maior interligação entre as suas vidas privada e profissional – uma espécie de escravos…ainda que consentindo (alegremente) nessa situação.
Excertos:

On dit aussi “les journalistes “low cost”“, ou encore “les Pakistanais du Web”. “Ils sont alignés devant leurs écrans comme des poulets en batterie”
(…)
Ils enchaînent les journées de douze heures, les permanences le week-end ou la nuit.
(…)
Les témoignages abondent, le plus souvent sous anonymat. Ces jeunes journalistes ont encore leur carrière devant eux et ne souhaitent pas la compromettre. C’est le cas de cette jeune femme de 24 ans, qui a travaillé de 2006 à 2008 en contrat de professionnalisation au Nouvelobs.com. Elle décrit un travail bâclé, le copier-coller de dépêches d’agence “en reformulant vaguement, sans jamais vérifier, faute de temps”.

[Sugestão recolhida aqui]

Dinossauros…d’O papel!

Uma crítica literária que se transforma num muito curioso texto sobre as vidas e as existências dos grandes magnatas da imprensa norte-americana – “Paper tigers: what media moguls make“, de Nicholas Lemann no The New Yorker.
Excertos:

Media moguls—journalism moguls, anyway—need two sets of skills. They have to be able to select and package material from the world in a way that gives it order and narrative drive and swagger. They also have to forge, through creativity, cunning, and force, a set of arrangements with customers, competitors, governments, advertisers, production facilities, and distribution networks which can generate a lot of money. Even in an era of focus groups and marketing research, any news publication that attracts an audience has to have a personality, which means that it has to bear the stamp of a real person.
(…)
We now may see the history of journalism rewinding even farther, back to the time before the burghers and before the impresarios, when there wasn’t much of a market for news and there was a seamless connection between journalism and politics. Substantial realms of journalism, especially in newer media like the blogosphere and cable television, are already hard to distinguish from political activity. As government gets bigger and more consequential, the worry is not that there will be no one to purvey the news but that the news will no longer remain an independent and countervailing power.
(…)
A power-hungry media mogul is an independent social force—more independent, of course, when politicians he disapproves of are in power. That ought to count for something. And if, in the bargain, we get news, or entertainment, or even higher blood pressure from being infuriated, that’s another benefit. These days, we seem to be drifting toward the world that media reformers have dreamed about for half a century, where the press is made up entirely of small players. If we get there, we may find ourselves missing the dinosaurs who once roamed the earth.

Livro – Periodismo Digital

20090230_periodismodigital

Embora não seja um livro recente (edição de 2007) Periodismo Digital, de Luis A. Albornoz é uma sugestão de leitura – sobretudo se em parceria com o mais recente estudo de Ramón Salaverría e Samuel Negredo – para quem quiser começar a entender os esforços em curso há já vários anos em muitas empresas para reinventar o seu lugar num universo com regras ainda pouco claras.
O estudo de Albornoz apresenta-nos um panorama da situação em seis empresas ibero-americanas (elmundo.es, clarin.com, reforma.com, elpais.es, abc.es e lanacion.com) e fá-lo através de uma grelha de leitura que pode constituir um interessante ponto de partida para estudos semelhantes.

Periodismo Integrado – novo livro

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Está já disponível para encomenda o mais recente livro de Ramón Salaverría e Samuel Negredo – “Periodismo Integrado: Convergencia de medios y reorganización de redacciones“.
O trabalho observa oito experiências de integração de redacções (The Tampa Tribune, The Guardian, The Daily Telegraph, Schibsted, Financial Times, O Estado de S. Paulo, The New York Times e Clarin) – um contributo assinalável – e apresenta-nos um cenários de ‘tempestade completa’ em que dificilmente se vislumbram soluções uniformes para ‘a crise’.
É possível aceder gratuitamente ao capítulo sobre o Daily Telegraph e é possível fazer uma encomenda directa aos editores.

É uma campanha muito boa lançada por dois portugueses ligados ao mundo do jornalismo impresso – Joana Maciel e Pedro Monteiro – e pretende tirar partido do carácter viral da net: disponibilizam quatro posters no seu blog (whatype), todos com mensagens positivas sobre o futuro do jornalismo, e pedem que sejam impressos e colados por toda a parte…a começar pelas redacções.

20090306_4posters_betternewspapers
Tamanhos para impressão: amarelo, vermelho, rosa, azul

[Sugestão recolhida no ContraFactos / Post replicado a partir daqui]