Bloggers, marcas e consumo

Longe de serem um meio de massas, os blogues não deixam, contudo, de constituir um nicho interessante: nicho de presença dos cidadãos nos media, nicho de reflexão, nicho de discussão e até mesmo nicho de algumas notícias. Por isto tudo, serão também um nicho de mercado a não desprezar pelas indústrias. O relatório da Technorati de 2010 incluiu uma secção sobre a relação entre os bloggers e as marcas, reflectindo sobre a crescente importância que este meio desempenha na promoção e debate sobre os produtos do mercado. Também as empresas reconhecem o potencial da blogosfera na gestão das marcas, tendo havido casos, nomeadamente em Portugal, de conflito e acções judiciais envolvendo bloggers e empresas. Mas a tendência geral no relacionamento entre ambos não será tanto de confrontação, mas sim de cooperação. São já muitos os bloggers convidados por empresas a participar em conferências de imprensa ou eventos, desde desfiles de moda à apresentação de desodorizantes. O reconhecimento dos bloggers como interlocutores a ter em conta é obviamente importante na promoção de uma esfera pública dinâmica e reflexiva, que contempla o contributo de cidadãos e pessoas interessadas no debate. Contudo, será sobretudo relevante se for capaz produzir discussão sobre as estratégias publicitárias e comerciais, abertas à participação dos cidadãos, e um consumo informado e informativo.

Cantar de Gallo

A ver se nos entendemos: falar uma mesma língua significa, mais que partilhar um idioma, estar em perfeita sintonia cultural.

A recente acusação de racismo de um anúncio do azeite Gallo no Brasil, despoletada por uma colunista da Folha de São Paulo e que deverá vir a ser avaliada pelo organismo de auto-regulação da publicidade do Brasil (CONAR), chama a atenção para um facto que é muitas vezes esquecido num mundo globalizado onde todos podemos e devemos falar uma mesma língua.

A ver se nos entendemos: falar uma mesma língua significa, mais que partilhar um idioma, estar em perfeita sintonia cultural com o local e o momento. Falar uma mesma língua implica ter sensibilidade para as idiossincrasias do meio ambiente comunicacional, seja ele institucional ou pessoal, implique ele um cidadão ou um país inteiro. Falar uma mesma língua é antes de mais nada respeitar e compreender o outro.

O que aconteceu com o Gallo brasileiro, criado pela AlmapBBDO, uma das mais premiadas dos últimos anos, é uma infelicidade comunicacional. É a prova de que o humor é uma arma poderosa mas difícil de manusear, que quando usada sem bom senso provoca danos colaterais e, no mínimo, um sorriso amarelo numa marca que nos habituou, pelo menos desde 1989, a alguns dos mais belos spots publicitários da portugalidade anunciando, mais do que um azeite premiado, a nossa própria alma.

A Gallo é líder em Portugal, com 30% da quota do mercado, é a quinta maior marca mundial e vende para 47 países. Recentemente fez um restyling da sua imagem para estar mais perto dos consumidores contemporâneos, reinventando a tradição e propõe-se vir a ser a terceira maior marca mundial de azeite.

“Eu gosto muito de ouvir cantar a quem aprendeu, se houvera quem me ensinara quem aprendia era eu.”

Desde 1919.

Regulação dos Média em Portugal e na Europa

Nos dias 24 e 25 de Fevereiro, teve lugar o Seminário “Media Regulation: National and International Debates” no Museu Nogueira da Silva, Universidade do Minho, Braga.
Durante dois dias, a equipa do projecto de investigação “A Regulação dos Média em Portugal: O Caso da ERC” (CECS/FCT) esteve reunida num encontro que serviu para fazer o balanço do trabalho realizado até ao momento.
Estiveram presentes os consultores do projecto (Divina Frau-Meigs, Hannu Nieminen, José Manuel Paquete de Oliveira, Josef Trappel, José Rebelo, Tarlach McGonagle) e investigadores convidados que estão a colaborar no projecto: Alessandro D’Arma, Manuela Grünangerl, Laura Bergés e Núria Reguero.
Para além da análise detalhada do trabalho realizado pela equipa, o seminário centrou-se no desenvolvimento de um modelo de análise comparativa para a regulação dos media na Europa.

“O mundo dos media depois dos casos Wikileaks e News of the World”

A atualidade do tema é evidente: que lições devem os media tirar do que se passou com o desvendamento de toneladas de documentos classificados de distintos governos pelo Wikileaks e pela divulgação dos esquemas de corrupção e minagem da sociedade democrática que levaram à queda do jornal britânico News of the World?

O assunto vai ser objeto de uma conferência internacional a ter lugar amanhã e depois na sede da UNESCO, em Paris, e pode ser acompanhada em direto pela Internet.

A conferência é organizada pelo World Press Freedom Committee (WPFC), em cooperação com o Sector da Comunicação e Informação da UNESCO e reúne, segundo a informação divulgada, “destacados representantes de meios de comunicação, jornalistas ‘cidadãos’ e profissionais, bem como juristas especializados em media”. O objetivo é “intercambiar opiniões sobre estas questões e discutir as boas práticas no jornalismo profissional tradicional e no jornalismo cidadão na era digital.

Estarão sobre a mesa dos debates temas como a liberdade de expresssão, de informação, a segurança nacional, a privacidade e a ética.Cerca de três dezenas de conferencistas e centena e meia de participantes de diferentes países (não nos pareceu haver participantes portugueses na lista de inscritos) procurarão responder às perguntas seguintes:

  • Como podem os jornalistas enfrentar a explosão maciça de dados em primera mão disponíveis na Internet?
  • Deveriam ser reequacionados o papel do jornalista e os seus padrões éticos e profissionais?
  • Como equacionar a relação entre “jornalismo cidadão” e o profissionalismo jornalístico tradicional?
  • Quais são os desafios para as leis nacionais e internacionais relacionadas com a privacidade, a segurança nacional, a ordem pública e a liberdade na Internet?
  • Qual o futuro das relações entre governos e meios de comunicação?

Para seguir a conferência via Internet: AQUI
Para consultar o horário e o programa: AQUI

(Créditos da imagem: News of the World/The New York Times)

Blogues políticos e mainstrean

O Luís Santos trouxe para esta plataforma a reflexão de Pacheco Pereira sobre o estado actual dos blogues políticos. Estas reflexões são partilhadas por muitos investigadores na área. Já em 2004, Drezner and Farrell, num texto intitulado “The power and politics of blogs“, previam:

“To the extent that blogs become more politically influential, we may expect them to become more directly integrated into ‘politics as usual,’ losing some of their flavor of novelty and immediacy in the process. The most recent evidence of co-optation was the decision by both major parties to credential some bloggers as journalists for their nominating conventions.”

Estas contribuições, ainda que não as devamos tomar por verdades científicas irrefutáveis, são essenciais para levantar questões sobre a natureza da blogosfera política. E o debate é, nesta questão, essencial para definir ângulos de análise. 

A quebra de interesse dos blogs políticos

Um dos mais famosos bloguistas nacionais, Pacheco Pereira, escreveu ontem um texto que me parece muito relevante sobre o que entende ser a quebra de interesse da blogosfera política nacional.
Diz Pacheco Pereira:
Há uma parte da chamada blogosfera nacional em que os blogues políticos tiveram e tem um papel central. Não é nada que não fosse previsível, dada a grande politização do espaço público, em que apenas o futebol, com outras características, ocupa um papel de relevo semelhante. Essa parte da blogosfera política está em profunda crise e explica por que os blogues políticos têm cada vez menos importância. Há várias razões para tal acontecer, e vou referir apenas três: a agenda dos blogues tornou-se a agenda comunicacional; os blogues tornaram-se espelhos miméticos dos partidos e fracções políticas, e os blogues são hoje uma “área de negócio”, quer em termos da gestão de carreiras individuais, principalmente no plano político, quer para agências de comunicação, marketing, etc., que actuam nesse meio para servirem os seus clientes. Tudo isso significa que os blogues políticos perderam independência, autonomia e transparência. São por isso menos interessantes, menos importantes e tem menos leitores.”

Mais relevante ainda parece ser algo que é dito quase ao fim do post:
Eu também tenho um blogue e deixo aos meus leitores o julgamento sobre em que medida se me aplicam as críticas que faço ao meio.

Se me parece correta a análise que aponta indicadores de cristalização dos blogs (e, nesse sentido, da sua adesão aos ritmos da nossa vida social) parece-me reconfortante a ideia de transparência e de abertura à discussão das fragilidades do próprio autor.
Esse é, aliás, um dos principais contributos que a blogosfera terá trazido ao nosso espaço comum de comunicação. Os blogs são espaços de deliberada fragilidade individual – os bons blogs; aqueles que, independentemente de concordarmos ou não com os seus autores, encaramos ainda como lugares com autonomia.

Motivos para a Anacom ser investigada pela Assembleia da República

Na última terca-feira, tive a oportunidade de participar de um simpósio na Assembleia da República e pedir aos deputados integrantes da Comissão para a Ética a Cidadania e a Comunicação, que propusessem a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), para investigar a fundo o papel do regulador no caso da implementação da TDT no país.

Não o fiz sem bases. Ao constatar que há indícios de que a Anacom não vem cumprindo a Lei das Comunicações Eletrónicas, que é a legislação que rege o direito de utilização de frequências concedido à Portugal Telecom para a exploração da TDT (Artigo 2º do título habilitante disponível aqui), sugeri aos parlamentares que cumprissem a função que têm enquanto fiscalizadores do sistema democrático, de forma a averiguar se há realmente um desvio do que deveria ser o papel do regulador.

Os indícios que apontei foram os seguintes:

De acordo com  Lei nº5/2004, de 10 de fevereiro, Lei das Comunicações Eletrónicas, as funções da Autoridade Reguladora Nacional, a ANACOM são:

  • “Defender os interesses dos cidadãos”.
  • “Assegurar a inexistência de distorções ou entraves à concorrência no setor das comunicações electrónicas”.
  • “Assegurar um elevado nível de protecção dos consumidores, do seu relacionamento com as empresas que prestam serviços de comunicações electrónicas.
  • “Promover a prestação de informações claras, exigindo, especialmente, transparência nas condições de utilização dos serviços de comunicação acessíveis ao público”.

Em relação à defesa dos direitos dos cidadãos, cabe à Anacom garantir a difusão de informação credível sobre a TDT, que não confunda os cidadãos. No entanto, jamais uma empresa foi punida por publicidade duvidosa, e estão a ser veiculadas peças publicitárias que utilizam a TDT como fator para impulsionar a venda de pacotes de TV paga, conforme os exemplos a seguir:

Imagem

Em relação à necessidade da Anacom de “Assegurar a inexistência de distorções ou entraves à concorrência no setor das comunicações eletrónicas”, cabe lembrar que:

A PT tinha uma cobertura analógica que chegava a 98% da população. Um decreto-lei obrigava os operadores a garantirem uma cobertura de pelo menos 95% da população.

O título dado à PT obriga a empresa a cobrir 90,12% da população continental, 87% nos Açores e 85% na Madeira.

A Anacom, em 7 de Abril de 2011, publicou uma deliberação que redefiniu a comparticipação nas zonas de sombra, modificando o Artigo 9º do título dado à PT para a utilização de frequências, que dizia ser obrigação da PT arcar com todos os custos referentes à recepção do sinal nas zonas de sombra.

—A Lei das Comunicação Electrónicas diz, em seu artigo 8º: “Sempre que, no exercício das competências previstas na presente lei, a ARN pretenda adoptar medidas com impacte significativo no mercado em causa, deve publicitar o respectivo projecto, dando aos interessados a possibilidade de se pronunciarem em prazo fixado para o efeito, o qual não pode ser inferior a 20 dias.”.Apesar da alteração promovida pela Anacom refletir na vida de mais de 1 milhão de portugueses, a mudança não foi submetida a concurso público, sendo definida após uma reunião com a Portugal Telecom, conforme diz a própria deliberação de 7 de Abril de 2011.

A Anacom tem feito reuniões com autarcas para discutir a redução das zonas de sombra. No entanto, jamais foi revelado os custos dessas operações, apesar do Deputado Bruno dias ter afirmado que em Vouzela foram pedidos 90 mil euros para a instalação de três repetidores. Em Espanha, qualquer empresa pode fazer este serviço que, em Portugal, tornou-se um monopólio da PT.

No caso das zonas de sombra, a venda do equipamento também é monopólio da PT (segundo a Anacom por questões de segurança) e permite o visionamento apenas dos  4 canais generalistas. Engenheiros dizem que a segurança está no cartão que é inserido no descodificador e não no próprio aparelho. A Lei das Comunicações Electrónicas diz o seguinte (Artigo 103): “Os equipamento de consumo destinados à recepção de sinais de televisão digital devem possuir capacidade para: reproduzir sinais que tenham sido transmitidos sem codificação”.  É preciso ressaltar que, com o equipamento DHT pode-se receber dezenas de canais livres transmitidos sem codificação por satélite. Mas não com o kit vendido exclusivamente pela PT.

Em relação à função da Anacom de “Assegurar um elevado nível de proteção dos consumidores, do seu relacionamento com as empresas que serviços de comunicação eletrónicas”, republico aqui o título de uma notícia divulgada pelos média este mês: “Dezenas de habitantes de uma aldeia de Mirandela garantem que foram enganados por agentes da MEO. Terão convencido mais de metade da povoação a aderir à televisão por cabo dizendo que seria a única forma de terem a Televisão Digital Terrestre.” TSF, janeiro de 2012. Não foram tomadas providências por parte do regulador.

A Anacom tem ainda a função de “Promover a prestação de informações claras, exigindo, especialmente, transparência nas condições de utilização dos serviços de comunicação acessíveis ao público”, no entanto:

A Anacom sempre ressalta que os valores despendidos pelos cidadãos nas zonas de sombra são os mesmos das zonas cobertas pela TDT. No entanto isto não é verdade, como todos sabemos.

A Anacom diz em suas campanhas que “quem tem TV paga não precisa migrar para a TDT”. Isto também não condiz com a realidade, pois muitas casas possuem uma televisão onde recebe a plataforma paga e outras televisões que recebem o sinal por via terrestre.

A Anacom jamais explicou detalhadamente em suas campanhas nos média como os cidadãos devem obter os subsídios para a compra dos descodificadores.

Portanto, foi diante dos factos relatados acima, que fiz o apelo para a instauração de uma CPI.

Das dúvidas às angústias

Não é novidade que sendo uma indústria fortemente financiada pela publicidade, onde as empresas menos investem em situação de dificuldades, os media sentem sempre os efeitos das crises económicas. A propósito da passagem do jornal la Tribune a versão online apenas, o jornal Le Monde faz um retrato algo desolador da imprensa do Sul da Europa, mostrando como a crise económica afecta grandemente a saúde do sector.

O artigo não refere Portugal. Contudo, os índices de baixa leitura de jornais e as debilidades do sector não nos podem deixar descansados: que tempos virão agora para os jornalistas portugueses? que consequências para a qualidade da informação disponibilizada aos portugueses? que efeitos na saúde da nossa democracia?

Estas questões, mais que dúvidas, começam a parecer cada vez mais angústias.

‘Bora lá ser pobre?

SPENT parece o nome de uma série televisiva do tipo Lost ou Perdidos na Tribo. Embora a experiência nos possa deixar um pouco perdidos, trata-se de um jogo online que simula a sobrevivência com mil dólares por mês, nos Estados Unidos. Fosse em Portugal e esta quantia daria para muito mais, mas cá aplica-se aos novos e velhos pobres, aos assumidos e aos envergonhados, às mais de 31% de famílias, segundo uns, um quinto dos portugueses, segundo outros, que vivem no limiar da pobreza ou abaixo dele.          

SPENT faz parte de uma estratégia de comunicação que pretende chamar a atenção, receber donativos e envolver a sociedade e os membros do Congresso norte-americano —  a quem também foi lançado o desafio de jogarem — para o que acontece aos milhares de pessoas  normais (sim, pessoas como nós) que, subitamente ou num lento e devastador processo de agonia,  se tornam dependentes, desempregados, sem-abrigo e desesperados. Desgastados financeira e economicamente, agastados social e emocionalmente.

SPENT coloca-nos o desafio de viver na pele de um recém-desempregado com um filho, que tenta arranjar emprego e chegar ao fim do mês vivo. Pelo caminho há várias situações que simulam a vida real, como ter que alugar uma casa mais barata, escolher entre pagar a conta do gás ou da electricidade, entre explicações para o filho ou pagar o seguro do carro, ou entre aceitar um casaco em segunda mão ou a ajuda da caridade. Mas também somos obrigados a fazer escolhas de carácter moral ou emocional, como entregar ao dono uma nota que este deixou cair ou assumir os estragos de um toque no parque de estacionamento.

Criado a partir da realidade americana por quem sabe do que fala (parece que a criadora, Jenny Nicholson, copywriter, viveu uma vida de privações), patrocinado pela agência de publicidade McKinney e pelos Urban Ministries of Durham, uma organização não governamental privada que se assume como “A community of support united for the greater good of all”, o jogo  já foi jogado por mais de um milhão e meio de pessoas em 196 países e revela-se de uma enorme actualidade aqui e agora.

O seu senão é que a abordagem pseudo-lúdica à pobreza pode provocar o que a Technology Review chama “gamification of poverty”, fazendo parecer que esta é uma realidade distante, paralela ou meramente virtual, da qual nos podemos facilmente alhear. Basta não querer ver. Basta não jogar o jogo.

Se ainda não experimentou a sua capacidade de resiliência na vida real, teste-a aqui.

TDT: ponto(s) de não retorno

O trabalho do investigador do CECS Sérgio Denicoli sobre o processo de implementação da TDT em Portugal atingiu ontem o que se pode, justamente, considerar um ponto de não retorno. Emergindo de uma investigação de doutoramento que está a aproximar-se da conclusão, a pesquisa de Sérgio Denicoli permitiu identificar e escrutinar de forma evidente a incomensurável lista de infelicidades, disfuncionalidades e irregularidades de um processo de transição que, como foi ontem afirmado no Parlamento pelo Presidente da Comissão para a Ética, Cidadania e Comunicação, Mendes Bota, tinha tudo para ser “um sucesso”.  Tinha, se tivesse observado as regras da democracia, que são as regras que, supostamente, se legitimam mediante a observação desse conceito chato (que diabo!) a que chamamos interesse público. O que não aconteceu no desgraçado processo português de transição para a TV digital, como ficou ontem, mais uma vez, demonstrado, levantando-se agora as mais legítimas suspeitas sobre todas as suas intrincadas complexidades. Isto sucedeu em plena Casa da Democracia. O que teve como consequência lógica o desafio que Sérgio Denicoli fez aos deputados.

(fotograma gentilmente cedido pelo investigador Mário Camarão)

O trabalho da investigação, seguindo a tradição de uma sociologia da acção que não se contém na elaboração de teses para consumo académico, coloca, pois, a esfera política perante a evidência de um processo que tem de ser rapidamente revisto, invertido e revertido a favor das pessoas a quem se destina. À política comete agora a obrigação da política. Foi esse o ponto de não retorno a que efectivamente se chegou: os deputados já não podem assobiar para o lado, fingir que não sabem de nada e continuar a vida como se nada se tivesse passado.

Quem acompanhou, através do Canal Parlamento (que já deveria estar a ser transmitido na plataforma TDT actualmente em operação, afinal de que é que se está à espera?), o colóquio e o debate que se lhe seguiu mas, acima de tudo, quem percebeu o teor das intervenções finais das diversas bancadas parlamentares, ficou, no entanto, com a inadmissível e desconfortável sensação de que o dossier pode ter atingido outro ponto de não retorno que não aquele que a evidência obtida pela investigação científica denunciaria: o de que o processo nasceu torto e de que nada pode, agora, ser feito para invertê-lo. Ou seja, nas entrelinhas das intervenções dos deputados (em especial, como é óbvio, dos que podem mudar algo, os do PSD, PS e CDS), que são, como sabemos, onde os discursos verdadeiramente se escrevem e se lêem, leu-se a possibilidade de nada vir a acontecer. A falácia, a verificar-se, é do domínio do monstro, qual fantasmagoria surgida de um apagão da democracia: na prática, significa a aceitação de transformação do Parlamento num sítio para lamentar, um sítio que se transmuta em caricatura de si mesmo pela distracção a que os deputados se devotam a mandar piropos uns aos outros, distribuindo inconsequentes galhardetes sob a forma de responsabilidades, do tipo: se o PS diz que é o actual governo que tem falta de estratégia para a TDT (ou para o que quer que seja), lá virão PSD e CDS argumentar que foi o anterior governo que elaborou todo o processo. E os eleitores (mas só aqueles que têm TV paga!) a assistirem, incrédulos, a todos estes sinais de fumaça.

Pontos de não retorno, portanto.

Act (2/02/2012): O debate foi, entretanto, disponibilizado na íntegra. Dois dias depois do debate e, diríamos, apesar do debate, em entrevista à RDP Antena 1, e insistindo particularmente nas referências ao investimento feito pela PT, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, recusou qualquer possibilidade de reabertura do processo da TDT, dando sinais de que, de facto, vingará a tese expressa neste “post” como receio de que se venha a confirmar o segundo ‘ponto de não retorno’. Com tudo o que isso implica. 

Os media e o debate público sobre a revisão curricular

Quando se reforma aquilo que as crianças e adolescentes estudam na escola, isso deveria fazer soar as campaínhas nas redações. É um assunto que afeta dezenas ou centenas de milhares de portugueses e, em boa verdade, não é assunto de somenos.  Contudo, a avaliar por aquilo que tem vindo a público, desde que, no final de 2011, o ministro Nuno Crato colocou em discussão pública uma proposta de revisão curricular para os ensinos básico e secundário, o que os media fizeram foi, globalmente, insignificante. O prazo termina hoje.

A performance do jornalismo e dos media nesta matéria deixa, pois, a desejar. E, no entanto … a matéria merecia mais atenção. Desde logo porque o Governo quer dar realce a conhecimentos e disciplinas “fundamentais”, mas com uma noção daquilo que é fundamental que pode constituir em termos de futuro um retrocesso e um desastre educativo e cultural. Ninguém de bom senso recusará que a aprendizagem das línguas, da matemática, das ciências ou da história seja fundamental. E porque não hão-de ser fundamentais as artes? Dito de outro modo: quem garante que não se amputa gravemente a formação básica dos portugueses desinvestindo nas expressões artísticas e na formação do gosto? E por que carga de água dessas dimensões hão-de ficar excluídos os filhos dos segmentos mais pobres da população?

Outro exemplo: ao dar-se uma machadada na formação cívica e/ou na educação para a cidadania (já denunciada tanto pelo Provedor de Justiça como pelo Conselho Nacional de Educação e pelas Associações de Pais), não se estará a comprometer gravemente a formação básica dos cidadãos, contrariando, de resto, o que preconiza a lei de Bases do Sistema Educativo? Será esta uma matéria secundária? Não mereceria estar não digo acima, mas ao mesmo nível das restantes matérias? Se os outros países estão a valorizar componentes da formação dos alunos que sublinham não apenas os conteúdos, mas os processos de aprendizagem e os contextos de participação das crianças e adolescentes, será Portugal algum caso raro para adotar um caminho solitário e porventura sem saída? Se a Comissão Europeia tem vindo a incentivar a inclusão de componentes que ajudem os alunos a a abordar critica e criteriosamente o “tsunami” informativo com que hoje se deparam – nos planos da pesquisa, avaliação, validação, tratamento e utilização dessa mesma informação, não considerará o Governo que esta é, nos tempos que correm, uma dimensão essencial e que provavelmente para a maioria, nenhuma outra instituição está capaz de a tratar como a escola? E ajudar a compreender o mundo atual, e o modo como os media o tratam, representam e difundem? Não será crucial essa literacia para os media, na formação básica dos cidadãos?

Pela leitura das propostas ministeriais, não é.  Pelo modo como correu o debate público, também não é. Pela passividade e desinteresse dos media, é-o ainda menos.

Não me venham dizer que é por causa da crise. Por este tipo de situações e de desafios também passa a resposta que podemos dar à crise. E respostas originais. Ou não?

Pluralismo nos media … ainda

O pluralismo nos media continua na ordem do dia. As preocupações europeias centram-se na Hungria, cujas recentes alterações legais, que limitam a liberdade de imprensa no País, levantam muita contestação interna e externamente. A nível da Comissão, a questão parece colocar-se apenas no plano dos princípios porque, de facto, a União Europeia não dispõe de muitos meios para intervir, fruto de muitos anos de políticas ausentes nesta matéria. Continuar a ler

Liberdade também na blogosfera

A liberdade de expressão, defendida pela organização Jornalistas sem Fronteiras, não é apenas uma questão de imprensa. A libertação do blogger egípcio Maikel Nabil Sanad, preso desde Março de 2011, também é motivo de contentamento.

TDT: quem parte e reparte…não é tolo e tem arte

A TSF noticia hoje que por causa da transição para a televisão digital terrestre uma aldeia transmontana foi ludibriada por revendedores da MEO (PT); os habitantes ou subscreviam o produto ou ficavam sem nada. E lá subscreveram, em contratos que os vincularam a dois anos de pagamentos (a notícia da TSF foi atualizada e passou a incluír a reportagem audio; reportagens video foram posteriormente apresentadas na RTP e na SIC).
Ontem, o Público dizia-nos que os habitantes de uma aldeia de Mochique estavam revoltados com a perda de qualidade no serviço de televisão a que acedem.
Percebe-se que a gestão das obrigações do prestador de serviço em termos de cobertura não foi decidida pela entidade reguladora; foi decidida pela regulado, em claro desfavor dos mais frágeis.
Falhando a cobertura, ter-se-á pensado, lá estará o ‘marketing agressivo’ de alguns revendedores de TV por cabo para ‘resolver’ a situação.

Perante um processo de transição cheio de falhas gravíssimas, a ANACOM lá vai tentando fazer passar, junto de quem anda distraído, um cenário de normalidade num quadro que de imediato nos faz lembrar as prestações de Muhammed Saeed al-Sahaf, o ex-ministro da Informação de Saddam Hussein.

Há instantes, no Facebook, Luís Miguel Loureiro comentava a notícia difundida pela TSF assim:
Na TDT, o comando está a ser Meo… Porque, bem vistas as coisas, a TDT é uma boa (a melhor) Zon para passarmos a ser, num ápice, o povo “mais rico” da Europa no que toca a ligar o ecrã lá da sala…
E pensar que este é o mesmo povo que, em vez de reclamar por uma TDT gratuita com dezenas de canais nacionais, regionais e locais, como toda a Europa tem, prefere reclamar contra o serviço público de Televisão mais barato do continente europeu e aceita sem duvidar todas as mentiras que são postas a circular sobre os custos do mesmo…

‘Petits-fours’

No rescaldo do fogo de artifício da abertura de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 na qual não tive qualquer participação a não ser numa espreitadela fugaz à televisão, venho aqui dizer que também Eu faço parte!

E não é de agora. Na capa do livro da quarta classe, salvo erro, o Castelo de Guimarães representava uma realidade distante no tempo e no espaço, uma ligação às minhas raízes mais  remotas, construindo um sentimento de pertença anacrónico nas águas quentes de Pemba, candidata a mais bela baía do mundo.

Retirado do vídeo promocional Guimarães CEC 2012

Confesso que quando anos mais tarde visitei o castelo fiquei decepcionada por naquele monte de pedras em ruínas quase nada restar do castelo que eu tinha construído na minha imaginação, cheio de soldados de cota de malha espreitando nas ameias, comandados por um rei Afonso de coroa reluzente. Já era tarde demais para rever a história mas o castelo não perderia nenhum fulgor na memória afectiva que dele guardo.

Guimarães 2012 é um bom exemplo de um restyling de marketing territorial, ancorando-se numa janela-coração e na ideia de participação e envolvimento da população local para além dos vários públicos estratégicos. Não sei de quem partiu a ideia, se foi uma encomenda ou uma criação espontânea, mas quando vi o bolinho húngaro com a forma do logo da capital europeia, percebi que a aposta da comunicação estava ganha. Haverá melhor merchandising? A participação para dar voz à diversidade foi levada ao extremo e até se pode personalizar o logótipo. Crie aqui o seu.

Só quando nos apropriamos dos símbolos é que eles de facto nos representam e nos dias de hoje é fundamental comunicar olhos nos olhos, olhos no coração.

Guimarães, I lobe ya!

Obs: Bolinho-coração-logo gentilmente roubado a Paula Nogueira que atribui a autoria à “Pavico, uma empresa com história que se dedica a panificação, pastelaria e catering. Muito conhecida na cidade pelas coisas boas que produz mas também pelo arrojo de comunicação”. Ainda me prometeu uma caixa de bolinhos. A boa comunicação abre, de facto, novas possibilidades.