«Era, então, Primavera» – notas sobre o 10º aniversário deste blog

Faz hoje dez anos que este blog começou a publicar-se, por iniciativa de um pequeno grupo que se formou na turma de  Jornalismo daquela que, se bem recordo, foi a primeira ou a segunda edição do mestrado desta especialidade na Universidade do Minho. Era, então, primavera. Em vários sentidos.

1.

Nascemos na peugada e sob a inspiração de um outro blogger que já tinha mais de um ano de avanço, o António Granado e o seu Ponto Media, um corredor de fundo, como se tem comprovado.

Mas nascemos numa envolvente ainda pouco habitada, se assim se pode dizer. Metemo-nos a sério. Basta dizer que a Elisabete Barbosa,uma das protagonistas e factor decisivo – pelas razões que mais adiante explicarei – viria a publicar, pouco depois, aquele que deverá ter sido o primeiro livro de estudo crítico sobre o fenómeno dos blogs e da blogosfera, precisamente em co-autoria com António Granado e com prefácio meu. E os dois, com mais duas alunas de licenciatura (uma delas hoje jornalista na SIC, a Sara Antunes Oliveira) organizamos na Universidade do Minho, em 18 e 19 de Setembro de 2003, o primeiro Encontro Nacional de Weblogs, com repercussão nacional através (como haveria de ser de outra forma?!) dos media clássicos, em particular a SIC e o Jornal de Notícias.

2.

Permitam-me uma nota pessoal, já que ela pode ter algum significado para avaliar como os tempos eram já, e continuam a ser, de mudança (de paradigmas?)

Eu leccionava, então, uma disciplina nova, intitulada Sociologia das Fontes Jornalísticas. Era nova em vários sentidos. Desde logo porque tinha nascido de um projeto de investigação coletivo daquele que viria a ser o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Mas, também, porque tinha subjacente a ideia de que nada compreenderíamos  do que é o jornalismo se não estudássemos as suas fontes e não rompêssemos com uma visão idílica e naïf da sua natureza e dinâmica. Depois da profissionalização e instituição das fontes – uma autêntica revolução para a qual nos vinha alertando o académico luso-brasileiro Manuel Carlos Chaparro – seria preciso atender ao novo quadro que a Internet estava a configurar e que, naqueles anos inaugurais do novo século, começava a balbuciar aquilo que viria a ser conhecido como a web 2.0.

Ora, nas aulas de Fontes, procurávamos estar atentos a isso. Lembro-me vagamente que tínhamos para ler e comentar uns textos do Journal of Computer-Mediated Communication (já então em acesso livre), e que,no quadro do debate que se gerou, a Elisabete chamou a atenção para o significado que poderia vir a ter para a relação entre jornalistas e fontes essa coisa nova que estava aí a nascer e que se chamada weblog. Veio à baila, como exemplo conhecido de alguns de nós o Ponto Media. Eu conhecia também uma forma parecida que há alguns anos o Pedro F.(onseca) vinha desenvolvendo e que viria a dar origem ao seu Contrafactos e argumentos. E, viríamos então a descobrir, a própria Elisabete tinha acabado de lançar o seu próprio blog – o Jornalismo Digital, que ainda hoje resiste. Depois de alguma conversa, a questão surgiu como natural: faz ou não sentido lançarmo-nos, enquanto turma, na criação de um blog próprio, a abrir eventualmente a outros docentes interessados? O assunto transitou para a aula seguinte e a decisão foi pela afirmativa, ainda que o grupo dos que se entusiasmaram com a ideia se tivesse reduzido drasticamente. Além da Elisabete, de mim, da Dora Mota (hoje jornalista no JN) e, creio que o João Carlos Gonçalves (que se interessava por jornalismo escolar), ninguém mais se dispôs a pôr de pé o projeto. Se bem recordo, foi a Elisabete que foi ao blogger.com e criou lá o ‘Jornalismo e Comunicação’, dando-nos, depois, uma sessão de formação. De resto, poucos meses a seguir, vendo as potencialidades dos blogs para o ensino e aprendizagem do jornalismo, criei o ‘Aula de Jornalismo’, tendo a Elisabete voltado a ser a ‘formadora de serviço’ dos docentes que quiseram aderir.

Não posso dizer que não conhecia nada dos blogs, naquela ocasião. Mas tenho de confessar que foi no quadro do debate havido na aula, induzido sobretudo pela Elisabete, que eu me apercebi dos horizontes, alcance e potencialidades do fenómeno. De modo que, em mais de uma ocasião, disse e assumo que este momento foi para mim o primeiro e talvez mais ilustrativo caso de que, em cada vez mais situações, o professor não será tanto aquele que ensina (para os alunos aprenderem), mas o que proporciona o ‘setting’ e as condições para que todos estudem e aprendam. E digo, também, que isto é bonito, mas é mais fácil de dizer do que de fazer (bem feito).

3.

Não estou em condições de analisar o percurso deste blog, o papel que teve, em vários momentos, no acompanhamento crítico da actualidade jornalística e mediática. Outros o poderão vir a fazer com mais distanciamento. O contexto foi-se alterando significativamente, sobretudo à medida que avançava a segunda metade da primeira década do século XXI. Por outro lado, terminou em 2006 um projeto de investigação, o Mediascópio que envolvia boa parte da equipa do J&C e que tinha como objetitvo e método rastrear os acontecimentos da atualidade jornalística e mediática e os seus bastidores como sinalizadores de tendências e de problemas. De forma indireta, isso impelia-nos a recolher, tratar e publicar. Entre 2009 e 2010, a equipa do blog teve de se virar, de alma e coração para a organização de uma conferência mundial de ciências da comunicação e a actualização deste espaço começou a rarear, até que parou. A vida académica alterou-se também muito, num sentido que não facilita esta vertente, o que é certamente deplorável. Ainda assim, quisemos pôr fim ao silêncio e voltar ao espaço público, tirando agora partido da articulação do blog com outras plataformas e com redes sociais como o Facebook e o Twitter.

Em todo o caso, as dificuldades de debater e fazer dos blogs espaços vivos e intervenientes são manifestas. E, no entanto, esse esforço é cada vez mais necessário, em particular no campo jornalístico e mediático, até porque os media profissionais o fazem cada vez menos. Há lugar para um tipo de discurso e de intervenção no espaço público que nem é o discurso erudito dos ensaios ou da investigação nem os quase monossílabos e oráculos dos tweets e posts facebookeanos. Custa pensar e custa escrever. Mas sem pensar e sem partilhar, não vamos lá.

PS – Recordar é …esquecer (também). E reconstruir. Por isso, e como se tratou de um projeto coletivo, são bem-vindas achegas, leituras, interpretações, correções.

Jornalismo: lendo sinais

Dois casos recentes do jornalismo gostaria de aqui evocar hoje. O primeiro foi protagonizado pelo número da revista Time com data de 5 deste mês. A sua capa continha, sobre fundo branco, as fotos tipo passe de 20 pessoas e, em título: “Eu decido: por que os latinos decidirão a escolha do próximo presidente”. Nos dias imediatos à saída do texto, levantou-se na Internet um enorme sururu, não tanto motivado pela relevante matéria tratada no texto, mas por um pormenor da capa. Alguém reconhecera num dos alegados ‘latinos’ anónimos, a cara de alguém que não era de origem ‘latina’ (significando nos Estados Unidos da América, regra geral, originário de países da América Latina).


O segundo caso vem no número de Março do jornal “Madeira Livre”, do PSD daquela Região Autónoma. Traz na última página cinco fotos igualmente tipo passe de outros tantos jornalistas e sobre elas este título: “São estes indígenas que também viram contra nós a opinião pública do continente”.
No primeiro caso, jornalistas são autores de um erro, que poderíamos classificar, apesar de tudo, venial, descoberto e ampliado por leitores atentos (e, não raro, mais dados a comentar o secundário e até anedótico do que o essencial); no segundo caso, são jornalistas o bode expiatório de um regime de condicionamento a que nenhum poder se atreve a pôr cobro.

Dois pequenos sinais, duas metáforas de outros tantos problemas que, numa escala maior, afectam esse bem essencial e complexo para as democracias, que é o jornalismo.
Todos sabemos que vive dias muito difíceis e que as dificuldades podem ser a sua sepultura, se ficarmos quedos, ou a sua reinvenção, se agarrarmos a oportunidade que nos é dada. Ora, teve início esta semana, em Coimbra, um ciclo de debates e auscultações sobre o futuro do jornalismo, conduzida sob a animação de um jornalista de referência como é Adelino Gomes, que percorrerá o país até ao próximo Outono, reunindo cidadãos, investigadores, estudantes e … jornalistas. Estes últimos, porém, não foram muito notados nas duas sessões que já decorreram. Qualquer mudança não se poderá fazer sem os jornalistas. Mas para isso, é naturalmente preciso que eles a queiram fazer. O jornalismo lê sinais e interpreta a actualidade. Há que ler também os sinais do jornalismo.

(Texto publicado na edição de hoje do jornal Página 1, da Renascença)

Complemento:

  • Sobre a capa da Time, ver uma leitura que segue uma direção distinta e mais aprofundada da que aqui faço, neste artigo de Eugênio Bucci, intitulado “Imagens invisíveis“.
  • Sobre o caso do “Madeira livre” (!), o Sindicato dos Jornalistas emitiu um comunicado em 1 deste mês, no qual denuncia “uma tentativa de condicionamento da liberdade dos jornalistas” que ” pode constituir uma instigação, nomeadamente para os militantes e simpatizante do PSD-Madeira, à perseguição dos jornalistas visados, ou pelo menos uma indicação implícita a atitudes incorrectas para com os visados”.

Forum sobre o futuro do jornalismo abre hoje em Coimbra

A ESEC TV está a transmitir em directo, via web, o primeiro forum intitulado “O futuro do jornalismo”, que vai ‘rodar’ também, nas próximas semanas, pela Covilhã, Braga, Porto, Portalegre, Lisboa e Faro.
O debate de hoje, que decorre no auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra, pode ser seguido AQUI.
Uma apresentação do enquadramento e objectivos deste Forum pode ser consultada numa entrevista dada à ESEC TV pelo jornalista e doutor Adelino Gomes.

Público: uma agenda para depois da festa

O PÚBLICO faz hoje anos e é de justiça saudá-lo e quem o inventou e lançou e o tornou uma referência (que já foi mais do que hoje é) no jornalismo português. Não é ainda  o momento de fazer uma apreciação das mudanças agora introduzidas. Afinal, a edição de hoje é a de um dia especial.
Muitas perguntas terão certamente os leitores do Público (o seu público, efectivo e potencial), que gostariam de ver respondidas e tratadas pelo Público. Sobre a sociedade e também sobre o próprio jornal. Mas para isso era preciso que o Público estivesse interessado em perguntar e escutar. Não num dia especial; não a uma ou outra figura de proa. Mas aos cidadãos, aos leitores, mesmo aos que (ainda) não lêem o Público. A lista das perguntas de José Gil, que por falta de tempo, por falta de dados, por obstrução ao trabalho dos jornalistas, por opacidade de quem devia tornar mais transparente a vida pública, não puderam ter resposta na edição de hoje, pô-las o Publico nas suas páginas. Não certamente para as enterrar no esquecimento. Recordo-as abaixo, como que em desafio para que a Redacção possa continuar a investigar, a procurar, a escutar. Mas há muitas mais . Cada um de nós teria umas boas dezena delas. E apresentá-las-ia, contanto que o Público as acolhesse e fizesse delas desafio para o trabalho quotidiano. Haveria, sem dúvida, muita gente disposta a colaborar. Se…


[AINDA] Sem resposta:


  • Quantas horas os responsáveis estimam necessárias para os professores prepararem as lições? Quais as competências fundamentais que a escola ignora quando avalia os alunos?
  • Quanto é que os alunos realmente aprendem das matérias que lhes são ensinadas?
  • Que consciência têm os responsáveis pelas políticas educativas da especificidade da profissão de docente?
  • Quantos alunos desistem do ensino superior por razões económicas?
  • Que peso tem a relação aluno-professor na definição das políticas educativas?
  • Quantos deputados usaram informação secreta em benefício próprio?
  • Quantos portugueses se sentem representados pelos deputados?
  • Quantos documentos estão em segredo de Estado? E que documentos?
  • Quantos detentores de cargos públicos tentaram manipular jornalistas na democracia?
  • Quantos detentores de cargos públicos foram acusados de assédio sexual?
  • Quantos políticos têm negócios em ofshores?
  • Quantos ministros foram ocupar cargos de chefia em grandes empresas depois de abandonarem o governo?
  • Quantos crimes não chegam a ser denunciados porque as vítimas não acreditam na Justiça ou têm medo dos agressores?
  • Quantos portugueses não têm medo: da autoridade? Do Estado? Dos políticos? De perder o emprego? De arriscar? De assumir responsabilidades?
  • Quantos portugueses não vão emigrar em 2012 por não terem coragem para o fazer?
  • Qual a percentagem de portugueses que subornaria alguém?
  • Quanto custa em média ao Estado um julgamento de um pequeno delito?
  • Quantos políticos condenáveis por tráfico de influências, corrupção e peculato foram realmente investigados? Quantos foram condenados?
  • Quantas mulheres foram sexualmente abusadas ao longo da vida?
  • Quantos condenados pelo crime de pedofilia cumpriram a pena a que foram condenados até ao fim? Qual a percentagem dos últimos relativamente aos pedófilos portugueses?
  • Quantas pessoas vão morrer até ao fim deste ano por não terem acesso aos tratamentos adequados?
  • Quantos portugueses morrem por não serem atendidos a tempo?
  • Quantas pessoas morrem por ano devido a erros de prescrição médica?
  • Até que ponto em Portugal as taxas de mortalidade variam em função das diferenças sociais?
  • Quantas pessoas vivem mal por ignorarem que o seu problema é do foro psiquiátrico?
  • Quantos portugueses tomam antidepressivos e ansiolíticos? Quantos os tomam sem necessidade?
  • Quantas mortes por suicídio se devem a depressão?
  • As doenças psíquicas que hoje atingem mais os portugueses são diferentes das doenças psíquicas mais comuns antes de 2004?
  • Em que medida o conhecimento da História de Portugal desde o 25 de Abril contribuiu para o seu sentimento de ser português?
  • Quantas pessoas escondem a sua homossexualidade?
  • Em que medida a política do seu país lhe dá mais orgulho em ser português?
  • Sente-se mais, menos ou tão português agora do que antes da entrada de Portugal na Comunidade Europeia?
  • Gosta mais de si por ser português?

“O mundo dos media depois dos casos Wikileaks e News of the World”

A atualidade do tema é evidente: que lições devem os media tirar do que se passou com o desvendamento de toneladas de documentos classificados de distintos governos pelo Wikileaks e pela divulgação dos esquemas de corrupção e minagem da sociedade democrática que levaram à queda do jornal britânico News of the World?

O assunto vai ser objeto de uma conferência internacional a ter lugar amanhã e depois na sede da UNESCO, em Paris, e pode ser acompanhada em direto pela Internet.

A conferência é organizada pelo World Press Freedom Committee (WPFC), em cooperação com o Sector da Comunicação e Informação da UNESCO e reúne, segundo a informação divulgada, “destacados representantes de meios de comunicação, jornalistas ‘cidadãos’ e profissionais, bem como juristas especializados em media”. O objetivo é “intercambiar opiniões sobre estas questões e discutir as boas práticas no jornalismo profissional tradicional e no jornalismo cidadão na era digital.

Estarão sobre a mesa dos debates temas como a liberdade de expresssão, de informação, a segurança nacional, a privacidade e a ética.Cerca de três dezenas de conferencistas e centena e meia de participantes de diferentes países (não nos pareceu haver participantes portugueses na lista de inscritos) procurarão responder às perguntas seguintes:

  • Como podem os jornalistas enfrentar a explosão maciça de dados em primera mão disponíveis na Internet?
  • Deveriam ser reequacionados o papel do jornalista e os seus padrões éticos e profissionais?
  • Como equacionar a relação entre “jornalismo cidadão” e o profissionalismo jornalístico tradicional?
  • Quais são os desafios para as leis nacionais e internacionais relacionadas com a privacidade, a segurança nacional, a ordem pública e a liberdade na Internet?
  • Qual o futuro das relações entre governos e meios de comunicação?

Para seguir a conferência via Internet: AQUI
Para consultar o horário e o programa: AQUI

(Créditos da imagem: News of the World/The New York Times)

Disto e daquilo – recursos disponíveis

“Nem tudo o que vem à rede é peixe”. Daí que a “curadoria da informação” se tenha vindo a tornar uma atividade com o seu lugar próprio e, quem sabe, no futuro, uma profissão ou quase-profissão. Um jornalista é, deve ser, em certo sentido isso mesmo, com o sentido apurado de prestação de um serviço público.
As dicas que se seguem foram selecionadas de entre muita da quinquilharia que vai passando pelos ecrãs; possam elas ser motivo de interesse, descoberta ou utilidade para um só leitor que seja deste blog e já mereciam aqui ser deixadas.

O resultado de um projeto que disponibiliza ao público, e em particular aos profissionais e às escolas, livre acesso a vídeos, imagens fixas, textos, áudio de operadores europeus e de arquivos audiovisuais, desde o início do século XX até aos nossos dias. Um precioso recurso para apoio a aulas de história dos media audiovisuais e de análise de géneros televisivos, por exemplo.

É uma revista nova sobre ecologia dos media e sobre as marcas (internacionais) do pensamento de McLuhan e daquilo que se convencionou chamar a ‘escola de Toronto’. Mas é bem mais do que uma revista, como rapidamente conclui quem acede ao site.

Este pode considerar-se um portal especializado de apoio aos investigadores sobre a obra e o impacto de Deleuze, sobretudo na relação com o cinema. Pretende ser igualmente uma base de dados em permanente atualização e um serviço a todos os que se interessam pelo autor, pelo cinema, televisão, jogos de computador e outras modalidades de novos media.

Publicado pelo ITU – International Telecommunications Union, compila os grandes indicadores estatísticos sobre o uso da Internet, assinaturas para a rede fixa e móvel, dados sobre a largura de banda no plano internacional, etc. Os interessados poderão aceder também a idêntico relatório de 2010 e 2009.

Os media e o debate público sobre a revisão curricular

Quando se reforma aquilo que as crianças e adolescentes estudam na escola, isso deveria fazer soar as campaínhas nas redações. É um assunto que afeta dezenas ou centenas de milhares de portugueses e, em boa verdade, não é assunto de somenos.  Contudo, a avaliar por aquilo que tem vindo a público, desde que, no final de 2011, o ministro Nuno Crato colocou em discussão pública uma proposta de revisão curricular para os ensinos básico e secundário, o que os media fizeram foi, globalmente, insignificante. O prazo termina hoje.

A performance do jornalismo e dos media nesta matéria deixa, pois, a desejar. E, no entanto … a matéria merecia mais atenção. Desde logo porque o Governo quer dar realce a conhecimentos e disciplinas “fundamentais”, mas com uma noção daquilo que é fundamental que pode constituir em termos de futuro um retrocesso e um desastre educativo e cultural. Ninguém de bom senso recusará que a aprendizagem das línguas, da matemática, das ciências ou da história seja fundamental. E porque não hão-de ser fundamentais as artes? Dito de outro modo: quem garante que não se amputa gravemente a formação básica dos portugueses desinvestindo nas expressões artísticas e na formação do gosto? E por que carga de água dessas dimensões hão-de ficar excluídos os filhos dos segmentos mais pobres da população?

Outro exemplo: ao dar-se uma machadada na formação cívica e/ou na educação para a cidadania (já denunciada tanto pelo Provedor de Justiça como pelo Conselho Nacional de Educação e pelas Associações de Pais), não se estará a comprometer gravemente a formação básica dos cidadãos, contrariando, de resto, o que preconiza a lei de Bases do Sistema Educativo? Será esta uma matéria secundária? Não mereceria estar não digo acima, mas ao mesmo nível das restantes matérias? Se os outros países estão a valorizar componentes da formação dos alunos que sublinham não apenas os conteúdos, mas os processos de aprendizagem e os contextos de participação das crianças e adolescentes, será Portugal algum caso raro para adotar um caminho solitário e porventura sem saída? Se a Comissão Europeia tem vindo a incentivar a inclusão de componentes que ajudem os alunos a a abordar critica e criteriosamente o “tsunami” informativo com que hoje se deparam – nos planos da pesquisa, avaliação, validação, tratamento e utilização dessa mesma informação, não considerará o Governo que esta é, nos tempos que correm, uma dimensão essencial e que provavelmente para a maioria, nenhuma outra instituição está capaz de a tratar como a escola? E ajudar a compreender o mundo atual, e o modo como os media o tratam, representam e difundem? Não será crucial essa literacia para os media, na formação básica dos cidadãos?

Pela leitura das propostas ministeriais, não é.  Pelo modo como correu o debate público, também não é. Pela passividade e desinteresse dos media, é-o ainda menos.

Não me venham dizer que é por causa da crise. Por este tipo de situações e de desafios também passa a resposta que podemos dar à crise. E respostas originais. Ou não?

“Um dia com os media”- operação nacional é apresentada hoje em Braga

É hoje apresentada publicamente, na Universidade do Minho, em Braga, a jornadaUM DIA COM OS MEDIA”, uma iniciativa de âmbito nacional que visa colocar os próprios media e a relação dos cidadãos com eles no centro das atenções, suscitando iniciativas orientadas para a reflexão e a ação.

Terá lugar no dia 3 de Maio, data em que, por iniciativa da ONU, se evoca a liberdade de Imprensa e de expressão. Num tempo em que, as tecnologias e plataformas digitais, permitem, como nunca, que os cidadãos se exprimam no espaço público, faz sentido que o olhar crítico e participativo relativamente aos media seja, ele próprio, um exercício de liberdade, num espírito positivo de contribuir para a melhoria dos media que temos.

O convite à participação autónoma e livre é dirigida a todos os que se sentirem interessados e motivados pela pergunta: “que significado têm os media na nossa vida e como poderiam tornar-se mais significativos?

O desafio é lançado a todo o tipo de instituições: bibliotecas, escolas, meios de comunicação, grupos de alunos, centros de investigação e formação, associações, universidades de seniores, movimentos, igrejas, autarquias, entre outros.

Relativamente aos meios de comunicação, há  pelo menos três vertentes de participação: o trabalho normal de informação sobre a iniciativa, da forma entendida mais conveniente; a organização de iniciativas próprias que fomentem o contacto com os seus públicos, tendo como motivo os meios de comunicação; e, finalmente, a colaboração com iniciativas de outras instituições, quando para tal solicitados.

No conceito de meios de comunicação incluem-se, naturalmente os suportes clássicos – livros, jornais, revistas, rádio, televisão, cinema –  mas igualmente os novos media, redes, plataformas e ambientes digitais – redes sociais, blogs, telemóveis, jogos. Todos configuram um ecossistema mediático que ganha em ser abordado também como um todo. A ideia não é focalizar apenas as tecnologias e os gadgets mas também os conteúdos, as orientações, as profissões, as políticas, os usos e as mudanças, bem como a relação com os quotidianos, os dramas e os sonhos das pessoas e das instituições.

As iniciativas devem partir ‘da base’. E, desejavelmente, deveriam inscrever-se, o mais possível, nas rotinas e objetivos de quem as toma. Haverá um site (www.literaciamediatica.pt/umdiacomosmedia) onde será possível registar e divulgar as iniciativas e conhecer o que outros estão a organizar, bem como um endereço de e-mail para contacto com os organizadores (umdiacomosmedia[arroba]gmail.com).

A iniciativa cabe a cinco instituições que têm vindo a trabalhar, de modo informal conjuntamente: Comissão Nacional da UNESCO; Conselho Nacional de Educação; Entidade Reguladora para a Comunicação Social; Gabinete para os Meios de Comunicação Social; Universidade do Minho/Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade

Desafio de Hermínio Martins aos cientistas sociais

A revista “Análise Social“, pioneira nas Ciências Sociais em Portugal, acaba de atingir o número 200, caminhando a passos largos para o meio século de vida. E recheia a edição com uma série de entrevistas de ‘pioneiros’ portugueses na área.  Li a entrevista que Helena Mateus Jerónimo faz ao pensador Hermínio Martins, apresentado como “uma das figuras académicas que mais se destacam no processo de formação do universo sociológico português e é autor de algumas incursões histórico-sociológicas inaugurais sobre essa terra incognita que foi (ou ainda é?) Portugal para o mundo académico internacional“.

Como motivação para a leitura desse texto inspirador, deixo aqui um excerto que julgo mais que pertinente também para as Ciências da Comunicação, particularmente numa altura em que começamos igualmente a incorrer no “frenesi do articulismo”, por aquele autor denunciados, e na falta de trabalhos de síntese  e revisão crítica de literatura. A pergunta que llhe é colocada pela entrevistadora é esta: “Na sua opinião, quais são as linhas de força teóricas e empíricas que emergiram nas ciências sociais portuguesas nos últimos 20 anos?”.  A (extensa) resposta começa assim:

“Para responder adequadamente a esta pergunta, teria de passar um ano e tal completamente dedicado a ler a produção abundante das ciências sociais em Portugal nos últimos 20 anos que refere. O que não vai acontecer, e duvido que alguém o possa fazer. Aliás, um dos problemas que se colocam para responder cabalmente a perguntas deste tipo, mesmo só com respeito a uma única das grandes ciências sociais, como por exemplo a sociologia, ou domínios mais específicos, como a sociologia urbana ou a sociologia da religião, por exemplo, é a falta de survey articles regulares e frequentes que apresentem e discutam o movimento das publicações e ideias em, digamos, quinquénios sucessivos. Idealmente, estes textos deveriam ser acompanhados por breves comentários dos autores referidos, quando eles o considerassem necessário, ou dos autores que se considerem injustamente omitidos. Assim, as suas versões iniciais deveriam ser previamente distribuídas pela comunidade científica visada para uma ampla discussão, dado que a parcialidade, a selectividade injustificada, e a simples ignorância podem viciar estes estudos. Um estrangeiro que leia português e queira ficar rapidamente a par do que se tem escrito nos últimos anos em Portugal numa dada área das ciências sociais, não pode desfrutar de muita ajuda de fontes escritas que façam um levantamento da área, porque esta modalidade de trabalho é muito insuficiente. Trata-se de um sintoma de anomia no sistema científico português, no sentido de Durkheim, quando analisou a divisão do trabalho social patológica, com a falta de comunicação, intercâmbio e de recuperação de trabalhos coevos ou recentes. Na correria de produção incessante de artigos, cada vez mais curtos, específicos e limitados  —  a que poderíamos chamar de “frenesi do articulismo” —, exacerbada pelas condições existenciais do trabalho científico hoje, aquele tipo de trabalho não se torna muito apelativo. Rouba muito tempo, exige muita dedicação, e representa, quando feito sem espírito de partido e sem ser um instrumento de luta na política académica, para “arrumar” os inimigos (o que acontece), representa uma espécie de altruísmo científico quase completamente desvalorizado e quiçá mesmo prejudicial para o autor […]”.

Para ler a entrevista na íntegra: AQUI.

“Sobre Jornalismo” – nova revista científica internacional

Logo SLJ

Vai nascer neste primeiro trimestre de 2012, em três idiomas: português, francês e inglês. Intitula-se (em português) “Sobre Jornalismo“, terá uma versão impressa sendo também difundida pela Internet em acesso livre e  os seus artigos serão submetidos à avaliação de pares. O conselho científico desta nova publicação é constituído por académicos e investigadores franceses, brasileiros, canadianos, espanhois e o (único) português, João Canavilhas.

Tem por objetivo a “publicação de trabalhos inovadores, de olhares transdisciplinares e de pesquisas produzidas por estudantes de pós-graduação. (…) será constituída de dossiês temáticos em torno de problematizações precisas, com o objetivo de difundir resultados originais do ponto de vista teórico e/ou metodológico. Resultados de pesquisas de mestrado, relatórios de estudos científicos, notas de campo e de corpus também encontram espaço de difusão na revista”.

Neste momento, encontra-se aberta a chamada de artigos para dois números: “As fontes e os fluxos de noticias” e “As novas formas da imagem sobre atualidade“. Os interessados em apresentar propostas deverão manifestar esse interesse até ao próximo dia 15, domingo. Os textos completos (entre 30 mil e 50 mil caracteres) deverão ser enviados até 15 de Maio.

Mais  informações:http://www.surlejournalisme.com/

Informação e ‘marketing’

“(…) A peça sobre a nova grelha d[o Jornal das 8 d]a TVI 24, apresentada domingo à noite na TVI, era tudo menos jornalismo. Era marketing, com direito a musiquinha e tudo e as frases panfletárias que todos os jornalistas receberam no dossier de imprensa que a estação enviou para as redações. E era tão fácil (e legítimo) ter feito bem…”

Nuno Azinheira, Informação  e ‘marketing‘, DN, 10.1.2012

Obras apoiadas em 2011 para publicação

Lista das obras apoiadas para publicação, em 2011, no quadro da medida “Incentivo à Investigação e à Edição de Obras sobre Comunicação Social”, do Gabinete para os Meios de Comunicação Social:

  • A Ética das Relações Públicas, Gisela Marques Pereira Gonçalves;
  • Marketing de Televisão, Rádio e Audiovisual, Paulo Faustino.
  • Ciberjornalismo, modelos de negócio e redes sociais, Helder Bastos e Fernando Zamith (orgs.);
  • A Imprensa Portuguesa (1974 2010), João Figueira;
  • Esmiuçando os sufrágios eleitorais os media e as eleições europeias, legislativas e autárquicas de 2009, Rita Figueiras (coord.);
  • Os dias dos Media – uma análise de estruturas organizativas, Rogério Santos (coord.);
  • Pluralismo dos Media, Indicadores de Mercado e Grupos Empresarias em Portugal e na Europa, Paulo Faustino (coord.);
  • Cultura e Jornalismo Cultural, Dora Santos Silva;
  • Políticas Públicas, Estado e Media, Paulo Faustino e Francisco Rui Cádima;
  • A imagem técnica e as suas crenças – a confiança visual na era digital, Vitor Flores;
  • Apogeu, morte e ressurreição da política nos jornais portugueses do Século XIX ao Marcelismo, Carla Baptista;
  • Crianças e Media em tempos de mudança pesquisa internacional e contexto português, do século XIX à actualidade, Maria Cristina Mendes da Ponte;
  • República, Desporto e Imprensa, Francisco Pinheiro;
  • Jornalismo e direitos da criança – conflitos e oportunidades em Portugal e no Brasil, Lídia Marôpo;
  • Da imprensa regional da Igreja Católica – para uma análise sociológica, Alexandre Manuel;
  • Media e Poder – o poder mediático e a erosão da democracia representativa, João de Almeida Santos.

Como íamos dizendo …

Há muito tempo – demasiado – que outros compromissos nos desviaram deste espaço.
E, no entanto, a realidade da informação, do jornalismo e dos media não parou. Felizmente que outros, como o Ponto Media, puderam continuar a publicar.
Outras vozes, como o Vai e Vem, surgiram, entretanto, e ganharam lugar de destaque na chamada de atenção e no comentário.
Enquanto isto, os media clássicos têm vindo a perder o pé, na atenção ao seu próprio campo, com a secundarização ou desaparecimento das secções e programas sobre media.
Até por isso, mas por muito mais do que isso, era importante voltarmos.
Diremos que a ecologia dos media, hoje, exige, cada vez mais, que se cuide dela.
A curadoria da informação e dos media aí está como um dos grandes desafios dos tempos que vivemos.
Rastreando o que se passa com:
os novos media;
as plataformas e redes sociais;
a proliferação de conteúdos e de formatos;
a procura de um lugar ao sol para o jornalismo online;
a digitalização da distribuição da TV;
a ética jornalística e da participação dos cidadãos;
a regulação e a auto-regulação;
a formação dos novos profissionais;
a análise da tecnologia e a crítica da razão tecnológica;
os poderes e estratégias dos actores e dos poderes;
a formação para uma literacia crítica sobre os media e uma educação para a comunicação
– eis alguns dos terrenos a que nos propomos prestar atenção.

Mediascópio é um conceito e uma ‘marca’: faremos deste espaço uma instância de atenção aos acontecimentos, situações e problemas, aos seus significados e contextos, procurando não esquecer (e convocar, sempre que possível) a investigação científica e os links com o contexto internacional.
E porque nos importa a conversa e o debate, gostaríamos de trabalhar de portas abertas a todos os que se interessam por estas coisas e partilham da convicção de que estas coisas são alicerces em que se funda e se refaz a vida pública.
Em tempos de grandes abalos e questionamentos sobre o modo como organizamos as nossas sociedades e configuramos os nossos modos de viver, importa não esquecer quer as realidades silenciadas quer os processos de silenciamento.
Mais do que um programa isto é a enunciação de preocupações que temos, enquanto académicos e enquanto concidadãos.

Conhecidos os Prémios Gazeta 2009

O Júri dos Prémios Gazeta decidiu atribuir o Grande Prémio Gazeta 2009 a Miguel Carvalho, da revista Visão e o troféu Gazeta de Mérito a João Paulo Guerra. POr sua vez, a Direcção do Clube de Jornalistas deliberou atribuir ao quinzenário Repórter do Marão o Prémio da Imprensa Regional.

O prémio atribuído a Miguel Carvalho ficou a dever-se ao seu trabalho “Os segredos do Barro Branco”, centrado em Joaquim Ferreira Torres, controversa figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em Agosto de 1979.
“Com base numa investigação em que aos testemunhos actuais de pessoas que de algum modo estiveram ligadas a Joaquim Ferreira Torres se junta um aprofundado trabalho de recuperação de variada documentação, parte da qual inédita ou pouco explorada, Miguel Carvalho traça o perfil, o percurso, os relacionamentos e os contextos que acabaram por conduzir o protagonista ao trágico desenlace final. Numa linguagem concisa e num estilo fluido, Miguel Carvalho devolve-nos, reconstrói e enriquece a memória de um passado demasiado recente para poder ser esquecido ou ignorado, o que reveste “Os segredos do Barro Branco” de uma inegável actualidade.
O troféu Gazeta de Mérito foi atribuído pelo Júri a João Paulo Guerra pelo seu longo, diversificado e prestigioso percurso profissional de quase meio século de actividade na rádio, na imprensa e na televisão. Actividade essa à qual – na reportagem, na análise, na entrevista, na crónica – sempre imprimiu um cunho muito pessoal, feito de rigor, seriedade, competência e também, sempre que as circunstâncias o propiciam, de um fino humor. Iniciou a sua carreira na Rádio Renascença, em 1962, tendo trabalhado depois, a diversos níveis de responsabilidade e envolvimento, no Rádio Clube Português, TSF, Antena 1 (onde desde há alguns anos mantém a sua Revista de Imprensa), Diário de Lisboa, A Capital, O Jornal, O Diário, Público, Expresso, Diário Económico e SIC.
A Direcção do Clube de Jornalistas deliberou atribuir ao quinzenário Repórter do Marão o Prémio da Imprensa Regional, pela qualidade global do seu projecto jornalístico, que inclui presença no online. Sediado em Marco de Canaveses, o seu âmbito informativo ultrapassa largamente o nível local e alarga-se praticamente a todo o norte do país, desde o litoral ao interior transmontano. Publicado ininterruptamente desde há 26 anos, actualmente em formato de revista a cores, o Repórter do Marão, propriedade da Tâmegapress, apresenta um cuidado aspecto gráfico, possui uma dezena de redactores e colaboradores e mais de três dezenas de colunistas, constituindo um bom exemplo da renovação e revalorização da nossa imprensa local e regional, cuja necessidade se afigura cada vez mais urgente nestes tempos chamados de globalização”.

O Júri decidiu não atribuir o Prémio Gazeta Revelação por não ter encontrado trabalhos com a qualidade requerida para tal distinção.

(Informação do Clube de Jornalistas)

Internet: um crescimento impressionante

Em menos de 15 anos, a Internet passou de 16 milhões para 1.800 milhões de utilizadores… e, no entanto, ainda é um recurso acessível apenas para uma minoria (26,6% da população mundial). Só nos últimos dez anos, juntaram-se ao bolo dos utilizadores à roda de mil milhões:

(Fonte: Internet World Stats)