A entrevista televisiva: mais pode ser… menos?

Nos últimos anos, vem-se generalizando no jornalismo televisivo a entrega das entrevistas a grandes figuras do Estado, ou os grandes debates eleitorais, não apenas a um jornalista mas, muitas vezes, a dois ou mais.  Está ainda por demonstrar a vantagem, para o campo jornalístico e para o sucesso da sua produção discursiva mediadora, desta alteração do formato.

A leitura imediata é aparentemente favorável a esta situação: havendo mais jornalistas com possibilidade de fazer perguntas, há um alargamento do campo de possibilidades. No terreno das práticas, os jornalistas podem preparar melhor as questões, definindo e dividindo entre si os papeis que desempenharão, nomeadamente, na atribuição e desenvolvimento de questões relativas a áreas temáticas de generalidade ou de especialidade. Por outro lado, tratando-se da ocupação de um plateau televisivo, a presença de vários jornalistas pode indiciar uma vantagem semiótica de quem detém a função-pergunta, que é também quem detém a função mais geral de mediação e de representação do público. Mais representação e mais diversidade podem ser uma vantagem imediata. Será assim?

Julgo existirem algumas questões que, dentro de uma definição dinâmica do género entrevista, esta evolução do seu formato televisivo, nos coloca. Um dos problemas práticos, inerentes à sua própria execução em tempo real, das entrevistas conduzidas por mais do que um jornalista, é que nem sempre são fáceis de coordenar. A pré-coordenação, que comporta vantagens imediatas evidentes, já elencadas acima, pode esboroar-se nos próprios constrangimentos instantâneos do formato que colocam, directamente, em confronto, o estabelecimento do diálogo com o entrevistado com o limite temporal do formato.

Existem também, por um lado, o entrevistado e as dificuldades próprias que ele coloca (José Sócrates, por exemplo, era visto pelos jornalistas como “um animal político” por excelência, tornando-se cada entrevista televisiva em directo com o antigo Primeiro-Ministro um exercício que colocava, desde logo, os jornalistas, perante os seus mais íntimos receios de exposição de fragilidades próprias – em resumo, uma entrevista com alguém como Sócrates, era invariavelmente um exercício auto-intimidatório desde a fase de preparação) e, por outro, a própria necessidade de intercoordenação das questões e do seu sequenciamento temporal, dificultando o aprofundamento de qualquer estratégia dialógica, ou seja, a própria partilha do plateau com outro(s) jornalista(s) e a necessidade de respeitar as perguntas por ele(s) preparadas, tornam-se, muitas vezes, constrangimentos não totalmente previstos.
Assim, ao contrário do que possa parecer no imediato, o facto de uma entrevista de televisão ser conduzida por mais do que um jornalista não significará que haja uma vantagem final do lado jornalístico. Poder-se-á até especular e discutir a possibilidade de que a evolução do formato possa estar a gerar uma vantagem do lado dos entrevistados, porque lhes acabam por ser fornecidas, pela gestão do processo em tempo real, zonas de sombra, espaços maiores do que os inicialmente aparentes, para dominar a produção do discurso, transformando essas zonas de sombra em zonas de conforto, sabendo que dificilmente o formato os fará sair delas.

Um dos maiores problemas que se colocam ao campo jornalístico é que o grau de preparação técnica que uma entrevista, hoje, exige, nomeadamente no conhecimento dos intrincados assuntos da actualidade económica e financeira, restringe o campo de possibilidades dos jornalistas. Essa exigência é potencialmente geradora de um muito maior receio de errar, porque, desde logo, os meandros técnicos das questões permitem múltiplas linhas-de-fuga, ou seja, a própria especificidade temática constrói, também, para o entrevistado, zonas intersticiais, zonas de sombra.
Repare-se como, por exemplo, é em momentos posteriores de análise e opinião, que os jornalistas-especialistas que, muitas vezes, já se encontraram no papel de entrevistadores, se revelam particularmente cáusticos. Vimo-lo ontem, nas televisões, nos debates que se seguiram à entrevista de Pedro Passos Coelho à RTP.

Em tudo isto, há um outro problema de base: a entrevista televisiva, além de se inserir num género jornalístico amplo é, em si mesma, um formato próprio dentro desse género. Além do constrangimento do tempo, que não existe na entrevista para o jornal, por exemplo, a sua semiótica é muito mais complexa. Há jogos semióticos cruzados, produção de significações paralelas e variadas, que nem sempre têm relação directa com o discurso propriamente linguístico que está a ser produzido. A entrevista televisiva torna-se, assim, outra coisa. É um texto feito de múltiplos textos. Por isso, ontem e hoje, é possível lermos e escutarmos tanto sobre o conteúdo como sobre a forma. Diria mesmo que, em televisão, essa forma se torna, tantas vezes, mais decisiva do que o próprio conteúdo.

Leia-se, por exemplo, o modo como começa a análise da Estrela Serrano à entrevista.

Palavras para quê. Palavras, para quê?

Um salto aqui, outro ali. A blogosfera portuguesa da comunicação dedica-se esta terça-feira à palavra jornalística. Ao que ela faz ao texto e ao texto que já existe nela.

O debate é-nos proposto por José Vítor Malheiros, nas páginas do jornal Público (reproduzido igualmente no blogue Versaletes), precisamente num dia em que, novamente, o jornalismo português se há-de fazer de muita dessa palavra jornalística cujo parto no seio do texto se fará na ausência da crítica. Põe-nos, pois, José Vítor Malheiros a pensar até que ponto será neutra a palavra que o jornalismo julga neutra e, por isso mesmo, usa como se fosse, de facto, neutra. Não se aperceberá o jornalismo (cujo acto fundamental deveria ser o acto reflexivo, isto é, o acto que se espelha a si mesmo para se poder objectivar antes de se produzir como objecto no visível) de que está a veicular o discurso do poder, a deitar-se no tear das diversas formas de dominação? Escreve Malheiros, a este propósito, num artigo que merece ser lido na íntegra por todos os que fazem ou querem vir a fazer vida do jornalismo:

“Uma grande parte da política passa por criar e tentar impor na arena social, na imprensa, no debate político, determinadas visões do mundo – determinadas narrativas – como bem sabem os mestres da propaganda. Mas essas narrativas são construídas por palavras e, quando determinados termos se impõem, há narrativas que se organizam quase naturalmente à sua volta.

Tomemos a “ajuda”. “Ajuda” é uma coisa boa. Todos gostamos de ajudar, todos gostamos de ser ajudados. Não é fácil criar uma narrativa onde o mau da fita é alguém que “ajuda”. Quem ajuda é, forçosamente, nosso amigo.

E como apareceu a expressão “ajuda financeira”? De facto, aquilo que designamos por “ajuda financeira” é, simplesmente, um empréstimo. E empréstimo é não só uma expressão mais correcta como mais neutra. Sabemos isso porque há empréstimos que nos aliviam e outros que nos entalam. É possível criar narrativas diferentes à volta da expressão “empréstimo”. Posso dizer “aquele empréstimo permitiu-lhe salvar a empresa” ou “o que o levou à falência foi aquele empréstimo”. Posso dizer que o “empréstimo negociado com a troika tem um juro usurário”, mas já não o posso dizer se lhe chamar “ajuda”. As palavras não deixam.

Um “resgate” também é uma coisa boa. Salva-nos. Não é possível dizer nada mau de quem nos resgata. E haverá coisa melhor que um “programa de assistência económica e financeira”? E será possível ser contra o rigor e a disciplina? Ou contra a “racionalização das empresas públicas de transportes”? E será que um “ajustamento estrutural” pode fazer outra coisa que não seja dar-nos mais solidez? Quem é que pode não gostar que as estruturas estejam ajustadas?”

 

Também Paulo Querido, no seu blogue Certamente! reflecte o assunto a partir de José Vítor Malheiros, revertendo, contudo, os termos da análise: aqui é já o texto produzido por um jornalismo que não percebe a partir de que texto se constrói, que emerge como problemático, elaborando, no fundo, um discurso afunilado que reproduz um espaço público de espectro reduzido:

“Ao longo das últimas três décadas assisti à erosão da preocupação com o léxico na comunicação social portuguesa, substituída gradualmente pela imposição de uma narrativa upper-class que só muito parcialmente assenta no crescimento das classes médias na maior parte desse período.

Perante o descomunal peso dessa construção no espaço mediático, diminuindo o espaço teoricamente disponível para outras narrativas menos alinhadas com o rumo preferido pelas classes poderosas, às vezes penso até que ponto está a narrativa upper-class justificada, ou se a justificação, sendo frouxa, não passa antes de um pretexto. Entretanto tornado regra entre os jornalistas e comentadores incumbentes por força da repetição.”

Leituras recomendadas, pois, num dia em que se hão-de ler números com palavras, sendo que, como o jornalismo deveria saber, nem o número, nem a palavra… são neutros. 

O que se perde no espaço público quando desaparece a edição impressa de um jornal

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Mal souberam da decisão do grupo Mediapubli de acabar com a edição em papel do diário espanhol Público, os trabalhadores do jornal consideraram que nem sequer fazia sentido levá-lo às bancas, editando mais dois números, até domingo. Assim, ao contrário do que previa o comunicado da Mediapubli, o periódico teve esta sexta-feira a sua derradeira capa.

O Público espanhol nasceu em 2007, tanto em papel como na internet, assumindo-se desde logo como defensor do “espaço público, do interesse público, do domínio público, da coisa pública, do investimento público, da saúde pública, da educação pública e do debate público” (ver aqui entrevista com os mentores do projecto). Um posicionamento político que nunca deixou dúvidas, e produziu ao longo de quase cinco anos de edições impressas, algumas capas verdadeiramente históricas do jornalismo espanhol, como a de 29 de Setembro de 2011, cujo tema único foi a greve geral no país vizinho. Ficou também famosa a recusa do jornal em fazer determinados tipos de publicidade, nomeadamente os anúncios de sexo que remetiam para possíveis situações de prostituição.

Temáticas e abordagens que, tal como afirmaram há um mês as centenas de signatários de um manifesto de apoio à continuidade do periódico (entre os quais diversas figuras da academia e das artes), colocaram o Público no mapa mediático como voz alternativa “ao discurso único veiculado pelo poder financeiro” e como “fórum de debate para as distintas sensibilidades da esquerda”.

Se é certo que a edição online se irá manter (o site do periódico é o quarto site de informação mais visitado, diariamente, em Espanha, com mais de 5.5 milhões de utilizadores únicos), porque é que, desaparecendo a edição em papel, se percebe uma perda, de facto, para o espaço público?

Temos perseguido em anteriores análises neste blogue, uma matriz que remete para a noção do visível, relacionando-a com um pensamento contemporâneo do espaço público, no qual se cruzam dois elementos conceptuais: o visível como superfície luminosa, e o movimento dos objectos que o percorrem. Utilizando essa matriz, diríamos que o facto de se sentir uma perda no espaço público se relacionará, precisamente, com uma falha no preenchimento do visível. Dir-se-á, em contraponto, que há muito maior visibilidade em 5.5 milhões de visitas diárias online do que nos pouco mais de 80 mil exemplares que circulavam diariamente nas bancas espanholas. Mas será assim, de facto?

Não nos parece que se possa falar do visível sem a noção de partilha, que é uma noção que se relaciona profundamente com o fazer-comunidade. E a partilha não pressupõe apenas uma mera coincidência espácio-temporal das condições de observação do visível, especialmente quando este apenas se compõe de objectos em movimento acelerado, que intensificam, individualizando, a relação com o observador. Falar de uma partilha do visível é descrever a possibilidade de uma estabilidade, tanto dos objectos como dos observadores. É nessa estabilidade, nessa imobilização dos objectos e dos seus observadores, que se radica a qualificação de algumas das capas do Público como históricas. Capas cuja presença e efeitos no visível vão, assim, muito além do número efectivo de exemplares impressos: só pode ser considerado histórico o que é, antes de mais, partilhável no seio de uma comunidade cultural.

Dir-se-á, alguma vez, o mesmo, da página de entrada do site do jornal, quando esta é sempre colocada visível por um dispositivo cinético que se baseia numa lógica de intensificação da visibilização individual, isto é, uma lógica que substitui, a todo o instante, o espectador pelo utilizador? 

Diários de uma câmara oculta (2): a câmara-aparentemente-oculta da TVI

Após o nosso recente “post” sobre o assunto, um novo episódio, a conversa informal captada pela TVI entre os ministros das finanças português e alemão, fez com que a discussão acerca do uso de câmaras ocultas no jornalismo atravessasse a fronteira ibérica: de Espanha viajou para Portugal, passando agora também pela Alemanha. No entanto, tal como se depreende da nossa anterior análise, apesar de toda a complexidade que algumas destas situações introduzem, não deve confundir-se a câmara-propriamente-oculta com a câmara-aparentemente-oculta.

Acerca da primeira, já antes denunciámos os traços que a tornam um instrumento de controlo absoluto, de tipo divino,  do processo de produção do visível, pelo jornalismo, o que implica o escrutínio meticuloso dos critérios que levam ao seu uso, tornando-o, tal como escreve Estrela Serrano no blogue Vai e Vem, um procedimento absolutamente excepcional. É por isso, também, que a interdição decidida pelo Tribunal Constitucional espanhol, significa uma interdição prática, imposta ao próprio jornalismo, de um poder lato de controlo sobre os processos de produção da mensagem jornalística. Ou seja, significa o surgimento de uma restrição normativa à liberdade dos jornalistas, liberdade que, no entanto, só se legitima perante circunstâncias extraordinariamente raras.

Quanto à segunda, não é difícil perceber porque é que, ao analisarmos um processo de ocultação do instrumento de registo usado no procedimento jornalístico, só se deve falar numa câmara-aparentemente-oculta. Há, desde logo, o aspecto prático: não há câmaras ocultas numa sala cheia de câmaras de televisão, e na qual as câmaras de televisão estão autorizadas a trabalhar. O que se oculta, então?

Diríamos que, não havendo câmaras ocultas, o que se pressupõe como não-presença, numa circunstância como esta, é o próprio jornalismo. Na captação de imagens deste tipo de encontros, assume-se um acordo tácito que remete para um híbrido entre o “on-the-record” e o “off-the-record”: às imagens captadas dos momentos prévios a uma reunião que decorrerá à porta fechada, é tacitamente retirado todo o conteúdo jornalístico, ou seja, as imagens serão usadas, mas servirão apenas de ilustração. Assume-se que, no restante, são verdadeiramente silenciosas, ou seja, nada dizem de jornalisticamente relevante. É neste tipo de acordos tácitos, que existem no terreno do não-dito e do não-escrito, que se baseia a captação de imagens destas situações. Pressupõe-se, pois, que tudo o que registam é vazio e está vazio. E é nesse vazio que se situam as conversas supostamente informais que as imagens registaram.

No entanto, e é aí que se ancora o principal argumento usado pela Direcção de Informação da TVI para defender o tratamento e difusão noticiosa da conversa, toda a operação jornalística tem uma natureza pública: visa a produção do visível. Ora, estando os repórteres devidamente identificados e no pleno exercício das suas funções, não se pode assumir uma não-presença do jornalismo: ele pode sempre emergir, a partir do momento em que, detendo o controlo (editorial) do seu processo de produção, encontra  aspectos relevantes, que devam ser noticiados. Estamos, pois, mais uma vez, no domínio do controlo do processo de produção. Trata-se de um raciocínio que se aplica, por exemplo, em circunstâncias como esta, a situações tão simples como os cumprimentos e encontros face-a-face entre responsáveis políticos, como sucedeu, recentemente, com as imagens do primeiro-ministro inglês David Cameron e do presidente francês Nicolas Sarkozy na cimeira europeia de Dezembro, cuja interpretação remeteu para o isolamento da posição britânica no seio dos 27.

Na altura, ninguém se queixou de uma câmara oculta…

Diários de uma câmara oculta: o jornalismo e o (in)visível

O jornalismo televisivo espanhol vive dias agitados. Em causa estão dois episódios recentes que, se bem observados, se podem subsumir ao que poderíamos caracterizar como a complexa e controversa relação do jornalismo com o visível, na qual, bem o sabemos, se jogam dos mais decisivos lances da guerra contemporânea das visibilidades. Ora, sendo a televisão o massivo apogeu do veloz visível de superfície que nos intensifica e confina, sendo ela mesma a luz ofuscante e total que o mundo produz de si mesmo, percebe-se o quão problemática se torna toda a análise que tente compreender o visível a partir da sua formulação pelo ecrã televisivo.

Expliquemo-nos, por partes: na sequência de uma reportagem da Televisão Autonómica da Comunidade Valenciana, realizada há alguns anos, sobre a existência de falsos profissionais na área da saúde, o Tribunal Constitucional espanhol veio agora  considerar ilegítimo o uso de uma câmara oculta pelos repórteres.

(foto de Cristobal Manuel para El Pais)

A decisão, divulgada segunda-feira, é interpretada em Espanha como a provável condenação definitiva do uso de câmara oculta como método de investigação jornalística. Em causa, entre outros aspectos, estava o direito da queixosa, uma esteticista, à reserva de privacidade no interior do seu espaço de trabalho, que os juízes consideraram ter sido posta em causa quer pelo facto de a sua imagem e som terem sido captados, sem o seu consentimento, para posterior difusão, quer porque a repórter dissimulou a sua identidade, fazendo-se passar por paciente.

Poucos dias antes, outro episódio, em Bruxelas: nos momentos que antecederam o último Conselho Europeu, no final de Janeiro, uma câmara de televisão captou, através do microfone ambiente, um desabafo feito pelo primeiro-ministro do governo de Madrid, Mariano Rajoy, aos homólogos finlandês e holandês. Confessava Rajoy, nesse momento de suposta e informal privacidade, que as “reformas laborais (que Rajoy se prepara para apresentar) vão custar-me uma greve geral”. 

O caso irradiou para vários tipos de discussão. Incluindo a dos que acabaram por ver vantagens políticas para o próprio governo de Madrid na disseminação mediática da suposta ‘gaffe’ (pelo que pode significar como momento efectivamente desactivador de uma forte reacção sindical e popular) ficando, pois, por se saber até que ponto estaria de facto oculta, para o primeiro-ministro espanhol, aquela câmara de televisão que captou a conversa de Rajoy com os seus dois interlocutores europeus, ou se, pelo contrário, essa câmara-aparentemente-oculta não estaria já a ser usada em nome de uma táctica de dissimulação do próprio discurso do poder político espanhol (2).

Mesmo assim, não deixou de ser colocado, igualmente, em debate, um jornalismo que se produz de uma posição de suposta ou assumida ocultação, tendo sido lançada a discussão sobre o compromisso tácito de não-uso que as situações ‘off-the-record’ significam. Reconhecendo os diferentes contornos, mas também os pontos de contacto das duas situações, é nesta questão da ocultação do jornalismo e dos processos pelos quais se produz a mensagem jornalística, que pretendemos deter-nos. Em resumo: a questão reside em saber quem controla o que aparece, ou seja, é do controlo do visível que estamos a tratar.

Qual é, então, o problema que um jornalismo tornado anónimo coloca ao visível? Que relações e equilíbrios são instabilizados pela ocultação premeditada ou inadvertida de uma presença jornalística (que o passa a ser, igualmente, no momento em que o jornalismo cauciona o anonimato das fontes de informação, ao tornar-se mero veículo da informação) que, por definição, prefigura e supõe o público, em espaços cujas regras procedimentais pretendem instalar o privado?

O problema é um verdadeiro universo de complexidades. Devemos assumir, por isso, e desde já, toda a incompletude da análise. Essa análise deve envolver, antes de mais, toda a discussão normativa, deontológica e ética do jornalismo (1), ou seja, o debate da parte que lhe cabe no contrato moderno de administração do espaço público, que é parte do contrato que funda a própria modernidade como sistema de mediações representacionais – ou seja, como sistema que se constrói e opera politicamente sobre as lógicas do visível (da representação, da transparência, da publicidade, da visibilidade). Colocamos, por isso, o nosso ponto de vista numa das múltiplas questões que derivam deste debate: o controlo dos processos de produção do visível.

Sob este ponto de vista não restarão dúvidas de que um jornalismo que se faça surgir da ocultação e da anonimização dos seus sujeitos humanos e técnicos de observação, registo e relato, é potencialmente subversivo ao equilíbrio do visível. Porque pode alterar a seu favor, e sem conferir aos sujeitos observados qualquer hipótese de devolução, essa noção de equilíbrio. O caso da câmara oculta é um dos mais evidentemente exemplares: resulta, na verdade, na produção de uma invisível presença de tipo divino, ou seja, de uma omnipresença omnividente que contém sempre os traços inapagáveis de um totalitarismo. Auto ou hetero-dissimulada, a lente da câmara de filmar passa a deter o poder do olhar de Deus: está em toda a parte. Vê tudo, observa tudo, regista tudo. Ganha, assim, uma omnipotência de captura do real que, como em tudo o que é da vigilância divina de homens sobre homens, não pode deixar de implicar a necessidade de um constante escrutínio. Daí toda a panóplia de problemas que coloca, a começar pela recorrente discussão da privacidade à qual se opõe, invariavelmente, o carácter público da operação jornalística, e a desaguar em todas as excrescências morais e éticas que lhes estão associadas. A própria justificação positiva para o uso de uma câmara oculta no processo jornalístico costuma estar, precisamente, ancorada na necessidade de uma moralidade pública que aí se sobrepõe a toda a moralidade privada que a coloca em questão.

Mas quando, há dias, Joaquim Fidalgo discutia aqui o problema das fontes anónimas, era igualmente desta problemática que essa reflexão se ocupava: na anonimização das fontes, joga-se também a transformação da informação em tudo o que aparece. Aí, contudo, o problema do controlo surge-nos, já não de um processo intrínseco à produção da informação, controlado por jornalistas, mas da aceitação e interiorização, pelo processo de produção jornalística do visível, da condição invisível do mensageiro. O jornalismo coloca-se, totalmente, nas mãos deste, aceitando a sua transformação em mero veículo de visibilização.

Tal como avisámos, a questão é extremamente complexa e controversa. Mas vale a pena ser colocada. Voltaremos a ela, muito provavelmente.

(1) A este propósito, aconselha-se a consulta da extensa argumentação e declarações de voto, constantes da deliberação 6-Q/2006 da ERC, a propósito de um caso de uso de câmara oculta na grande reportagem da RTP “Quando a Violência Vai à Escola”).

(2) Um dia depois da publicação original desta reflexão, dar-se-ia caso semelhante com uma conversa, registada pela TVI, entre os ministros português e alemão das Finanças, cuja divulgação o governo germânico viria a considerar “escandalosa” (act 10/02/2012).

TDT: ponto(s) de não retorno

O trabalho do investigador do CECS Sérgio Denicoli sobre o processo de implementação da TDT em Portugal atingiu ontem o que se pode, justamente, considerar um ponto de não retorno. Emergindo de uma investigação de doutoramento que está a aproximar-se da conclusão, a pesquisa de Sérgio Denicoli permitiu identificar e escrutinar de forma evidente a incomensurável lista de infelicidades, disfuncionalidades e irregularidades de um processo de transição que, como foi ontem afirmado no Parlamento pelo Presidente da Comissão para a Ética, Cidadania e Comunicação, Mendes Bota, tinha tudo para ser “um sucesso”.  Tinha, se tivesse observado as regras da democracia, que são as regras que, supostamente, se legitimam mediante a observação desse conceito chato (que diabo!) a que chamamos interesse público. O que não aconteceu no desgraçado processo português de transição para a TV digital, como ficou ontem, mais uma vez, demonstrado, levantando-se agora as mais legítimas suspeitas sobre todas as suas intrincadas complexidades. Isto sucedeu em plena Casa da Democracia. O que teve como consequência lógica o desafio que Sérgio Denicoli fez aos deputados.

(fotograma gentilmente cedido pelo investigador Mário Camarão)

O trabalho da investigação, seguindo a tradição de uma sociologia da acção que não se contém na elaboração de teses para consumo académico, coloca, pois, a esfera política perante a evidência de um processo que tem de ser rapidamente revisto, invertido e revertido a favor das pessoas a quem se destina. À política comete agora a obrigação da política. Foi esse o ponto de não retorno a que efectivamente se chegou: os deputados já não podem assobiar para o lado, fingir que não sabem de nada e continuar a vida como se nada se tivesse passado.

Quem acompanhou, através do Canal Parlamento (que já deveria estar a ser transmitido na plataforma TDT actualmente em operação, afinal de que é que se está à espera?), o colóquio e o debate que se lhe seguiu mas, acima de tudo, quem percebeu o teor das intervenções finais das diversas bancadas parlamentares, ficou, no entanto, com a inadmissível e desconfortável sensação de que o dossier pode ter atingido outro ponto de não retorno que não aquele que a evidência obtida pela investigação científica denunciaria: o de que o processo nasceu torto e de que nada pode, agora, ser feito para invertê-lo. Ou seja, nas entrelinhas das intervenções dos deputados (em especial, como é óbvio, dos que podem mudar algo, os do PSD, PS e CDS), que são, como sabemos, onde os discursos verdadeiramente se escrevem e se lêem, leu-se a possibilidade de nada vir a acontecer. A falácia, a verificar-se, é do domínio do monstro, qual fantasmagoria surgida de um apagão da democracia: na prática, significa a aceitação de transformação do Parlamento num sítio para lamentar, um sítio que se transmuta em caricatura de si mesmo pela distracção a que os deputados se devotam a mandar piropos uns aos outros, distribuindo inconsequentes galhardetes sob a forma de responsabilidades, do tipo: se o PS diz que é o actual governo que tem falta de estratégia para a TDT (ou para o que quer que seja), lá virão PSD e CDS argumentar que foi o anterior governo que elaborou todo o processo. E os eleitores (mas só aqueles que têm TV paga!) a assistirem, incrédulos, a todos estes sinais de fumaça.

Pontos de não retorno, portanto.

Act (2/02/2012): O debate foi, entretanto, disponibilizado na íntegra. Dois dias depois do debate e, diríamos, apesar do debate, em entrevista à RDP Antena 1, e insistindo particularmente nas referências ao investimento feito pela PT, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, recusou qualquer possibilidade de reabertura do processo da TDT, dando sinais de que, de facto, vingará a tese expressa neste “post” como receio de que se venha a confirmar o segundo ‘ponto de não retorno’. Com tudo o que isso implica. 

Da inovação que não há sobre a “inovação” que, supostamente, há

A RTP Informação dedicou, na sexta-feira, um dia inteiro à inovação. Neste sábado, a partir de uma conferência-debate que organizou, o DN veio esclarecer, entretanto, que “inovar não basta: é preciso ser empreendedor e exportar”

O tema da inovação é recorrente na agenda dos media, a própria palavra é um dos fetiches da comunicação contemporânea, surgindo constantemente utilizada e reciclada para reutilização. E, como fetiche constantemente realizado, o que nele sobra em excitação, falha em compreensão.

Centremo-nos, apenas,  no questionamento da inovação sob o ponto de vista das relações de domínio do espaço comunicacional: de facto, além de recorrente, a inovação surge recorrentemente tratada, isto é, o discurso que se produz, não só nos media mas também nas esferas política e académica, é invariavelmente fundado numa repetição que associa inovação a tecnologia, e nesta, a economia. Isto é, trata-se o inovador como concretização prática do que é novo no território do objecto. Tal como denuncia o DN, a inovação pouco valor parece ter como conceito subjectivo, ou seja, quando se situa apenas no território da ideia e, aí, na teoria, na reflexão, na sua complexidade matricial, se não se puder tornar coisa concreta, objectivada, simplificada, aplicável, visível.

A preocupação que daqui emerge, para todos os que têm de conjugar a sua acção nos campos da investigação científica e da comunicação terá, pois, a ver com o efectivo valor da ciência que se faz e da ciência que é necessário fazer, quando se sabe que as estratégias para a comunicação de ciência estão já, de certa forma, reféns deste esquema discursivo, que se impõe como jogo e regra de jogo. Que espaço sobra, pois, à ciência que contém um potencial de inovação no território das ideias, do confronto de complexidades e dúvidas, ou seja, uma ciência fundada na questão, se existe, a montante e a jusante dos seus processos fluidos, a certeza de que a única ciência mercantilizável nos espaços comunicacionais, é a ciência que se fixa no poder imediato da resposta?

Sendo, simultaneamente, observadores extrínsecos e intrínsecos à academia, quer parecer-nos que esta viverá, hoje, mais do que nunca, sob o jugo deste paradoxo. O que a fragilizará cada vez mais como locus de produção de conhecimento e a pode reduzir a uma mera fábrica de saberes empiricamente aplicáveis, cujo fim será sempre o da utilidade e utilização imediatas (há dias, esta preocupação surgia expressa numa entrada de Manuel Pinto, a propósito da denúncia de Hermínio Martins de um “frenesi do articulismo” na actual produção académica).

E assim, ao falarmos da inovação como esquema discursivo que produz ideias dominantes no espaço comunicacional, podemos estar a falar, afinal, da sua efectiva negação.

O poder mediático de um bom balanço

Nem quatro dias se haviam passado sobre o ‘apagão’ do primeiro de inúmeros emissores de televisão analógica que serão desligados nos próximos meses para que a Anacom (Autoridade Nacional para as Comunicações, vulgo, o regulador) viesse declarar o seu “balanço positivo”. Ora, não é preciso perder aqui demasiadas linhas com a relevância efectiva de um tal balanço, feito logo após o ‘apagão’ de um emissor e de apenas três retransmissores, a que se seguirá, e só nesta primeira fase do processo que decorre até 23 de Fevereiro, idêntica operação abrangendo, em quatro datas sucessivas, outros tantos emissores e perto de uma centena (!) de retransmissores . A desproporção entre o que foi feito e o que falta fazer é tal que qualquer olhar descomprometido notará facilmente a ausência de qualquer sentido para… o balanço que a Anacom decidiu fazer. E, no entanto, fez.

Porque é que terá interessado, então, à Anacom, tornar pública tamanha irrelevância? De que consistirá efectivamente o balanço, que o torne elemento tão apetecível na comunicação contemporânea?

Arriscaria uma hipótese, baseada em argumentação anteriormente aduzida, socorrendo-me das noções de campo social de Bourdieu: à Anacom, como a todos os detentores de capital simbólico não contestado no campo da comunicação (por serem, como é o caso, jogadores institucionais, respaldados nesse capital institucional que os torna actores imediatamente reconhecidos no jogo das visibilidades) interessa produzir o que designaria um objecto mediático. Isto é: interessa produzir e colocar em circulação, logo, administrar e controlar, algo de que o jornalismo tanto gosta e que tanto jeito lhe faz, na lógica industrial dominante de custo/produção: uma ‘estória’ em estado finalizado, terminada, definitiva, pronta-a-ver na superfície do visível. Mesmo que saibamos que não o é. Mas este jornalismo de mercâncias, que se entretém na acelerada circulação comunicacional de objectos como agente meramente reprodutor de ‘estórias’ em estado finalizado (pensando assim que as administra por deter o poder de administração do visível), não é mais do que mero instrumento nas mãos do poder que efectivamente se exerce. Ou seja, não é mais do que jornalismo-pé-de-microfone.

Note-se como, neste complexo campo da administração comunicacional dos objectos mediáticos, é tão dura e desigual a tarefa de questionamento e desconstrução deste tipo de ‘estórias’ em estado finalizado. O balanço faz-se, invariavelmente, como definitivo, e todo o desconforto surge quando é denunciada a sua absoluta incompletude. O jornalismo do instante, digo, usando o sentido crítico de um Perniola, a comunicação, não gosta da ‘estória’ por acabar, a industriação dos seus processos já não capta e observa processos em movimento, não perde tempo com isso. Facilita-se apenas como foto-finish, tornando-se assim produto vendável nos sucessivos e fugazes escaparates do quotidiano. Um dos mitos do jornalismo é, aliás, a própria notícia, pelo que faz correr os jornalistas para o teclado, para o telemóvel, para a câmara de televisão, para o ar. A notícia, essa ‘estória’ em estado finalizado, cujo suposto valor tantas vezes substitui a sua própria verificação, anulando o necessário tempo para o olhar em perspectiva, para a reflexão.

Torna-se, pois, extremamente difícil a tarefa de todos quantos sabem que a ‘estória’ não acaba no balanço, mas que necessita de ser constantemente vigiada, escrutinada, acompanhada, questionada. Porque o campo da comunicação acelerada de objectos mediáticos, administrado pelo jornalismo, continua dominado pelos jogadores institucionais cujo reconhecimento imediato se sobrepõe (quando não chega mesmo a esmagar) à necessidade de construção de uma auto-legitimação, por parte de todos os que têm de se elaborar como autoridades dentro do campo.

Por isso, é fácil a tarefa da Anacom. Com um balanço, resolve o problema. Sabe, porque o afirma do alto da mais inacreditável displicência, que cerca de 70 por cento dos lares portugueses já têm TV paga (o que também não parece preocupar a tutela governamental) e que, por isso, nem sequer vão dar conta da Televisão Digital Terrestre ou dos problemas com a emissão, ou da pura inexistência de uma emissão. E sabe que todos os restantes 30 por cento são problemas que podem ser facilmente administrados e ultrapassados com uma simples gestão dos objectos mediáticos finalizados que, em instantes medidos e precisos, saberá colocar em circulação na superfície do visível.

‘Media’ privados ou públicos? A propriedade como poder de ocultação

Há dias, num “post” intitulado “Quem é dono do quê?”, Luís António Santos alertava aqui para a necessidade de uma maior discussão do ‘assunto’ da propriedade dos ‘media’ portugueses. O caso não é de somenos. É dos dispositivos de efectivo controlo do espaço comunicacional que se trata. Logo, é de democracia.

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Considero que a dissimulação de aspectos essenciais para o conhecimento de toda a maquinaria de produção da mensagem mediática, como a propriedade das empresas, é um dos aspectos cujo debate é mais decisivo na discussão da lógica privatizadora que avança de forma inexorável em Portugal. Mas os ‘media’ comportam ainda uma outra ‘nuance’: operam no âmago de um espaço de visibilidade que tudo substitui, isto é, constituem e administram eles próprios a visibilidade, produzindo uma extensa superfície de luz imediata: aquilo que vemos e nos é dado a ver. Ora, o que está visível separa, esconde, torna-se imagem que, constituindo-se visão do mundo, remete o que está aquém e além para a invisibilidade ou, pelo menos, para zonas de obscuridade. Diria: zonas de ocultação. Ou seja, ao constituírem e administrarem a visibilidade os ‘media’ detêm o poder de operar igualmente a dissimulação. E, como já aqui escrevi, sai vencedor da incessante batalha do visível contemporâneo aquele que mais capaz se revele a ocultar a sua posição.

Observemos, pois, o que se passa com a questão particular da propriedade dos ‘media’: na verdade, se o que está visível é a mensagem-imagem (o objecto mediático) que o ‘medium’ coloca em acelerada circulação, e se a visibilidade é constituída pelo conjunto de mensagens-imagens que são postas em circulação, todo o resto é remetido para zonas de ocultação, a começar pelo próprio processo de produção das mensagens. Não será difícil perceber que é, precisamente, nestas zonas de ocultação, porventura nas mais profundas e afastadas da superfície visível, que se situa o problema da propriedade. A propriedade dos ‘media’ não ocupará propriamente uma posição fixa, não está, certamente, isolada do sistema de visibilização, bem pelo contrário: ela interage com um sistema dinâmico a ponto de ser potencialmente decisiva no modo como o visível é constituído, reproduzido e administrado. Isto é: pode servir-se desse jogo do visível como poderosa superfície de dissimulação. Tornar algo visível pode significar a invisibilização do que é próprio. E este é um aspecto diferenciador da propriedade de empresas de ‘media’ relativamente à propriedade de outros tipos de organizações empresariais, económicas e financeiras: neste caso, não restam dúvidas de que propriedade é poder, mas também de que deste poder faz parte um decisivo poder de auto-dissimulação.

Onde reside, entretanto, a diferença essencial entre a propriedade pública e a propriedade privada se, neste simples esquema de visibilidade que nos serve de grelha analítica, tanto uma como outra parecem poder ser igualmente dissimuladas? Quer parecer-nos que a questão está na própria definição conceptual. Só faz sentido que o público opere num espaço de visibilidade que é sempre um espaço de publicidade. Assim, mesmo que se dissimule e, de certo modo, se privatize sob camadas de intransparência, privatizando os seus processos decisórios e produtivos, o público e o problema da sua propriedade estão sempre forçados ao regresso à superfície. Existirá sempre uma exigência de retorno ao visível. Ao privado é, entretanto, inerente a privacidade como carácter definidor, ou seja, é-lhe sempre conferido um direito de reserva, de permanência no privado. Veja-se, por exemplo, as justificações dadas recentemente para as nomeações na EDP, após venda aos chineses da Three Gorges (em especial as justificações de Eduardo Catroga, ancoradas na decisão de accionistas), ou para a (e)migração da Jerónimo Martins para a Holanda. É também deste aspecto decisivo para o debate da democracia que se joga o debate sobre a privatização dos ‘media’ do Estado.

(sobre este assunto, aconselha-se também a leitura de “O público, o privado e o ideológico”, publicado como nota, configurada como “pública”, por Rui Pereira, na sua página de Facebook)

Crí(p)tica da ‘razão técnica’

(reflexões soltas a propósito da aparente complexidade, por vezes altamente críptica, da conversa dos “ratings”, dos debates da finança e da economia, ou da fuga tecnicamente assistida à explicação de casos como a TDT[1], ou seja, dos inúmeros episódios de comunicação contemporânea no espaço público que surgem codificados e, aí, ocultos sob a iluminação intensa de argumentos e “razões técnicas” que, na prática, ao ofuscarem e prenderem o olhar imediato, afastam a cidadania do centro do debate democrático assegurando modos exclusivistas de controlo do espaço comunicacional)

Parar é morrer.

Quem não aparece esquece.

Toda a nossa existência parece ser, hoje mais que nunca, sobre o constante refinamento dessa ligação: a luz e o movimento. Intensos. Perpétuos. O mundo e a vida, sem eles, correm o risco do desabamento numa fatal falha de sentido.

Desde a alvorada moderna, com os seus preparativos renascentistas, que aprendemos a conhecer o poder da luz óptica sobre os corpos terrestres. Começámos a negar a luz como exclusivo do divino, trouxemo-la para o meio de nós, para onde as coisas se vêem, de facto. Ver é crer. Ver é conhecer.

A ciência, e o primado da observação e da sua consequente verificação, constituem a prova desse poder massivo da luz óptica. Foi a luz que iluminou os corpos (terrestres e celestes) e, neles, começou a revelar a sua “mathesis” universal, o seu rigor, numa relação das formas com as fórmulas, afinal, o conteúdo matemático da vida que se constituirá como nova relação mística. Recuperaram-se os antigos, renasceu o teatro, e a luz, sempre, em todo o lado. A alvorada moderna fez passado das trevas medievas e lançou o mundo na promessa radiosa de um dia interminável.

Parece óbvio que, com a revelação óptica da luz, só podia vir mesmo o movimento, a seguir. Prometido, primeiro, como liberdade, como revolução. O livre movimento dos corpos, nesse intenso iluminismo dos tempos: a razão universal do indivisível indivíduo emancipado. Concretizado, finalmente, como confinamento dissimulado pela intensificação do movimento, isto é, como inapercebido controlo, razão técnica imediata que se apresenta ao movimento acelerado dos corpos que tudo vêem mas já nada compreendem. Razão técnica que há-de ser sempre uma, uma nova e inesperada, na miríade das razões técnicas.

Perdoe-nos Kant a ousadia da glosa, mas é de um mergulho críptico, de uma crítica da críptica ‘razão técnica’, que hoje necessitamos, sob pena de nos deixarmos levar na acelerada onda cinética. Perdidos num caleidoscópio de sombras sem sombra.

A luz forte que ilumina o movimento e a mobilização dos corpos tornou o visível insuportável, ofuscante. O filósofo francês Paul Virilio descreve-o como um campo de batalha e tem razão. A questão é que é do mais perigoso e traiçoeiro dos campos de batalha que se trata. O campo de batalha do visível faz da visibilidade a mais valiosa das suas mercadorias. Quem não aparece, esquece. Contudo, o “aparecer”, hoje, só se torna possível para corpos em movimento intenso e é aí que reside a sua armadilha. A sobrevivência, na guerra contemporânea está, mais do que nunca, relacionada não com o movimento em si, mas com a dissimulação. O “aparecer”, para o combatente, pode ser fatal se for um “aparecer congelado”, se se contiver numa imobilização. Por isso, ele esconde-se no avião furtivo, desaparece do radar comum usando o artifício técnico. O que “aparece” são apenas os seus efeitos. Quando ataca, já não está lá. A sobrevivência está, assim, relacionada com a capacidade rara de aparecer sem ser visto, sem ser detectado, a capacidade que cada combatente tiver de atacar sem nunca se deixar imobilizar. Parar é morrer. Assim, o “aparecer” é, hoje, um acto bélico, de um contra os outros. Ganha a guerra quem detiver a exclusiva chave da encriptação, quem possuir o restrito código de acesso à mensagem, quem se souber esquivar para lá da cortina técnica.

E o visível, já não será mais que um perigoso campo de batalha: intensamente iluminado, ofuscante e potencialmente paralisante. No campo de batalha, já ninguém é livre, e todo o movimento dos corpos é perseguido, controlado, rastreado e, potencialmente, tecnicamente anulado.

Percebe-se, pois, a importância de aprendermos a perscrutar o escuro da nossa contemporaneidade, tal como outro filósofo, o italiano Giorgio Agamben, escreve nas suas obras mais recentes. Afinal, é nesse imenso espaço onde o visível óptico não consegue chegar que as estratégias de ataque realmente se desenham. Será esse, porventura, o papel que resta a uma ciência da comunicação que se queira capaz de intervir no social em que está envolta. Será esse o papel que estamos intimados a assumir a cada tentativa de denúncia crí(p)tica que aqui nos propusermos fazer.


[1] Sobre este último tema, sugiro (re)leitura do excelente artigo escrito para este blogue por Sérgio Denicoli.