Ai a culpa agora é da fonte?…

Embora me custe, quase me apetecia dizer: ainda bem que o treinador Domingos Paciência decidiu accionar judicialmente quem escreveu e difundiu notícias, baseadas apenas numa “fonte não identificada”,  sobre um episódio que ele garante ser falso! E custa-me, mas quase me apetecia continuar: e oxalá o assunto não morra antes de chegar a tribunal mas, pelo contrário, vá até julgamento e permita que tudo se esclareça! Esta história das “fontes não identificadas”, a propósito de tudo e de nada, já não se aguenta e é tempo de tentar pôr alguma ordem na coisa, em nome do respeito pelas pessoas e da credibilidade do jornalismo.

Há um aspecto que me parece da maior importância sublinhar e que parece andar bastante esquecido: o recurso a fontes que não se identificam deve ser um recurso EXCEPCIONAL e não uma prática banal, normal, quase quotidiana. Conceder a uma fonte de informação o estatuto de confidencialidade (sobretudo quando está em causa uma notícia que pode causar dano a terceiros) é uma decisão grave e que merece muitíssima ponderação, não só pela maior fragilidade com que a informação passa a circular, mas sobretudo pelas consequências futuras que daí podem advir. Porquê? Porque a partir do momento em que concede estatuto de confidencialidade a uma fonte, o jornalista passa a assumir ELE PRÓPRIO toda a responsabilidade pela informação que vai divulgar. Se amanhã lhe pedirem que prove o que diz, ele terá de estar em condições de o fazer por ele próprio e terá de assumir esse ónus, pois já não pode repartir com ninguém as explicações e justificativos (género “foi aquele senhor que me disse…”). Dar estatuto de confidencialidade à fonte é prescindir dessa partilha de responsabilidades. Portanto, é bom que o trabalho jornalístico — incluindo confirmação por outras vias, recolha de elementos adicionais de prova (dcumentais ou outros), audição das partes envolvidas e/ou acusadas, etc. — tenha sido feito. E bem feito. Se as coisas correrem mal, mais tarde, não vale vir deitar as culpas para a fonte na qual se confiou cegamente, a ponto de se lhe ter dado esse estatuto excepcional (e valiosíssimo, porque tendencialmente inimputável…) de fonte confidencial. Não vale. É feio. 

Poderá retorquir-se: “Mas se a fonte tiver enganado o jornalista?… Não merece ela própria ser  denunciada nesse caso?… Não é isso que diz o Código Deontológico dos Jornalistas?…”.

É verdade, o Código Deontológico admite essa possibilidade (ver artigo 6º). Pela minha parte, contudo, considero que é uma possibilidade que deve ser usada asbolutamente em última instância e com carácter excepcionalíssimo, depois de muito  investigado o assunto e de recolhido o parecer do Conselho Deontológico do SJ (já aconteceu em Portugal, há uns anos). Em situação normal, mesmo que se venha a descobrir que a fonte enganou o jornalista, isso não lhe dá (ao jornalista) o direito automático de a denunciar, transgredindo assim umas das mais emblemáticas “regras de ouro” da sua ética e deontologia profissional. Ele, jornalista, tem de estar preparado para arcar com as responsabilidades até ao fim… Se não, que não confiasse em absoluto na fonte.  Que investigasse mais. Que cruzasse informação. Que questionasse o estatuto de confidencialidade pedido. Se não fez isso e acabou por ser ludibriado, que se auto-critique, que peça desculpa e que aprenda para o futuro. Mas que não caia na tentação de lavar as mãos como Pilatos e mandar as culpas todas para as costas de uma fonte em que decidiu confiar cegamente e a quem deu tempo de antena…  Isso não vale. E espero que, salvo circunstâncias da maior gravidade e excepcionalidade, a agência Lusa não o faça. Para bem do jornalismo.

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O que é, ou não é, jornalismo?

A edição deste domingo (29/1/12) do PÚBLICO traz-nos dois exemplos muito interessantes – um de jornalismo no seu pior e outro de jornalismo no seu melhor. O curioso é que, em minha opinião, o jornalismo “no seu pior” é da autoria de uma (re)conhecida jornalista e o jornalismo “no seu melhor” é da autoria de três jovens, cidadãos portugueses empenhados na vida colectiva, autores de um singelo blogue.

A peça jornalística assinada por São José Almeida, e que deu a manchete ao PÚBLICO (“Cavaquistas defendem saída de Vítor Gaspar do Governo“) é, em meu entender, jornalismo “no seu pior”, embora assinado por uma jornalista reputada (e por quem, aliás, há muitos anos tenho enorme consideração). Mas a verdade é que se trata, como já foi notado pela perspicaz Estrela Serrano no seu Vai e Vem, de uma óbvia consequência da operação de contra-ataque feita pelos “homens do presidente”, no final da semana “horribilis” de Cavaco Silva. É “spin” no seu melhor (como já na véspera se tinha visto no Expresso…), procurando fazer de Cavaco o bonzinho, preocupado com os pobres, os pensionistas e a classe média, contra os mauzões ultra-liberais do Governo de Passos Coelho. E a jornalista do PÚBLICO farta-se de explicar essa tese, sem NUNCA adiantar o nome de uma fonte sequer, sem NUNCA nos dizer quem são esses tais cavaquistas que pensam isso que diz que pensam, sem NUNCA se dignar identificar qualquer um dos autores de tais opiniões (um dos preceitos básicos da deontologia jornalística é que as opiniões têm sempre de ser atribuídas, nunca podem ser anónimas ou confidenciais…). O autor, oculto, de todas estas opiniões pode perfeitamente ser o próprio Cavaco, bem escondido e sem rabo de fora!

No mesmo jornal, um trabalho do repórter Luis Francisco sobre os autores do blogue “Má Despesa Pública” dá-nos um exemplo notável de como, mesmo não se sendo jornalista, se pode fazer… excelente jornalismo. Três jovens decidiram passar a estar atentos a todas as publicações oficiais (e obrigatórias) sobre as despesas feitas por entidades públicas, nacionais, regionais ou locais, e passar a publicar no seu blogue, sem grandes comentários, os exemplos confirmados de desperdício do dinheiro de todos nós. Tão simples quanto isso… Mas não é uma das actividades que deveria caber a todo o jornalismo que se preza – ou seja, servir de vigilante atento de eventuais desvios e abusos dos poderes que nos regem e, em consequência, denunciá-los para que todos os conheçamos? Jornalismo no seu melhor – mas, infelizmente, algo cada vez mais raro nos meios… jornalísticos! Sempre custa menos dinheiro, menos esforço e menos mão-de-obra ouvir ao telefone um ou dois “spin doctors” com uns recados e umas opiniões convenientemente anónimas, e escrever uma página inteira de jornal como se fosse a grande investigação da semana…

(P.S. O trabalho sobre o blogue “Má Despesa Pública” só está disponível on-line  para assinantes do PÚBLICO. Quem não o for, só pode ler o texto no papel. Sorry…)

Afinal o “24 Horas” não acabou…

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Disseram-nos há um ror de meses que o jornal 24 Horas tinha acabado. Até nos mostraram uma última primeira página bastante curiosa: o jornal acabava mas era o maior na denúncia e na capacidade de “contar tudo”…

Afinal, parece que não acabou. Ou então assumiu uma nova identidade, lá longe, junto da diáspora portuguesa. Pode ver-se aqui e aqui como o 24 Horas, com o mesmo logotipo e tudo, continua a existir e a constituir um autêntico “vício diário”. Mais: é, aparentemente, o único jornal diário de língua portuguesa publicado no estrangeiro, com distribuição em diversos estados dos EUA.

Mas o que é engraçado é que ele é igualzinho, igualzinho, ao ‘nosso’ Correio da ManhãNa imagem ao lado apresentamos exemplos de umas primeiras páginas recentes só para comparar. Mas é todos os dias assim, embora com algumas diferenças editoriais em páginas interiores.

Mais uma notícia à atenção do ministro Álvaro: às tantas, o Correio da Manhã também decidiu começar a ‘franchisar-se’ lá por fora e nós é que não sabíamos… Bem vistas as coisas, os pastéis de nata não são o único produto sólido e prestigiado que temos para exportar!

Todas diferentes, todas iguais…

O assunto já por mais de uma vez foi abordado neste blogue: a incrível semelhança (de fundo e de forma) de primeiras páginas da imprensa desportiva portuguesa. Parece que todos pensam da mesma forma quando andam à procura de um título apelativo… E até os trocadilhos utilizados acabam por coincidir volta e meia, como foi o caso do último domingo, dia 28 de Fevereiro  (obrigado, José Carlos Bragança!). É difícil encontrar exemplo mais acabado de mimetismo.

Jornalismo: dois novos livros

 Dois novos títulos portugueses da área do Jornalismo acabam de chegar às bancas.

Memórias Vivas do Jornalismo (Ed. Caminho), da autoria de Fernando Correia e Carla Baptista, apresenta-nos quase duas dezenas de entrevistas feitas a conhecidos (e antigos) profissionais, procurando ajudar-nos a entender melhor “como se fazia jornalismo em Portugal durante a década de 60 do séculoXX”. Alguns destes materiais serviram já de apoio a uma importante obra dos mesmos autores, publicada em 2007 (também na Ed. Caminho): “Jornalistas. Do Ofício à Profissão“.

EXPRESSO & AVANTE! Dois espelhos do mundo“, da autoria do jornalista (agora reformado) César Príncipe, faz um breve estudo comparativo de algumas das características mais típicas desses dois jornais a que chama “semanários-paradigma”. É uma edição da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP), uma das mais antigas associações portuguesas do sector, com os seus longos 127 anos de existência, e que, apesar das vicissitudes por que tem passado , insiste em manter-se viva, graças ao empenho desinteressado de alguns (poucos…) jornalistas.

“O país é Lisboa…”

Há quantos anos andamos (tantos de nós…) a tentar que isto não suceda!… Há quantos anos a tentar que os jornalistas de Lisboa não escrevam ou digam, em meios de comunicação NACIONAIS, que “logo à noite há um concerto no Coliseu” (qual Coliseu?… não há dois?…) ou que “está em obras a Avenida da Liberdade” (qual delas, se tantas há no país?…), ou que “o comércio esteve ontem aberto” quando foi apenas o de Lisboa que abriu! Mas não, isto não muda facilmente, são décadas e décadas de hábito de falar de Lisboa como quem fala do país, um hábito que está dentro das cabeças e se tornou quase inconsciente. Mas jornalista não deve, não pode ser inconsciente. Então os melhores outlets “DO PAÍS” são, por curiosa coincidência, todos na capital e arredores?… Vale a pena espreitar esta notícia do “i” — e continuar para baixo, para os comentários. Vá lá que começa mais gente a chamar a atenção para isto…

ACTUALIZAÇÃO: Decerto por causa dos protestos dos leitores, o “i” corrigiu o seu título, embora sem informar sobre o assunto. É um dos problemas muito falados na publicação on-line: muda-se o que se escreveu antes e é como se nunca tivesse existido a versão original… Mas existiu. A prova aqui fica, com  a reprodução do ecrã que surgiu de manhã e a versão alterada (no título, não no texto)  já à tarde:

Entre o bem público e a reserva da vida privada

Ao ler as notícias do fim-de-semana sobre o facto de as escutas telefónicas a Armando Vara também terem ‘apanhado’ José Sócrates em conversas duvidosas, lembrei-me do outro caso das escutas – o do Verão. Nessa altura, um dos grandes motivos de polémica foi o facto de o “Diário de Notícias” ter divulgado publicamente um fax PRIVADO, trocado entre dois jornalistas do “Público”. Não faltaram jornalistas (e comentadores, como Pacheco Pereira…) a repudiar vivamente aquela publicação, quase se recusando a discutir o fundo da questão (a existência, ou não, de uma manobra de manipulação informativa lançada por Belém, com a voluntária ou involuntária cumplicidade do jornal então dirigido por José Manuel Fernandes) por, diziam, se basear numa inaceitável divulgação de correspondência privada.

Agora, não vi ninguém (nem jornalistas, nem Pacheco Pereira…) escandalizar-se com o facto de as últimas suspeitas envolvendo José Socrates se basearem no conhecimento e na divulgação de telefonemas PRIVADOS entre o primeiro-ministro e Armando Vara. Mais: não será verdade que todo o processo “Face Oculta”, que está a permitir desmontar uma aparente rede de corrupção de vasto alcance, se baseou grandemente em escutas telefónicas que apanharam conversas privadas entre os diversos arguidos? E as escutas telefónicas que já nos fartámos de ver publicadas em jornais, desde o “Apito Dourado” ao “Caso Casa Pia”, passando pela “Operação Furacão” ou pelo “Caso Portucale”, não incidiam todas elas em conversas privadas? E o fax que há dias vimos reproduzido em jornais, um fax trocado entre responsáveis do Freeport com referências a um suborno de dois milhões de euros, não era, ele também, correspondência privada? E o célebre DVD que a TVI mostrou em tempos, com acusações directas a Sócrates, não era ele, igualmente, resultado da  uma filmagem clandestina de um encontro privado entre duas ou três pessoas?… Em resumo: haverá algum caso, recente ou antigo, de investigações sobre crimes de corrupção e de tráfico de influências que não se baseie, mais ou menos, em elementos (telefonemas, cartas, faxes, e-mails) que claramente se inscrevem no domínio das relações privadas entre pessoas?… E é por isso que os vamos desconsiderar pura e simplesmente, recusando-nos até a discuti-los, porque interferem com o direito fundamental das pessoas à privacidade?… E se isso acontece em todos os casos em que há suspeitas de crime, ou de engano, ou de atropelo a valores básicos do interesse público, por que devemos abrir excepção quando os intervenientes directos são jornalistas?… 

Sei que cada caso é cada caso e que o caso das escutas do Verão é bastante complexo. Mas, independentemente disso, há um ponto que me parece de sublinhar – e é o único que gostaria de reter aqui, a partir dos exemplos citados: o direito à reserva da vida privada (aí incluindo trocas de correspondência, de e-mails ou de telefonemas) é um direito fundamental de todas as pessoas, mas não é um direito absoluto. Se há fundadas suspeitas de um crime ou de uma infracção grave a princípios legais, éticos ou deontológicos, com consequências que extravasam esse foro privado, e se se conclui que a única forma de fazer prova de tais ilícitos é escutar conversas privadas ou vasculhar correspondência privada,  pode ser necessário, como última instância, interferir com esse “bem”, em nome de um “bem maior” – o de um interesse público relevante e indesmentível. É esse “bem maior” que leva um juiz a autorizar escutas privadas; é esse “bem maior” que tem levado muitos jornalistas de investigação a divulgarem publicamente factos recolhidos na esfera da vida privada de pessoas (mesmo quando estão abrangidos pelo segredo de justiça). Ora, quando os jornalistas denunciam estas coisas, toda a gente aplaude (e muito bem, que é essa uma das funções mais nobres da Comunicação Social em democracia), pouco se preocupando com a privacidade dos implicados (porque está em causa um “bem maior”, insisto). Mas quando os jornalistas são, eles próprios, vítimas de tais denúncias, caem logo o Carmo e a Trindade porque alguém se atreveu a divulgar mails privados… São dois pesos e duas medidas que retiram credibilidade aos profissionais dos ‘media’.