Lusa: quando se toca num esteio…

A vontade governamental de amputar o serviço público de media tem-se encarniçado sobretudo em torno da RTP. A RDP e a agência Lusa têm ficado mais na sombra do debate público, talvez por serem, por natureza, menos visíveis, mas nem por isso menos importantes. O caso da Lusa merece ser seguido com atenção, visto ser um meio de características especiais: desde logo, porque fornece informação aos outos meios, sendo, nesse sentido, um ‘grossista’; por outro lado, pouca gente a conhece – é uma entidade abstracta e sem rostos. E, no entanto, sem ela muitos meios de comunicação social ficariam em sérias dificuldades para cumprirem a missão de informar.

A Lusa é uma empresa com cerca de 25 anos de vida, cujo capital é detido maioritariamente pelo Estado, cabendo a propriedade ainda à Impresa e à Controlinveste, bem como a outras entidades ultraminoritárias. É de longe o meio com a maior rede de delegados e correspondentes quer no país quer no estrangeiro, especialmente nos países lusófonos, onde, além de reportar, também distribui informação. Produz diariamente centenas de textos e imagens, bem como, nos últimos anos, serviço noticioso em vídeo. Tudo isto faz dela um dos mais relevantes esteios do serviço público de media.

Depois de medidas de forte contenção de gastos tomadas nos últimos anos, a Lusa estava “a trabalhar, gastando menos”, ainda que precisasse do Estado para prosseguir a sua missão com qualidade. Era o próprio ministro do pelouro que o reconhecia, em intervenção no Parlamento, em Abril deste ano. Pois é precisamente a Lusa que se encontra, presentemente, em risco de deixar de cumprir o contrato assinado com o Estado, se se verificar o corte anunciado de 30 por cento no valor da indemnização compensatória.

Sem pôr em causa o esforço de racionalização e poupança que não pode esmorecer, tudo indica que um tal corte implica restringir a malha de cobertura da agência, em Portugal e no mundo, e, logo, um empobrecimento da diversidade da informação. Tal não seria preocupante se não significasse que todo o panorama informativo português, já em sérias dificuldades, se ressentirá por arrasto. De uma coisa podemos estar certos: amputar a Lusa é abalar o conjunto da informação mediática. A informação independente custa dinheiro, mas a falta dela, especialmente em tempos de crises e convulsões, custa ainda mais.

(in: Página 1, 15.10.2012)