Relações conflituosas…com o meu jornal II

Na sequência de uma decisão pessoal que resolvi publicitar (a de ter quebrado a minha relação de compra – já era, confesso, mais bi-ou-tri semanal do que diária – com o jornal Público) o Manuel Pinto achou por bem – e bem! – usar o mote para aqui abrir a porta a um debate sobre o tema genérico ‘porque perdem os jornais as suas audiências’.
Gostava, antes de mais, de explicar a minha opção, até porque fui já – e bem! – confrontado com a sua aparente incoerência. Não nego, desde logo, que ela exista. A incoerência. Existe pois, como existe em muito de tudo o resto que fazemos na vida. E felizmente que isso acontece, dir-me-ia um amigo que usa com frequência a expressão: “ainda bem que são como as pessoas”.
Como posso eu, agora, neste momento, em que o jornal se prepara – dizia-se há dias – para despedir uma centena de pessoas e para nos apresentar um novo rosto online, ‘abandonar o barco’? Ainda por cima um ‘barco’ no qual já só viajava às vezes? Ora, ora. Logo agora.
O que me parece interessante é olhar para este caminho e tentar perceber porque me fui gradualmente afastando do jornal e porque me doeu agora muito pouco fechar a porta. E a imagem do ‘barco’ é relevante porque comecei, precisamente, por ser um ‘leitor profissional’ do Público. Era, à época do seu arranque, jornalista em início de carreira e o Público fazia…o que eu gostava de estar a fazer. E fazia-o de forma consistente: preparava dossiers sobre os temas, antecipava polémicas, divulgava novas histórias. Tinha paginação e fotografia cuidadas (muito à imagem de uma outra das minhas paixões de juventude, o britânico The Independent). Era um grande jornal. Dava gosto ser fã. Fazia-lhe um like, em grande, se pudesse.
Dir-se-á que era uma imagem construída, pouco ligada à realidade do projeto em si. Pois sim. Mas era a minha imagem. E sentia-me, de facto, num ‘barco’ onde seguia viagem com um número significativo de leitores fiéis.
A primeira grande mudança neste estado de coisas aconteceu com a Direção editorial anterior à que agora o jornal tem. Confesso que em muitos momentos – o caso mais gritante terá sido o do apoio declarado à estratégia da Administração Bush para o Iraque – senti vontade de ‘saltar fora’.
Fiquei a meio caminho. Deixei apenas cair o hábito da compra quase diária. Era o Público, afinal de contas. A coisa havia de ir ao sítio. E, se me esquecesse por instantes da Direção, a casa tinha ainda tantos e tão bons profissionais.
Hoje, a casa continua a ter muitos profissionais de grande qualidade, mas sinto que a coisa não foi ao sítio. Longe disso. Foi para um sítio ainda pior, já muito longe (talvez longe demais) da linha de rumo. A forma como a Direção do jornal reagiu a uma interpelação do Provedor sinaliza, além de um profundo desrespeito pelas regras básicas de funcionamento e pela função social da profissão, um enorme desconhecimento dos leitores. Mais grave ainda; não sabendo quem são os leitores, a Direção mostra ainda que não tem interesse nenhum em saber.
Chegado a este ponto tinha uma de duas opções: ou salvava, para mim mesmo, uma imagem benigna de um dos mais bem conseguidos projetos jornalísticos do país ou arriscava um caminho em que as boas memórias já começassem a empalidecer por entre um amontoado de asneiras e asneirolas.
Bem sei que o Público não é – no panorama nacional – o caso mais trágico, do ponto de vista da degradação do produto jornalístico. Mas, porque chegou a significar tanto, dói mais.
Há, na chamada ‘crise do jornalismo’ aspetos que, sendo de natureza financeira, condicionam severamente o produto final. Mas há, também, aspetos que resultam de escolhas deliberadas de quem dirige os projetos. Creio que, no caso do Público, a gestão do projeto editorial foi, nos últimos anos, mais danosa para a credibilidade do jornal do que os anuais apertos financeiros ditados pela administração.
Como alguém que agora vê o ‘barco’ afastar-se, sem tino, embalado por ondas que lhe atiram cada vez mais água para um convés já encharcado, mantenho no espírito uma derradeira dúvida: porque assim quis ou porque assim deixou que fosse um empresário perspicaz e pouco dado a ‘longos funerais’ como o Eng. Belmiro?
Se ele, um dia, nos explicasse…
(a confiar nas palavras recentes do Joaquim Vieira parece que a Administração do Público quer, por estes dias, que se saiba o menos possível sobre a vida real do jornal. É, também isso, uma enorme pena).

Luís António Santos

3 thoughts on “Relações conflituosas…com o meu jornal II

  1. “How to do things with words”: neste momento, os elementos do Mediascópio devem estar muito satisfeitos.

    Aliás, quando o “Público” for completamente aniquilado é que vai ser bom: vão ficar apenas com jornais de referência, como o “Jornal de Notícias”, o “Diário de Notícias”, o “i”, “A Bola”, “O Record”, “O Jogo”… O “Expresso” também nunca se engana, e, juntamente com “O Sol”, faz muito jornalismo de investigação, sempre “sem olhar a quem”.

    Jornais que não merecem reparos como o “Público”, em suma.

    Isabel Correia

  2. Cara Isabel,

    Agradeço o seu comentário e julgo ter percebido o que nos diz; com tantos ‘piores’ em volta porque fomos logo ‘pegar’ com o Público?

    Penso que parte da explicação está dada no que escrevo; a desilusão é proporcional ao investimento emocional que fizemos. É mais grave, porque é o Público. É inaceitável, porque é o Público.

    Quanto ao nosso poder para influenciar o que quer que seja…ele é muito menor do que (só por gentileza) imagina. Não estamos nada satisfeitos, porque vemos um dos ‘nossos’ jornais completamente à deriva, nas mãos de quem não sabe o que faz.

    Assistir, assim, sem nada poder fazer, a uma morte lenta que não tem nada de inevitável custa muito. Custa-nos a todos.

    Obrigado pela visita.

Os comentários estão fechados.