Opinião ou marketing?

O jornal Público publica hoje, na secção de Espaço Público, um artigo intitulado ‘Construir a universidade do futuro’ (página 47). O título interessou-me e li o texto com expectativa sobre o anunciado debate sobre o ensino superior (é isto que se lê na linha que sucede o título – Debate Ensino Superior). Acontece que, depois de meia dúzia de linhas com ideias genéricas sobre o que deve ser a chamada universidade do futuro, o autor mais não faz do que a promoção de um investimento que a Laureate International Universities fez no ISLA – campus de Lisboa. O autor do artigo, Nélson Santos de Brito, é simplesmente o diretor-geral da Laureate International Universities para Portugal.

Muito haveria para debater sobre as afirmações do autor e sobre o modo como projeta a universidade do futuro, que, na sua opinião, «deve fundamentar a sua existência em três ideias fundamentais»: 1) valorização da mobilidade dos estudantes; 2) proximidade ao mundo empresarial; 3) a conversão do ensino num setor de ponta. Embora sejam ideias discutíveis, é outra coisa que me preocupa ao ler este artigo, cujo teor se fixa, destes princípios em diante, numa ação de propaganda àquilo que o autor chama de ‘ambicioso projeto’. O que é a opinião de interesse jornalístico? É a este tipo de textos que deve corresponder o género jornalístico opinião? A ações de marketing? Onde fica o genuíno e descomprometido debate de ideias?

O jornal Público chama a esta secção ‘Espaço Público’, mas todos sabemos que estas são as páginas votadas ao género opinião (como é, aliás, assinalado na versão online do ‘jornal do dia’). Por isso, esperar-se-ia que estas páginas finais das edições impressas fossem dedicadas a textos que realmente promovessem o debate crítico de ideias e a expressão de pensamento e provocações que aptas a estimular a reflexão individual dos leitores. Pergunto-me, pois, que critérios tem, afinal, esta editoria do Público para selecionar os chamados opinion makers a quem dá espaço?

Madalena Oliveira

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