A liberdade de imprensa e a cidadania

Jornalismo livre e liberdade de imprensa e de expressão são como duas faces da mesma moeda. Contudo, a defesa e promoção destes dois pilares das democracias está longe de ser um mero problema entre os jornalistas e os governos, ainda que passe bastante por aí.
As ameaças à liberdade vêm de diferentes tipos de poder, de que o poder económico-financeiro não será certamente o menor. Uma das formas de comprometer a liberdade é esterilizar o jornalismo, através da parcialidade, do enviesamento, do silêncio, da diversão, da coscuvilhice, do empanturramento, para não falar da falta de investigação e de verificação. Nuns casos as pressões vêm de fora, noutros procedem do interior do próprio campo jornalístico.
Hoje, há outros desafios que advêm da multiplicação das vozes no espaço público, da produção (informativa, textual, visual e sonora) de pessoas que, cada qual a partir do seu ponto de observação e dos seus interesses, partilham, comentam, observam, criticam e aplaudem. Que relações instituir entre estas novas vozes e aqueles a quem cabia, tradicionalmente, nas palavras de Bourdieu, o privilégio do acesso à palavra pública e o papel da mediação dos diferentes campos sociais? Como se redefine o lugar do jornalismo face a estes novos actores?
Supondo que a solução não passa por desqualificar as novas formas de participação, como se pode, por outro lado, promover a qualidade dessas vozes, tradicionais e mais recentes, de modo que o resultado tenda a ser mais uma conversação social do que uma vozearia onde ninguém se entende? E como envolver mais cidadãos, proporcionando-lhes competências, conhecimentos e oportunidades de maior participação?
Mais ainda: não será importante que quem publica e edita no espaço público aprenda muitas das normas deontológicas que até há pouco eram apanágio dos jornalistas e que hoje faz sentido serem mais socializadas?
Por tudo isto – ou também por tudo isto – faz sentido que o Dia Com os Media, que hoje decorre em Portugal ocorra no dia da Liberdade de Imprensa. Não para se sobrepor ou para usurpar a liberdade, mas para lhe dar um novo horizonte um sentido mais partilhado.

One thought on “A liberdade de imprensa e a cidadania

  1. Publicação muito interessante, principalmente pelas questões levantadas. Se é verdade que, como diz, há cada vez mais vozes a ouvirem-se na publicação de informação e partilha de ideias, não é menos verdade que é preocupante a repercurssão que têm essas vozes. É que muitas vezes essas vozes são opinativas, sem que muitas vezes o público em geral se aperceba. Se no jornalismo a imparcialidade já é algo bastante dificil de conseguir (porquê?), no espaço ( principalmente virtual, em primeira instância) que se tem vindo a formar essa característica é ainda mais escassa. Isso pode levar a que informações erradas (ou menos verdadeiras) sejam perpetuadas. Essa deontologia de que fala é por demais necessária. Mas num país que tem leitores a dar uma circulação constante a Correio(s) da Manhã, que dá mais audiências (muitas vezes) a programas da tarde e da manhã em vez de informativos, que interesse há realmente em obter essa aprendizagem? Penso que essa questão também passa muito pela consciencialização social, dar a conhecer aos pontenciais produtores (que ao fim e ao cabo são todos os cidadãos) quais os seus poderes, os seus “direitos e deveres”. Incutir essa responsabilidade que, muitas vezes pelo que leio, não há.

    Aproveito também para divulgar aqui um espaço onde faço reflexões sobre esta e outra temáticas http://www.journinphoto.com

    Continuação de bom trabalho.

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