“Era muito estranho escrever num blog”

Depoimento de Dora Mota, jornalista, uma das fundadoras deste blog:

Eu ainda não tenho idade para ser mãe dos estagiários que aparecem lá no jornal, quanto muito para ser irmã mais velha, mas parece que fomos criados em planetas diferentes. Quando lhes conto que comecei a trabalhar numa altura em que a Internet era ainda, para muita gente, praticamente uma extravagância, abrem a boca de espanto. Tenho 35 anos e sou do tempo em que os telexes da Lusa chegavam à redacção através de uma máquina que despejava continuamente passadeiras de papel no chão, zumbindo todo o dia, sendo esse zumbido, a par com o toque do telefone, que nunca parava, a nossa banda sonora. Como falávamos tanto tempo ao telefone, há dez anos! Sou do tempo em que muitas pessoas não usavam telemóvel e em que ainda mais pessoas não sabiam o que era um email. Muito menos um blog.

Sou jornalista desde 1999 e, felizmente, saí da Universidade do Minho a saber o que era um ftp, o http, a ter já construído um site rudimentar, a utilizar o email, a fazer pesquisas na internet. Tive um professor algo visionário, que ensinou à minha turma uma série de coisas que ainda hoje me são úteis. Durante anos, encontrei muitas pessoas nos jornais que não sabiam o que era um ftp, esse utilíssimo cargueiro ciberespacial.

Mesmo sabendo tudo isso, muito pouco daquilo que consta nos meus trabalhos de licenciatura foi alcançado com recurso a pesquisas na internet. Eramos, por não haver outro remédio, ratos de biblioteca. Se alguém me falasse em googlar, provavelmente dava-lhe uma palmada nas costas para o desentalar. Nem que passasse horas e horas nos computadores da UM a escrever palavras no motor de busca – e a nossa escolha era entre o Sapo e o Yahoo -, a verdade é que havia muito pouco para descobrir porque a maior parte do mundo, e principalmente do nosso mundo português, não estava virada para a Internet.

Este estado de coisas mudou tão depressa que, de um dia para o outro, podíamos perceber essa mudança. Os sites apareciam, a maior parte deles feios, mesmo muito feios, e muito básicos. Mas apareciam. Muitas pessoas começavam a pedir emails, principalmente aquelas fontes mais ligadas às universidades e ao conhecimento científico. O meu email do trabalho começava a receber uma mão cheia de mensagens por dia, escritas como se escreviam as cartas comerciais, cheias de excelências e vénias linguísticas. Toda a gente passava tempo nos chats e o famoso mIRC, criado na UM, era muito popular. Tornei-me especialista em fazer pesquisas na internet, lia muitos jornais estrangeiros online, fiz a minhas primeiras entrevistas por mail a pessoas de outros países.

Mas a primeira vez que ouvi falar em blogs e em bloggers e a começar a ouvir nomes de bloggers que eram gurus de enormes comunidades foi no mestrado em Ciências da Comumicação, através da minha colega Elisabete Barbosa. A Elisabete já tinha as antenas orientadas para o sítio certo há muito tempo e foi por causa dela que essa turma de mestrado – da qual tenho muitas saudades – acabou por dar por si a escrever num blog, o Jornalismo e Comunicação. Já existia o Ponto Media, do António Granado, e o Paulo Querido, que era então jornalista do Expresso e provavelmente a pessoa em Portugal que mais sabia de internet e dos seus segredos e novidades, parecia que nos mandava crónicas do futuro.

Era muito estranho escrever num blog e eu sentia uma grande responsabilidade sempre que o fazia. Era avassalador sentir que o escrevia ficava gravado na net como numa pedra e que toda a gente podia ler e reler, como num livro instantâneo. O Jornalismo e Comunicação tornou-se uma referência na blogosfera e tinha leitores de todo o mundo lusófono. Depois desse blog, cuja participação fui descontinuando, escrevi em mais blogs, quase todos exercícios literários ou arenas colectivas sobre um mesmo interesse, como cinema. Nunca deixei de ir ver o Jornalismo e Comunicação, de acompanhar os seus debates, de me actualizar por ele. Foi esse blog que, ao longo destes dez anos, me fez continuar a sentir que fazia parte da UM e de me sentir ligada ao ninho onde aprendi a estudar e a investigar comunicação.