“Explicar um blog não era fácil”

Depoimento de Elisabete Barbosa, Diretora de Comunicação e Projetos, uma das fundadoras do blog:

Criar e manter um blog há 10 anos atrás era uma tarefa bastante mais difícil do que é hoje. Não existiam os serviços atuais, não era possível utilizar imagens facilmente e os sistemas de comentários tinham que ser integrados no blog (pelo menos para os utilizadores do Blogger).
Mas também era mais interessante e divertido. Conhecia-se toda a blogosfera portuguesa e ainda era possível acompanhar facilmente o movimento nos EUA e no Brasil. Cada novo blog português era celebrado por toda a comunidade e as notícias sobre cada “nascimento” entusiasticamente divulgadas por outros bloggers.
Estejam ou não moribundos, os blogs foram percursores importantes do atual panorama das redes sociais. Foram os primeiros sistemas de auto-publicação, um grande passo para a democratização da Internet, o momento em que deixou de ser necessário conhecer linguagens de programação para poder publicar.
Para mim, no entanto, a principal diferença entre manter um blog hoje e há 10 anos não está na tecnologia ou no conhecimento do meio. Reside no facto de, atualmente, não ser necessário estar constantemente a explicar o que é um blog. É que não era fácil.
Parabéns ao Jornalismo e Comunicação e a toda a equipa.

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“Era muito estranho escrever num blog”

Depoimento de Dora Mota, jornalista, uma das fundadoras deste blog:

Eu ainda não tenho idade para ser mãe dos estagiários que aparecem lá no jornal, quanto muito para ser irmã mais velha, mas parece que fomos criados em planetas diferentes. Quando lhes conto que comecei a trabalhar numa altura em que a Internet era ainda, para muita gente, praticamente uma extravagância, abrem a boca de espanto. Tenho 35 anos e sou do tempo em que os telexes da Lusa chegavam à redacção através de uma máquina que despejava continuamente passadeiras de papel no chão, zumbindo todo o dia, sendo esse zumbido, a par com o toque do telefone, que nunca parava, a nossa banda sonora. Como falávamos tanto tempo ao telefone, há dez anos! Sou do tempo em que muitas pessoas não usavam telemóvel e em que ainda mais pessoas não sabiam o que era um email. Muito menos um blog.

Sou jornalista desde 1999 e, felizmente, saí da Universidade do Minho a saber o que era um ftp, o http, a ter já construído um site rudimentar, a utilizar o email, a fazer pesquisas na internet. Tive um professor algo visionário, que ensinou à minha turma uma série de coisas que ainda hoje me são úteis. Durante anos, encontrei muitas pessoas nos jornais que não sabiam o que era um ftp, esse utilíssimo cargueiro ciberespacial.

Mesmo sabendo tudo isso, muito pouco daquilo que consta nos meus trabalhos de licenciatura foi alcançado com recurso a pesquisas na internet. Eramos, por não haver outro remédio, ratos de biblioteca. Se alguém me falasse em googlar, provavelmente dava-lhe uma palmada nas costas para o desentalar. Nem que passasse horas e horas nos computadores da UM a escrever palavras no motor de busca – e a nossa escolha era entre o Sapo e o Yahoo -, a verdade é que havia muito pouco para descobrir porque a maior parte do mundo, e principalmente do nosso mundo português, não estava virada para a Internet.

Este estado de coisas mudou tão depressa que, de um dia para o outro, podíamos perceber essa mudança. Os sites apareciam, a maior parte deles feios, mesmo muito feios, e muito básicos. Mas apareciam. Muitas pessoas começavam a pedir emails, principalmente aquelas fontes mais ligadas às universidades e ao conhecimento científico. O meu email do trabalho começava a receber uma mão cheia de mensagens por dia, escritas como se escreviam as cartas comerciais, cheias de excelências e vénias linguísticas. Toda a gente passava tempo nos chats e o famoso mIRC, criado na UM, era muito popular. Tornei-me especialista em fazer pesquisas na internet, lia muitos jornais estrangeiros online, fiz a minhas primeiras entrevistas por mail a pessoas de outros países.

Mas a primeira vez que ouvi falar em blogs e em bloggers e a começar a ouvir nomes de bloggers que eram gurus de enormes comunidades foi no mestrado em Ciências da Comumicação, através da minha colega Elisabete Barbosa. A Elisabete já tinha as antenas orientadas para o sítio certo há muito tempo e foi por causa dela que essa turma de mestrado – da qual tenho muitas saudades – acabou por dar por si a escrever num blog, o Jornalismo e Comunicação. Já existia o Ponto Media, do António Granado, e o Paulo Querido, que era então jornalista do Expresso e provavelmente a pessoa em Portugal que mais sabia de internet e dos seus segredos e novidades, parecia que nos mandava crónicas do futuro.

Era muito estranho escrever num blog e eu sentia uma grande responsabilidade sempre que o fazia. Era avassalador sentir que o escrevia ficava gravado na net como numa pedra e que toda a gente podia ler e reler, como num livro instantâneo. O Jornalismo e Comunicação tornou-se uma referência na blogosfera e tinha leitores de todo o mundo lusófono. Depois desse blog, cuja participação fui descontinuando, escrevi em mais blogs, quase todos exercícios literários ou arenas colectivas sobre um mesmo interesse, como cinema. Nunca deixei de ir ver o Jornalismo e Comunicação, de acompanhar os seus debates, de me actualizar por ele. Foi esse blog que, ao longo destes dez anos, me fez continuar a sentir que fazia parte da UM e de me sentir ligada ao ninho onde aprendi a estudar e a investigar comunicação.

«Era, então, Primavera» – notas sobre o 10º aniversário deste blog

Faz hoje dez anos que este blog começou a publicar-se, por iniciativa de um pequeno grupo que se formou na turma de  Jornalismo daquela que, se bem recordo, foi a primeira ou a segunda edição do mestrado desta especialidade na Universidade do Minho. Era, então, primavera. Em vários sentidos.

1.

Nascemos na peugada e sob a inspiração de um outro blogger que já tinha mais de um ano de avanço, o António Granado e o seu Ponto Media, um corredor de fundo, como se tem comprovado.

Mas nascemos numa envolvente ainda pouco habitada, se assim se pode dizer. Metemo-nos a sério. Basta dizer que a Elisabete Barbosa,uma das protagonistas e factor decisivo – pelas razões que mais adiante explicarei – viria a publicar, pouco depois, aquele que deverá ter sido o primeiro livro de estudo crítico sobre o fenómeno dos blogs e da blogosfera, precisamente em co-autoria com António Granado e com prefácio meu. E os dois, com mais duas alunas de licenciatura (uma delas hoje jornalista na SIC, a Sara Antunes Oliveira) organizamos na Universidade do Minho, em 18 e 19 de Setembro de 2003, o primeiro Encontro Nacional de Weblogs, com repercussão nacional através (como haveria de ser de outra forma?!) dos media clássicos, em particular a SIC e o Jornal de Notícias.

2.

Permitam-me uma nota pessoal, já que ela pode ter algum significado para avaliar como os tempos eram já, e continuam a ser, de mudança (de paradigmas?)

Eu leccionava, então, uma disciplina nova, intitulada Sociologia das Fontes Jornalísticas. Era nova em vários sentidos. Desde logo porque tinha nascido de um projeto de investigação coletivo daquele que viria a ser o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Mas, também, porque tinha subjacente a ideia de que nada compreenderíamos  do que é o jornalismo se não estudássemos as suas fontes e não rompêssemos com uma visão idílica e naïf da sua natureza e dinâmica. Depois da profissionalização e instituição das fontes – uma autêntica revolução para a qual nos vinha alertando o académico luso-brasileiro Manuel Carlos Chaparro – seria preciso atender ao novo quadro que a Internet estava a configurar e que, naqueles anos inaugurais do novo século, começava a balbuciar aquilo que viria a ser conhecido como a web 2.0.

Ora, nas aulas de Fontes, procurávamos estar atentos a isso. Lembro-me vagamente que tínhamos para ler e comentar uns textos do Journal of Computer-Mediated Communication (já então em acesso livre), e que,no quadro do debate que se gerou, a Elisabete chamou a atenção para o significado que poderia vir a ter para a relação entre jornalistas e fontes essa coisa nova que estava aí a nascer e que se chamada weblog. Veio à baila, como exemplo conhecido de alguns de nós o Ponto Media. Eu conhecia também uma forma parecida que há alguns anos o Pedro F.(onseca) vinha desenvolvendo e que viria a dar origem ao seu Contrafactos e argumentos. E, viríamos então a descobrir, a própria Elisabete tinha acabado de lançar o seu próprio blog – o Jornalismo Digital, que ainda hoje resiste. Depois de alguma conversa, a questão surgiu como natural: faz ou não sentido lançarmo-nos, enquanto turma, na criação de um blog próprio, a abrir eventualmente a outros docentes interessados? O assunto transitou para a aula seguinte e a decisão foi pela afirmativa, ainda que o grupo dos que se entusiasmaram com a ideia se tivesse reduzido drasticamente. Além da Elisabete, de mim, da Dora Mota (hoje jornalista no JN) e, creio que o João Carlos Gonçalves (que se interessava por jornalismo escolar), ninguém mais se dispôs a pôr de pé o projeto. Se bem recordo, foi a Elisabete que foi ao blogger.com e criou lá o ‘Jornalismo e Comunicação’, dando-nos, depois, uma sessão de formação. De resto, poucos meses a seguir, vendo as potencialidades dos blogs para o ensino e aprendizagem do jornalismo, criei o ‘Aula de Jornalismo’, tendo a Elisabete voltado a ser a ‘formadora de serviço’ dos docentes que quiseram aderir.

Não posso dizer que não conhecia nada dos blogs, naquela ocasião. Mas tenho de confessar que foi no quadro do debate havido na aula, induzido sobretudo pela Elisabete, que eu me apercebi dos horizontes, alcance e potencialidades do fenómeno. De modo que, em mais de uma ocasião, disse e assumo que este momento foi para mim o primeiro e talvez mais ilustrativo caso de que, em cada vez mais situações, o professor não será tanto aquele que ensina (para os alunos aprenderem), mas o que proporciona o ‘setting’ e as condições para que todos estudem e aprendam. E digo, também, que isto é bonito, mas é mais fácil de dizer do que de fazer (bem feito).

3.

Não estou em condições de analisar o percurso deste blog, o papel que teve, em vários momentos, no acompanhamento crítico da actualidade jornalística e mediática. Outros o poderão vir a fazer com mais distanciamento. O contexto foi-se alterando significativamente, sobretudo à medida que avançava a segunda metade da primeira década do século XXI. Por outro lado, terminou em 2006 um projeto de investigação, o Mediascópio que envolvia boa parte da equipa do J&C e que tinha como objetitvo e método rastrear os acontecimentos da atualidade jornalística e mediática e os seus bastidores como sinalizadores de tendências e de problemas. De forma indireta, isso impelia-nos a recolher, tratar e publicar. Entre 2009 e 2010, a equipa do blog teve de se virar, de alma e coração para a organização de uma conferência mundial de ciências da comunicação e a actualização deste espaço começou a rarear, até que parou. A vida académica alterou-se também muito, num sentido que não facilita esta vertente, o que é certamente deplorável. Ainda assim, quisemos pôr fim ao silêncio e voltar ao espaço público, tirando agora partido da articulação do blog com outras plataformas e com redes sociais como o Facebook e o Twitter.

Em todo o caso, as dificuldades de debater e fazer dos blogs espaços vivos e intervenientes são manifestas. E, no entanto, esse esforço é cada vez mais necessário, em particular no campo jornalístico e mediático, até porque os media profissionais o fazem cada vez menos. Há lugar para um tipo de discurso e de intervenção no espaço público que nem é o discurso erudito dos ensaios ou da investigação nem os quase monossílabos e oráculos dos tweets e posts facebookeanos. Custa pensar e custa escrever. Mas sem pensar e sem partilhar, não vamos lá.

PS – Recordar é …esquecer (também). E reconstruir. Por isso, e como se tratou de um projeto coletivo, são bem-vindas achegas, leituras, interpretações, correções.