Cantar de Gallo

A ver se nos entendemos: falar uma mesma língua significa, mais que partilhar um idioma, estar em perfeita sintonia cultural.

A recente acusação de racismo de um anúncio do azeite Gallo no Brasil, despoletada por uma colunista da Folha de São Paulo e que deverá vir a ser avaliada pelo organismo de auto-regulação da publicidade do Brasil (CONAR), chama a atenção para um facto que é muitas vezes esquecido num mundo globalizado onde todos podemos e devemos falar uma mesma língua.

A ver se nos entendemos: falar uma mesma língua significa, mais que partilhar um idioma, estar em perfeita sintonia cultural com o local e o momento. Falar uma mesma língua implica ter sensibilidade para as idiossincrasias do meio ambiente comunicacional, seja ele institucional ou pessoal, implique ele um cidadão ou um país inteiro. Falar uma mesma língua é antes de mais nada respeitar e compreender o outro.

O que aconteceu com o Gallo brasileiro, criado pela AlmapBBDO, uma das mais premiadas dos últimos anos, é uma infelicidade comunicacional. É a prova de que o humor é uma arma poderosa mas difícil de manusear, que quando usada sem bom senso provoca danos colaterais e, no mínimo, um sorriso amarelo numa marca que nos habituou, pelo menos desde 1989, a alguns dos mais belos spots publicitários da portugalidade anunciando, mais do que um azeite premiado, a nossa própria alma.

A Gallo é líder em Portugal, com 30% da quota do mercado, é a quinta maior marca mundial e vende para 47 países. Recentemente fez um restyling da sua imagem para estar mais perto dos consumidores contemporâneos, reinventando a tradição e propõe-se vir a ser a terceira maior marca mundial de azeite.

“Eu gosto muito de ouvir cantar a quem aprendeu, se houvera quem me ensinara quem aprendia era eu.”

Desde 1919.

Anúncios

6 thoughts on “Cantar de Gallo

  1. Realmente…de péssimo gosto a escolha das palavras nesse anúncio. E o que espanta são as tantas fases de aprovação que se deve passar dentro de uma agência desse porte, sem contar a anuência do cliente, para se chegar lá. é verdade que, independente da cor da pele do segurança, invariavelmente, o paletó é escuro, e consagrados são os M.I.B (man in black). Pode-se dizer que a maldade e o preconceito está nos olhos de quem lê, ou de quem vê. Mas é inegável o péssimo gosto desse anúncio. Talvez também um sinal dos tempos da concorrência do Azeite Gallo, que cá no Brasil, já não canta nem encanta como nos velhos tempos. e talvez assim foi buscar na estética e na embalagem consolo para o sabor que já náo carrega na alma, no conteúdo líquido dos olivais abençoados de Portugal. Talvez um retrato da sociedade brasileira e do governo atual: vivendo do marketing e do lucro imaginário. Lá de cima, o tombo é alto. Que o diga Portugal. Eduardo Petta

    • Boa análise, Eduardo.
      E incrível como tantos filtros ainda assim deixam passar.
      Concordo que o racismo estará mais na mente de quem lê, mas é exactamente essa que tem que ser a maior preocupação de um publicitário: a mente do consumidor.

  2. Pingback: CONAR Vai Julgar o Azeite Gallo | Aventar

  3. A página do FB do Publicitários Social Club (http://www.facebook.com/publicitariossc) pede às pessoas que se pronunciem sobre a existência ou não de racismo no anúncio. O primeiro comentário sugere: “é só trocar o “o segurança” por “a segurança”…já vão deixar de falar besteira.”
    Resolvido.

  4. Não foi a melhor publicidade da empresa. Não é sensato tentar evoluir a imagem comercial e perder, em simultâneo, a atenção e concentração deixando escapar algumas palavras mal direccionadas.

Os comentários estão fechados.