Palavras para quê. Palavras, para quê?

Um salto aqui, outro ali. A blogosfera portuguesa da comunicação dedica-se esta terça-feira à palavra jornalística. Ao que ela faz ao texto e ao texto que já existe nela.

O debate é-nos proposto por José Vítor Malheiros, nas páginas do jornal Público (reproduzido igualmente no blogue Versaletes), precisamente num dia em que, novamente, o jornalismo português se há-de fazer de muita dessa palavra jornalística cujo parto no seio do texto se fará na ausência da crítica. Põe-nos, pois, José Vítor Malheiros a pensar até que ponto será neutra a palavra que o jornalismo julga neutra e, por isso mesmo, usa como se fosse, de facto, neutra. Não se aperceberá o jornalismo (cujo acto fundamental deveria ser o acto reflexivo, isto é, o acto que se espelha a si mesmo para se poder objectivar antes de se produzir como objecto no visível) de que está a veicular o discurso do poder, a deitar-se no tear das diversas formas de dominação? Escreve Malheiros, a este propósito, num artigo que merece ser lido na íntegra por todos os que fazem ou querem vir a fazer vida do jornalismo:

“Uma grande parte da política passa por criar e tentar impor na arena social, na imprensa, no debate político, determinadas visões do mundo – determinadas narrativas – como bem sabem os mestres da propaganda. Mas essas narrativas são construídas por palavras e, quando determinados termos se impõem, há narrativas que se organizam quase naturalmente à sua volta.

Tomemos a “ajuda”. “Ajuda” é uma coisa boa. Todos gostamos de ajudar, todos gostamos de ser ajudados. Não é fácil criar uma narrativa onde o mau da fita é alguém que “ajuda”. Quem ajuda é, forçosamente, nosso amigo.

E como apareceu a expressão “ajuda financeira”? De facto, aquilo que designamos por “ajuda financeira” é, simplesmente, um empréstimo. E empréstimo é não só uma expressão mais correcta como mais neutra. Sabemos isso porque há empréstimos que nos aliviam e outros que nos entalam. É possível criar narrativas diferentes à volta da expressão “empréstimo”. Posso dizer “aquele empréstimo permitiu-lhe salvar a empresa” ou “o que o levou à falência foi aquele empréstimo”. Posso dizer que o “empréstimo negociado com a troika tem um juro usurário”, mas já não o posso dizer se lhe chamar “ajuda”. As palavras não deixam.

Um “resgate” também é uma coisa boa. Salva-nos. Não é possível dizer nada mau de quem nos resgata. E haverá coisa melhor que um “programa de assistência económica e financeira”? E será possível ser contra o rigor e a disciplina? Ou contra a “racionalização das empresas públicas de transportes”? E será que um “ajustamento estrutural” pode fazer outra coisa que não seja dar-nos mais solidez? Quem é que pode não gostar que as estruturas estejam ajustadas?”

 

Também Paulo Querido, no seu blogue Certamente! reflecte o assunto a partir de José Vítor Malheiros, revertendo, contudo, os termos da análise: aqui é já o texto produzido por um jornalismo que não percebe a partir de que texto se constrói, que emerge como problemático, elaborando, no fundo, um discurso afunilado que reproduz um espaço público de espectro reduzido:

“Ao longo das últimas três décadas assisti à erosão da preocupação com o léxico na comunicação social portuguesa, substituída gradualmente pela imposição de uma narrativa upper-class que só muito parcialmente assenta no crescimento das classes médias na maior parte desse período.

Perante o descomunal peso dessa construção no espaço mediático, diminuindo o espaço teoricamente disponível para outras narrativas menos alinhadas com o rumo preferido pelas classes poderosas, às vezes penso até que ponto está a narrativa upper-class justificada, ou se a justificação, sendo frouxa, não passa antes de um pretexto. Entretanto tornado regra entre os jornalistas e comentadores incumbentes por força da repetição.”

Leituras recomendadas, pois, num dia em que se hão-de ler números com palavras, sendo que, como o jornalismo deveria saber, nem o número, nem a palavra… são neutros. 

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