A quebra de interesse dos blogs políticos

Um dos mais famosos bloguistas nacionais, Pacheco Pereira, escreveu ontem um texto que me parece muito relevante sobre o que entende ser a quebra de interesse da blogosfera política nacional.
Diz Pacheco Pereira:
Há uma parte da chamada blogosfera nacional em que os blogues políticos tiveram e tem um papel central. Não é nada que não fosse previsível, dada a grande politização do espaço público, em que apenas o futebol, com outras características, ocupa um papel de relevo semelhante. Essa parte da blogosfera política está em profunda crise e explica por que os blogues políticos têm cada vez menos importância. Há várias razões para tal acontecer, e vou referir apenas três: a agenda dos blogues tornou-se a agenda comunicacional; os blogues tornaram-se espelhos miméticos dos partidos e fracções políticas, e os blogues são hoje uma “área de negócio”, quer em termos da gestão de carreiras individuais, principalmente no plano político, quer para agências de comunicação, marketing, etc., que actuam nesse meio para servirem os seus clientes. Tudo isso significa que os blogues políticos perderam independência, autonomia e transparência. São por isso menos interessantes, menos importantes e tem menos leitores.”

Mais relevante ainda parece ser algo que é dito quase ao fim do post:
Eu também tenho um blogue e deixo aos meus leitores o julgamento sobre em que medida se me aplicam as críticas que faço ao meio.

Se me parece correta a análise que aponta indicadores de cristalização dos blogs (e, nesse sentido, da sua adesão aos ritmos da nossa vida social) parece-me reconfortante a ideia de transparência e de abertura à discussão das fragilidades do próprio autor.
Esse é, aliás, um dos principais contributos que a blogosfera terá trazido ao nosso espaço comum de comunicação. Os blogs são espaços de deliberada fragilidade individual – os bons blogs; aqueles que, independentemente de concordarmos ou não com os seus autores, encaramos ainda como lugares com autonomia.

5 thoughts on “A quebra de interesse dos blogs políticos

  1. Apesar de nunca ter sido seguidor de blogs de política, nacional ou internacional, sigo imensos de tecnologias criativas. E isto é o que acontece nesta área também, não com todos, mas com uma parte significativa, e julgo que sintetizas o efeito muito bem como “cristalização dos blogs”.
    Existem várias nuances que levam a que isso aconteça. Fazer um blog bom, com conteúdo up to date, e fluxo contínuo é caro, é muito caro. Mesmo que seja feito a um nivel pessoal, implica um tal investimento de tempo, que obrigatoriamente obriga a roubar tempo de outras atividades. Por isso a alternativa de muitos, com o amadurecimento e a necessidade das empresas estarem mais próximas dos fluxos online, passou por rentabilizar o blog. E isso gostemos ou não implicou concessões.
    A outra alternativa é fazer aquilo que julgo que o Pacheco Pereira faz, e outros bloggers menos conhecidos, nos quais me incluo, fazem, que é blogar como sempre blogámos. Falar do que nos apetece, quando nos apetece, não ter qualquer sistema de anúncios, nem aceitar servir de meio de divulgação de terceiros. No fundo não ter uma agenda.
    A única agenda possível para um blog, na minha opinião, pode apenas ser aquilo que nos dá puro prazer. Ainda acredito nos blogs enquanto tal, não como uma montra de divulgação e rentabilização, mas como um atividade criativa de partilha comunitária, que dá prazer a quem faz e a quem recebe, e que isso gera discussão, interacção, dentro e fora do blog.

  2. Pingback: Blogues políticos e mainstrean | Jornalismo e Comunicação

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  4. Caro Nelson,

    Naturalmente sou também mais adepto dessa segunda opção mas parece-me que o post do PP é certeiro porque sinaliza e nos obriga a refletir sobre esta mudança. Os blogs já não são, por defeito, algo à margem ‘do sistema’ – qualquer que ele seja. Só são se isso resultar de uma vontade expressa (em permanência, por atos e palavras) dos seus autores.

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