Novos mercados, novos negócios…

Recentemente, acontecimentos estranhos (no mínimo estranhos) têm redimensionado (para não dizer virado de pernas para o ar) aquilo que é a concepção de fazer ciência. De fazer ciência com dignidade, com mérito transparente. E isto porque parece estar a surgir um novo negócio, extremamente lucrativo e engenhoso… Falo das publicações PAGAS em revistas científicas internacionais…

Tem sido prática, pelo menos de forma mais visível nos últimos meses, o editor da revista congratular o autor pela aceitação da publicação e anexar na simpática mensagem o formulário com a revisão de pares e com os devidos comentários (em pinceladas muito largas, diga-se, uns “peer review comments” muito genéricos) para enriquecer o texto para publicação. Ora, acontece que à 3ª ou 4ª mensagem de correio electrónico trocada lá vem o SE. No caso, o pagamento de uma certa quantia monetária por cada página do artigo…  Assim: “The flat price is $50 US dollar per page”. Por página, a multiplicar por cerca de 20 páginas, a dividir pelo número de autores… Ah, então afinal até parece que nem dá muito a cada um! Ironia, claro está.

Falo da David Publishing Company, mais concretamente da revista Journalism and Mass Communication, mas apenas com o objectivo de ilustrar o que parece ser um novo negócio neste mercado das ideias e de o usar como mote para a discussão. A “ciência sem consciência” de que fala Rabelais parece encontrar aqui um excelente porto de abrigo.

Um negócio no mercado das ideias e uma reformulação da noção de ciência estão, assim, na base de estratégias como esta. Um novo modelo de negócio, dirão!

Mas este exemplo não termina aqui. Após pesquisa sobre as características da revista (indexação, factor de impacto, etc…), descobrem-se na blogosfera diversas críticas e relatos de más experiências com a revista ou com a editora (aqui, aqui ou aqui). Descobre-se, ainda, que há já quem discuta o assunto (nomeadamente aqui e aqui) e há inclusivamente listas daquilo a que chamam “Predatory Open-Access Publishers” e comentários que se referem a esta prática como um acto fraudulento (como aqui, aqui, aqui ou aqui). Estas referências são das mais variadas áreas científicas, não apenas das Ciências Sociais, o que denota alguma sensibilidade para o assunto e uma reacção por parte da comunidade científica.

Segue novo e-mail da parte dos autores. “Obrigada pela oportunidade mas a decisão é pela não publicação”… E eis que a resposta é inédita! Já passam a prescindir do pagamento da dita “fee” e acrescentam:

Maybe there is a misunderstanding.
Our editors, reviewers and authors are from all over the world,
and we try our best to provide a platform for experts and scholars
worldwide to exchange their latest findings.
However,to be honest, our journal just began,
it is very new and there is no sponsor for us,
so we have to charge some fees to run our journal.
Please understand that and support us. Thanks a million!

Milhões – e milhões de tudo, não apenas de dólares  – são o que estará em causa em situações como esta, nas quais se inverte completamente o processo produtivo… Em que se pede o pagamento de quantias para publicar trabalho digno e esforçado, em que não se sabe bem que implicações terá isso… Será bom? Será mau? Um novo modelo de negócio? Válido não é de certeza, a meu ver. Pelo menos não nestes moldes.

A rede que nos liga…e nos anestesia

No início da década de 70 do século passado, Gil Scott-Heron (desaparecido em 2011), por muito considerado o ‘pai do Rap’, dizia-nos num poderoso poema que a revolução não passaria na televisão…ela aconteceria ao vivo.

Excerto:
You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.”

O texto insurgia-se contra uma TV conservadora, em conluio com o sistema político e alheia aos sérios problemas que enfrentava a comunidade negra nos Estados Unidos.

Mais de 40 anos depois verificamos que tudo (o real e o simulado, como dizia ontem o Luís Miguel Loureiro) parece acontecer ao vivo.
E, naturalmente, com consequências.
Vale a pena perder cinco minutos com a apropriação/adaptação que Ronnie Butler Jr. (o homem que já nos tinha dado em 2010 um outro brilhante momento) faz do poema de Heron.

Political decison making: o caso da TDT e as futuras decisões governamentais

Num sistema democrático, se a população estiver desunida acaba por ser o elo mais fraco. E um dos fatores cruciais para a desmobilização popular é a falta de informação. Portanto, governos e órgãos públicos apressam-se em impedir que as pessoas sejam devidamente conscientizadas, quando estes tomam decisões que afetam negativamente os cidadãos.

Num modelo racional e analítico, os objetivos seriam claros e precisos, mas na política as metas são ambíguas, pois há interesses que não são explícitos. Os grupos mais fortes fazem com que suas alternativas preferidas pareçam ser as únicas vias possíveis, e usam estratégias retóricas, como discursos tecnicistas, para tentar desviar a atenção da opinião pública e não despertar críticas da oposição. Em geral, os mais fortes são os que detêm o poder económico, e que acabam por submeter outros poderes.

Deborah Stone, Doutora em Ciência Política pela Universidade de Massachusetts, avalia que na construção das metas nos processos de decisão política há quatro desafios básicos: equidade, eficiência, segurança e liberdade.

A equidade significa a necessidade de haver decisões justas, que distribuam da forma mais adequada os recursos disponíveis. A eficiência pode ser vista sob diversos ângulos. Escolhas eficientes resultam em grandes benefícios por meio da alocação adequada dos recursos existentes. A segurança envolve a garantia de serviços de saúde, alimentação, emprego, equilíbrio na indústria, etc. No caso da liberdade, o maior dilema é: quando o poder público pode interferir legitimamente na vida dos cidadãos, com suas escolhas e atividades?

A observação desses quatro pontos é uma fórmula que pode medir a eficiência dos governos, agentes políticos e órgãos públicos.

O modelo da TDT portuguesa esteve em foco durante os últimos dias e foi muito criticado a partir do momento em que a RTP informou devidamente à população sobre o tema, tornando-se a locomotiva dos demais meios de comunicação. O caso teve uma grande repercussão porque havia um desequilíbrio democrático, onde decisões que afetavam a vida de todo o país haviam sido tomadas sem a devida participação popular.

Portanto, o elo mais fraco, desunido e desinformado, não pôde reivindicar uma decisão mais equânime em relação ao novo modelo televisivo que Portugal está a implementar. Foi este o hiato político que os meios de comunicação preencheram, cumprindo o papel de vigilantes da sociedade. Se o governo não reagir, o modelo continuará desequilibrado e ficará claro que a estratégia dos grupos mais fortes, que excluiu a população do debate, foi eficiente. Se reagir, demonstrará que busca ser mais justo, em termos democráticos. Vamos aguardar.

Quase, quase jornalismo

Deverá estar amanhã nas bancas a segunda edição da revista do Expresso depois da sua mais recente mudança.

Correndo o risco de falar ainda ‘a quente’ diria que – a julgar pelo exemplar a que tivemos acesso na semana passada – estamos em presença de um produto informativo cuja razão de ser está cada vez mais distante do jornalismo e cada vez mais próxima dos universos da comunicação institucional e da publicidade.

É fácil perceber porque isto sucede – o mercado publicitário está em quebra e o grupo Impresa vive também momentos de fragilidade. A solução passa, aparentemente, por reformular um produto com preços de tabela altos (em termos nacionais) por forma a apelar a mais anunciantes, no maior número possível de segmentos. Sendo um produto-associado, a revista procura deliberadamente terrenos publicitários para além daqueles abrangidos pelos cadernos principal e de economia e ‘joga’ nos anunciantes que querem chegar a um público interessado numa versão upmarket da Caras.

Uma observação muito rápida do que nos foi oferecido permite anotar a presença de seis textos de opinião, cinco segmentos com algo que poderia ser designado como notas breves, outros cinco com citações / excertos / inquéritos, dois trabalhos de perfil, uma pré-publicação de um livro, três entrevistas (sendo que uma delas é com um famoso ator de cinema, sobre um filme que, páginas antes, aparece publicitado), dois (se adotarmos um entendimento lato do género) espaços de reportagem – um em que se promete ter um ‘intruso’ (anónimo) em festas, vernissages e happenings e um outro em que se leva alguém (famoso, presume-se) a uma passeata e disso se dá conta – e pelo menos sete áreas autónomas de divulgação e sugestão de produtos (desde os vinhos, às roupas em saldo, à dança de varão).

No video de apresentação da nova aposta do Expresso a editora, Mafalda Anjos, prometia, de facto, “mais energia positiva, mais otimismo“, num “produto mais leve” em que se notaria um “reforço de toda a componente de serviços“.

Há, neste exemplo, indicações que podem ser úteis para discutir o atual estado da imprensa em Portugal:

– A relação – sempre sensível e instável – entre os interesses jornalísticos e os interesses das áreas ligadas ao marketing e à publicidade na empresa  é tendencialmente menos de equilíbrio e mais de subjugação;

– A importação para o papel de lógicas de organização dos temas, do espaço gráfico e da própria escrita da internet – não estando ainda provado em lado algum do planeta que tenham funcionado – acrescenta complexidade e arrisca-se a tornar o produto físico ainda mais redundante;

– As opções estratégicas parecem basear-se nas ideias que, noutros mercados e há já mais tempo, levaram muitas publicações a um definhamento agoniante; dá-se às audiências cada vez menos – levezinho, fresquinho, ‘micro-formatos’, como diz a editora – presumindo que isso aumenta os níveis de fidelidade (lembra a história do burro que estava quase, quase a habituar-se a não comer…);

– As opções estratégicas parecem estar ancoradas na ideia de que, no essencial, o jornalismo é aborrecido; conseguimos tolerá-lo mas em doses reduzidas, tão depuradas, tão estilizadas, tão bem paginadas que se confundem facilmente com a ‘energia positiva’.

O Expresso não é – longe disso – caso único, mas sinaliza o domínio absoluto de uma tendência de gestão muito limitada e sem horizontes que está a marcar, de forma decisiva, o jornalismo nacional.

Dir-se-á, com razão, “quando até o Expresso”…