Crí(p)tica da ‘razão técnica’

(reflexões soltas a propósito da aparente complexidade, por vezes altamente críptica, da conversa dos “ratings”, dos debates da finança e da economia, ou da fuga tecnicamente assistida à explicação de casos como a TDT[1], ou seja, dos inúmeros episódios de comunicação contemporânea no espaço público que surgem codificados e, aí, ocultos sob a iluminação intensa de argumentos e “razões técnicas” que, na prática, ao ofuscarem e prenderem o olhar imediato, afastam a cidadania do centro do debate democrático assegurando modos exclusivistas de controlo do espaço comunicacional)

Parar é morrer.

Quem não aparece esquece.

Toda a nossa existência parece ser, hoje mais que nunca, sobre o constante refinamento dessa ligação: a luz e o movimento. Intensos. Perpétuos. O mundo e a vida, sem eles, correm o risco do desabamento numa fatal falha de sentido.

Desde a alvorada moderna, com os seus preparativos renascentistas, que aprendemos a conhecer o poder da luz óptica sobre os corpos terrestres. Começámos a negar a luz como exclusivo do divino, trouxemo-la para o meio de nós, para onde as coisas se vêem, de facto. Ver é crer. Ver é conhecer.

A ciência, e o primado da observação e da sua consequente verificação, constituem a prova desse poder massivo da luz óptica. Foi a luz que iluminou os corpos (terrestres e celestes) e, neles, começou a revelar a sua “mathesis” universal, o seu rigor, numa relação das formas com as fórmulas, afinal, o conteúdo matemático da vida que se constituirá como nova relação mística. Recuperaram-se os antigos, renasceu o teatro, e a luz, sempre, em todo o lado. A alvorada moderna fez passado das trevas medievas e lançou o mundo na promessa radiosa de um dia interminável.

Parece óbvio que, com a revelação óptica da luz, só podia vir mesmo o movimento, a seguir. Prometido, primeiro, como liberdade, como revolução. O livre movimento dos corpos, nesse intenso iluminismo dos tempos: a razão universal do indivisível indivíduo emancipado. Concretizado, finalmente, como confinamento dissimulado pela intensificação do movimento, isto é, como inapercebido controlo, razão técnica imediata que se apresenta ao movimento acelerado dos corpos que tudo vêem mas já nada compreendem. Razão técnica que há-de ser sempre uma, uma nova e inesperada, na miríade das razões técnicas.

Perdoe-nos Kant a ousadia da glosa, mas é de um mergulho críptico, de uma crítica da críptica ‘razão técnica’, que hoje necessitamos, sob pena de nos deixarmos levar na acelerada onda cinética. Perdidos num caleidoscópio de sombras sem sombra.

A luz forte que ilumina o movimento e a mobilização dos corpos tornou o visível insuportável, ofuscante. O filósofo francês Paul Virilio descreve-o como um campo de batalha e tem razão. A questão é que é do mais perigoso e traiçoeiro dos campos de batalha que se trata. O campo de batalha do visível faz da visibilidade a mais valiosa das suas mercadorias. Quem não aparece, esquece. Contudo, o “aparecer”, hoje, só se torna possível para corpos em movimento intenso e é aí que reside a sua armadilha. A sobrevivência, na guerra contemporânea está, mais do que nunca, relacionada não com o movimento em si, mas com a dissimulação. O “aparecer”, para o combatente, pode ser fatal se for um “aparecer congelado”, se se contiver numa imobilização. Por isso, ele esconde-se no avião furtivo, desaparece do radar comum usando o artifício técnico. O que “aparece” são apenas os seus efeitos. Quando ataca, já não está lá. A sobrevivência está, assim, relacionada com a capacidade rara de aparecer sem ser visto, sem ser detectado, a capacidade que cada combatente tiver de atacar sem nunca se deixar imobilizar. Parar é morrer. Assim, o “aparecer” é, hoje, um acto bélico, de um contra os outros. Ganha a guerra quem detiver a exclusiva chave da encriptação, quem possuir o restrito código de acesso à mensagem, quem se souber esquivar para lá da cortina técnica.

E o visível, já não será mais que um perigoso campo de batalha: intensamente iluminado, ofuscante e potencialmente paralisante. No campo de batalha, já ninguém é livre, e todo o movimento dos corpos é perseguido, controlado, rastreado e, potencialmente, tecnicamente anulado.

Percebe-se, pois, a importância de aprendermos a perscrutar o escuro da nossa contemporaneidade, tal como outro filósofo, o italiano Giorgio Agamben, escreve nas suas obras mais recentes. Afinal, é nesse imenso espaço onde o visível óptico não consegue chegar que as estratégias de ataque realmente se desenham. Será esse, porventura, o papel que resta a uma ciência da comunicação que se queira capaz de intervir no social em que está envolta. Será esse o papel que estamos intimados a assumir a cada tentativa de denúncia crí(p)tica que aqui nos propusermos fazer.


[1] Sobre este último tema, sugiro (re)leitura do excelente artigo escrito para este blogue por Sérgio Denicoli.

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