Perplexidade em torno de uma recusa

Esclareçamos, desde o início dois pontos: há vários nomes capazes de exercer o cargo de provedor do telespectador da RTP e a votação em urna fechada da proposta do nome de Felisbela Lopes, apresentado pelo Conselho de Administração da RTP ao Conselho de Opinião não pode ser questionado na sua legitimidade.
Mas, dito isto, é-nos permitido -e diria até que exigido – a nós, cidadãos e observadores do que se passa, que demos conta das nossas perplexidades.
Não é fácil encontrar alguém com o currículo de Felisbela Lopes, naquilo que o cargo exige: conhecimento profundo do meio televisivo, experiência dos estúdios, capacidade de comunicar, defesa do serviço público, coerência e princípios éticos na actuação.
Estamos, pois, expectantes, relativamente à justificação que o Conselho de Opinião da RTP vai apresentar (se é que ainda não apresentou).
Motivos que vieram a público, alegadamente assumidos por alguns conselheiros, ridicularizariam o Conselho, se acaso viessem a sustentar a posição maioritária negativa adoptada por aquele órgão. Não faz sentido, tanto quanto vejo, dizer-se que a pessoa proposta não teria a maturidade suficiente para ‘afrontar’ a administração, na medida em que os interlocutores das matérias com que lida o provedor ou provedora são, antes de mais, os directores de informação e de programação.
Muito mais grave é a sugestão de que o argumento da idade possa ter, de qualquer modo, pesado na decisão. Tal argumento, além de grosseiro e injusto, é completamente ilegal. Indo por aí, só faltaria acrescentar que se trata de uma mulher e que, além do mais, vem do Norte – de Braga, para cúmulo.
Aguardemos pelos desenvolvimentos deste caso estranho (pelo menos até se conhecer a fundamentação da posição negativa do Conselho de Opinião). Seria lamentável que, depois do trabalho de qualidade do Prof. Paquete de Oliveira, enquanto primeiro provedor do telespectador, assistíssemos agora, na escolha do seu sucessor, a qualquer tipo de politização do cargo ou à adopção de vias e de lógicas que não sejam as da transparência e da competência.

8 thoughts on “Perplexidade em torno de uma recusa

  1. Pingback: Memória Virtual | “Perplexidade em torno de uma recusa” (Felisbela Lopes)

  2. Fica bem, certamente. Obrigado por o lembrar.
    Para quem não sabe, Felisbela Lopes é um dos membros da equipa deste blog, como se pode ler na página “quem somos” e é professora e investigadora da Universidade do Minho, onde exerce, presentemente o cargo de pró-reitora.
    No que a mim me diz respeito, acompanhei o trabalho científico de Felisbela Lopes desde meados dos anos 90, primeiro relativamente à sua tese de mestrado, sobre o Telejornal e o serviço público, e, depois, quanto à sua tese de doutoramento, sobre os programas de grande informação nos canais televisivos generalistas.

  3. Quem esteve atento a igual processo no que toca ao Provedor do Ouvinte, da RDP, já não pode estranhar decisões do género do Conselho de Opinião.
    Também aí houve uma (sempre delicada) recusa. Também aí baseada em critérios que… não o são.

  4. …e continuamos todos à espera da fundamentação concreta para tão bizarra decisão.

    Ja passou cerca de uma semana e o parecer ainda não saíu (pelo menos, não está disponível no site espaço institucional do Conselho de Opinião).

    Será assim tão difícil dizer que uma mulher, jovem, de fora da capital, não tem as convenientes competências?

  5. Concordo com o Luís Santos. A perplexidade mantém-se. Até porque se a administração da RTP decidiu levar o caso a tribunal há-de ter fundamentação jurídica que o justifique… digo eu.
    O que receio é que, com isto, se gere um desnecessário vazio num lugar que o prof. Paquete de Oliveira demonstrou, pela seu exercício competente e isento, que é um lugar necessário.
    Já agora, só mais uma nota, que se soma e reforça aquelas que já foram referidas no post pelo prof. Manuel Pinto: a prof.ª Felisbela Lopes, de quem sou amigo e orientando, vem centrando, cada vez mais, uma boa parte das suas preocupações de investigação na integração da cidadania no ecrã televisivo, tendo promovido mesmo a criação de um grupo dedicado a esta matéria no CECS, que já está em funcionamento. Mais um motivo, se quiserem, para que esta perplexidade não tenha limites, para que não se perceba mesmo como é que alguma análise de tipo curricular tenha estado na origem do voto do CO da RTP.

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