Perplexidade em torno de uma recusa

Esclareçamos, desde o início dois pontos: há vários nomes capazes de exercer o cargo de provedor do telespectador da RTP e a votação em urna fechada da proposta do nome de Felisbela Lopes, apresentado pelo Conselho de Administração da RTP ao Conselho de Opinião não pode ser questionado na sua legitimidade.
Mas, dito isto, é-nos permitido -e diria até que exigido – a nós, cidadãos e observadores do que se passa, que demos conta das nossas perplexidades.
Não é fácil encontrar alguém com o currículo de Felisbela Lopes, naquilo que o cargo exige: conhecimento profundo do meio televisivo, experiência dos estúdios, capacidade de comunicar, defesa do serviço público, coerência e princípios éticos na actuação.
Estamos, pois, expectantes, relativamente à justificação que o Conselho de Opinião da RTP vai apresentar (se é que ainda não apresentou).
Motivos que vieram a público, alegadamente assumidos por alguns conselheiros, ridicularizariam o Conselho, se acaso viessem a sustentar a posição maioritária negativa adoptada por aquele órgão. Não faz sentido, tanto quanto vejo, dizer-se que a pessoa proposta não teria a maturidade suficiente para ‘afrontar’ a administração, na medida em que os interlocutores das matérias com que lida o provedor ou provedora são, antes de mais, os directores de informação e de programação.
Muito mais grave é a sugestão de que o argumento da idade possa ter, de qualquer modo, pesado na decisão. Tal argumento, além de grosseiro e injusto, é completamente ilegal. Indo por aí, só faltaria acrescentar que se trata de uma mulher e que, além do mais, vem do Norte – de Braga, para cúmulo.
Aguardemos pelos desenvolvimentos deste caso estranho (pelo menos até se conhecer a fundamentação da posição negativa do Conselho de Opinião). Seria lamentável que, depois do trabalho de qualidade do Prof. Paquete de Oliveira, enquanto primeiro provedor do telespectador, assistíssemos agora, na escolha do seu sucessor, a qualquer tipo de politização do cargo ou à adopção de vias e de lógicas que não sejam as da transparência e da competência.