Ler a complexidade do mundo

Em momento de aniversário, o Público renova a aposta na figura do Provedor do Leitor. José Queirós, que ontem publicou a sua primeira crónica, definiu como traço distintivo do jornalismo de qualidade “a capacidade de descodificar, com honestidade e competência, as opacidades e complexidades do mundo em que vivemos, para que cada um de nós possa, com mais conhecimento, formar a sua própria opinião de cidadão livre”.
Oxalá o Público – e, como ele, outros media que querem fazer jornalismo de qualidade – persiga sem cedências tal objectivo. Na verdade, a quantidade de informação circulante, o emaranhado das situações a que ela se reporta e o desguarnecimento da maior parte de nós para a avaliar e filtrar tornam esse trabalho de ajudar a interpretar o mundo uma das missões mais nobres e necessárias do jornalismo, nos nossos dias.
Ao surgir, em 1990, o Público introduziu uma respiração nova na imprensa portuguesa. E, em geral, a trajectória feita não desmerece dos propósitos de rigor e inovação iniciais, ainda que o ar fresco inicial tenha perdido, em mais de uma ocasião, o seu vigor. Mas é justo sublinhar o quanto de positivo o jornal nos deu e desejar que melhore sempre o seu modo de fazer jornalismo.
Há dois aspectos, nestas duas décadas de vida, que não foram devidamente evidenciados.
O primeiro refere-se ao facto de o jornal se acantonar numa elite política, económica e cultural e quase nunca ter conseguido afirmar-se como negócio rentável. Isto significa que, salvaguardado o que pode depender da crise geral da imprensa e das opções quotidianas do próprio diário, a sociedade portuguesa não se tem revelado capaz de alimentar e fazer crescer um projecto como o Público.
O segundo aspecto refere-se ao programa “Público na Escola”, que faz também agora 20 anos e que é já o mais persistente caso de aposta na Educação para os Media por parte de um meio de comunicação social português. Apoia iniciativas das escolas que promovem a relação crítica e esclarecida dos alunos com a informação de actualidade. Ou seja, procura ajudar a promover “a capacidade de descodificar, com honestidade e competência, as opacidades e complexidades do mundo” – tarefa em que os media de qualidade e as escolas se deveriam encontrar de mãos dadas.

[Texto publicado na edição de 8.3.2010 do Página 1]