Jornalismo e liberdade – Murdoch dixit

O texto de opinião que o magnate global do sector dos media Rupert Murdoch assina hoje no The Wall Street Journal, intitulado “Jornalism and Freedom” merece ser lido e estudando com atenção.
Por formação, gosto de ler e de acompanhar ideias bem argumentadas mesmo (ou sobretudo) quando são diferentes das minhas. Há sempre algo (às vezes, muito) que se aprende adoptando esse tipo de abordagem.
Ao contrário do que a frase do artigo destacada dá a entender – “Government assistance is a greater threat to the press than any new technology” – as opiniões de Murdoch vão para lá do problema dos subsídios estatais aos media e retomam posições veementemente defendidas nas últimas semanas relativamente ao modo de enfrentar a crise dos media jornalísticos e, em certa medida, da crise do próprio jornalismo.
Duas notas breves, a propósito:
1. Aparentemente a razão primeira da crise dos meios jornalísticos estaria em que não dão às pessoas aquilo que elas querem. Sublinha o auto que visitou inúmeros jornais cheios de prémios nas paredes mas com a circulação a cair a pique e isto porque os respectivos editores se esqueceram dos clientes e passaram a escrever e publicar para si mesmos.
A bem dizer, este argumento não é novo. Mas quando esperávamos que o autor abrisse uma nesga de solução para este problema, ele avança com os gadgets através dos quais os cidadãos acedem cada vez mais às notícias, nomeadamente os portáteis. Ora isto, se bem leio, não tem que ver com as notícias que interessam ou não, mas com o modo como a elas se acede.
Ou talvez não. Visto que a tecnologia através da qual lemos as notícias também pode ser altamente condicionadora do tipo de notícias que lemos.
Ora o articulista passa, neste ponto, para aquilo que designa por “qualidade do jornalismo”. E que entende ele por tal conceito? Nada diz, a não ser que “no futuro, o bom jornalismo dependerá da capacidade das instituições jornalísticas de atrairem clientes, proporcionando-lhes notícias e informação pelas quais eles estejam dispostos a pagar”. Percebo que esse seja o ponto de vista e a preocupação de Murdoch. Mas confesso não ver muito bem onde fica, neste cenário, a preocupação com a qualidade.

2. O que o autor escreve sobre o papel regulador do Estado também se percebe bem. Em resumo, entende Murdoch que os apoios que os governos (ele alude, no caso, aos Estados Unidos da América) possam dar aos media jornalísticos se traduzirão em dependência do jornalismo face ao poder e, por conseguinte, numa limitação da liberdade de informação e, em última instância, da própria liberdade.
Em vez de ajudar, num tempo de crise excepcional e num momento de dificuldade extrema, um grande jornal a sobreviver, por exemplo, o Estado faria melhor em deixá-lo cair e, em contrapartida, limpar os escolhos que impedem o acréscimo de concentração dos media para aqueles que podem e querem crescer. Isto é que seria pautar a actuação por critérios do século XXI e não pelos do século passado, segundo o articulista. Contudo, bem vistas as coisas, a liberdade defendida por Murdoch é, afinal, a liberdade dos poderosos de se tornarem ainda mais fortes. À custa da crise, além do mais.
Para quem coloca um título tão grandiloquente e ambicioso ao seu artigo, esperava-se talvez um pouco mais de elevação e grandeza quanto aos horizontes da liberdade propugnada.
Ainda assim, o artigo merece ser lido e estudado.

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