“O país é Lisboa…”

Há quantos anos andamos (tantos de nós…) a tentar que isto não suceda!… Há quantos anos a tentar que os jornalistas de Lisboa não escrevam ou digam, em meios de comunicação NACIONAIS, que “logo à noite há um concerto no Coliseu” (qual Coliseu?… não há dois?…) ou que “está em obras a Avenida da Liberdade” (qual delas, se tantas há no país?…), ou que “o comércio esteve ontem aberto” quando foi apenas o de Lisboa que abriu! Mas não, isto não muda facilmente, são décadas e décadas de hábito de falar de Lisboa como quem fala do país, um hábito que está dentro das cabeças e se tornou quase inconsciente. Mas jornalista não deve, não pode ser inconsciente. Então os melhores outlets “DO PAÍS” são, por curiosa coincidência, todos na capital e arredores?… Vale a pena espreitar esta notícia do “i” — e continuar para baixo, para os comentários. Vá lá que começa mais gente a chamar a atenção para isto…

ACTUALIZAÇÃO: Decerto por causa dos protestos dos leitores, o “i” corrigiu o seu título, embora sem informar sobre o assunto. É um dos problemas muito falados na publicação on-line: muda-se o que se escreveu antes e é como se nunca tivesse existido a versão original… Mas existiu. A prova aqui fica, com  a reprodução do ecrã que surgiu de manhã e a versão alterada (no título, não no texto)  já à tarde:

7 thoughts on ““O país é Lisboa…”

  1. O provincianismo de parte significativa dos jornalistas da capital é crónico, de facto. E esse continuado desconhecimento (e absoluta falta de interesse em conhecer) relativamente ao país em que, alegadamente, vivem e do qual, alegadamente, falam nas habituais generalizações é naturalmente um problema social mais profundo; não são apenas os jornalistas, não podem ser. Os novos jornalistas – como são muitos dos que o ‘i’ tem – parecem chegar já às redacções prontinhos para a ‘desconsideração geográfica’ e isso significa que a construção da ideia de Lisboa como, simultaneamente, centro e arredores de ‘toda a terra conhecida’ está generalizada a uma escala mais larga e mais profunda na nossa sociedade.
    Não é só ignorância.
    Não é só falta de profissionalismo.

    Numa nota à margem, a alteração dos textos online sem qualquer indicação explicativa é uma má prática profissional que descredibiliza quem nela insiste.
    Até podem já ter lido, mas certamente ainda não perceberam o alcance daquela frase do Gilmor: “Os nossos leitores sabem mais do que nós”.

  2. Por acaso li a notícia via twitter, e pois claro, prontamente fechei a janela, não me interessava.

    A relativismo de informação é tanto que temos que começar a olhar mais para este campo, quem me diz a mim que não passa de um post pago de Webmarketing?

    Tanta coisa envolvida que prefiro ignorar… e sim louvar quem com isto se importa! Obrigado pelo relato.

    Cumprimentos

  3. Acho que há também, por vezes, um provincianismo dos jornalistas do norte no que toca às notícias sobre o norte.
    Passo a dar um exemplo que me parece ilustrativo e actual:

    A possível troca da Red Bull Air Race para Lisboa – e a possível “colaboração” nessa troca de empresas onde o estado tem presença forte – teve honras de grande destaque na comunicação social. No mesmo dia as portagens em três SCUT’s, todas elas no norte, são assumidas pelo ministro.
    Por muito que tente empolar os possíveis benefícios da Red Bull Air Race para a região norte, fico bem mais preocupado com a introdução de portagens em três estradas que não gozam de alternativas credíveis, e que trarão encargos adicionais aos cidadãos de uma região onde o poder de compra sofreu, e muito, com a crise.
    Qual não é o meu espanto quando a questão da Red Bull Air Race merece chamada de capa e grande destaque na secção local do grande porto do jornal Público, e as declarações do ministro merecem um punhado de linhas num canto algures.
    Partindo do princípio que a secção local é feita por jornalistas da região, esta opção editorial revela, para mim, um feedback provincianista em relação ao provincianismo original, o da capital.

    Já agora um bitaite: porque não fazer uma reportagem sobre as razões para a Via do Infante continuar isenta de portagens e estas 3 não?

  4. Ora aqui está um tema que me incomoda semanalmente. Desculpem o tom de desabafo com que vou escrever – não há aqui qualquer guerra a Lisboa, de que até gosto bastante – e a provável extensão do comentário.

    O meu trabalho leva-me a deslocar-me todas as semanas a Lisboa e, muitas vezes, mais do que uma vez por semana. Na capital, encontro-me sempre com jornalistas e os 300km que acabei de fazer são sempre motivo de conversa, a pronúncia também (uns dizem que não tenho, outros detectam-na), o facto de eu já ter vivido em Lisboa idem… resumindo: fala-se sempre do Porto (ou “do Norte”) e da oposição Lisboa/Porto (não coloquei Lisboa primeiro inocentemente). E o que é que concluo, semana após semana, mês após mês, ano após ano? (Ainda por cima com as pérolas diárias, como esta do i, com que os jornalistas de Lisboa nos brindam.) Que o provincianismo é enorme na maioria dos lisboetas. E muitos nem são de Lisboa. Muitos são “adoptados” e de lá nunca mais saíram. Vejo o provincianismo dos lisboetas como o dos norte-americanos (dos EUA) em relação ao resto do mundo: não conhecem, não querem conhecer, não lhes interessa (a menos que seja para ir lá roubar petróleo… ou corridas de aviões). E o mais extraordinário de tudo isto é que, quando confronto os meus interlocutores com esta questão, eles não só assumem o provincianismo, como também o fazem de um modo inqualificavelmente descontraído e natural (no máximo soltam um “ah, é verdade, tenho de ir lá…”. Mas é tão longe, acrescento eu. E ainda por cima a subir, que chatice!). É a juíza de 35 anos que não vem ao Porto há mais de 20, é o empresário que contrata um braço direito no Porto para não ter de ir a Braga e a Guimarães tantas vezes como os parceiros vão à capital, é a jornalista que preferiu ficar no desemprego a vir para a redacção do Porto, «porque no Porto não se passa grande coisa», embora da zona só se lembre de ter aterrado no Aeroporto Francisco Sá Carneiro uma vez… e podia ficar a tarde toda nisto.

    Mas, atenção, os provincianos de Lisboa estão sempre prontos para viajar para outras capitais do provincianismo, como Nova Iorque, ou até para destinos que se aproveitam inteligentemente da bacoquice provinciana deles. Provincianos, provincianos, provincianos.

    E desculpem ter generalizado, porque em Lisboa nem todos são assim, tal como no Porto não é tudo sujo e feio, tal como nós não somos todos feios, mal educados e adeptos do F.C.P. como em Lisboa se julga, tal como em Viseu não falam todos “axim”, e por aí adiante.

    Infelizmente, para os que se espantam quando sabem que o meu clube não é o F.C.P., “o Norte” é muito longe (“do Norte” é tudo o que está depois das portagens de Alverca) e o país real está longe de mais.

    E, para terminar, Fernando Pessoa: «O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte do desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente com uma insubordinação inconsciente e feliz».

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