Ele há cada “coincidência”…

Já não é a primeira vez que para aqui trago exemplos de primeiras páginas de jornais desportivos muito semelhantes, ou mesmo iguais, chamando a atenção para o facto de os jornalistas da “tribo” fazer opções editoriais com base em raciocínios também eles muito semelhantes.

Ontem, porém, a coisa foi diferente e, salvo melhor opinião, não teve a ver com uma qualquer “deformação profissional” dos jornalistas mas, sim, com a facilidade com que critérios comerciais se sobrepõem aos editoriais. Ora repare-se:

A BOLA - 4.10.09

A BOLA - 4.10.09

RECORD - 4.10.09

RECORD - 4.10.09

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é espantosa a ‘coincidência’ de dois jornais desportivos terem escolhido, no mesmo dia, dar a primeira página a dois jogadores que são patrocinados pela marca de artigos desportivos Nike? E fazerem-no até com um enquadramento fotográfico muito semelhante?… E ambos com umas bens salientes chuteiras da marca?… E sem que, aparentemente, motivos da actualidade futebolística chamassem Ramires ou Matías para as manchetes da imprensa da especialidade?…

Falando claro: isto são duas notícias ou são dois anúncios comerciais mais ou menos disfarçados? E não poderão considerar-se publicidade enganosa, na medida em que deliberadamente confundem (lançando também a confusão nos leitores) espaço publicitário com espaço editorial?

(A propósito, ver Jugular e ver a edição impressa do DN de 5-10-09)).

9 thoughts on “Ele há cada “coincidência”…

  1. Tem tanto de lamentável como terá do que se poderia chamar em política de “real politics”: a premente necessidade de obter receitas parece, cada vez mais, sobrepor-se a tudo o resto…

    No caso dos jornais desportivos, as constantes 1ª páginas usando o nome / imagem do Benfica – mesmo, como tem acontecido com alguma frequência, em dias em que o FC Porto obtém importantes vitórias na Liga dos Campeões, que são relegadas para plano secundário em termos de destaque – são outro exemplo de opções meramente comerciais.

  2. Caro Joaquim Fidalgo, também fiquei “parvo” com tamanha “coincidência”. Duas manchetes disto? E chamam-lhe jornalismo?

    Só tenho pena é dos jornalistas que o fizeram. Das duas uma: ou o fizeram de livre vontade (e perderam a noção do essencial) ou a precariedade da actividade assim os terá forçado.

  3. Pingback: JORNALICES | Pedro Jerónimo com coisas (multi)media

  4. Product placement claro e com a agravante de se sobrepor claramente a qualquer interesse editorial.
    Este é sempre um tema muito interessante de analisar e estudar, o da fronteira entre a parte comercial e a parte editorial. Excelente post.

  5. Caro Pedro Jerónimo:
    Eu também tenho muita pena que os jornalistas sejam tantas vezes (e cada vez mais) colocados perante situações constrangedoras em termos empresariais, ‘obrigando-os’ a fazer coisas que têm mais a ver com publicidade comercial do que com jornalismo. E muitos deles, dada a precaridade do seu vínculo laboral, na prática não estão em reais condições de dizer “não” a essas ‘obrigações’ –ou subtis ‘sugestões’. No caso que aqui trouxe, entretanto, parece-me evidente que há uma responsabilidade de nível superior: em qualquer jornal, é habitualmente um elemento da Direcção Editorial que faz as opções de primeira página, e muito em especial da manchete. Portanto, é à Direcção Editorial da “Bola” e do “Record”, em termos muito directos, que deve ser apontado o dedo… Tanto quanto conheço do mundo dos jornais, onde passei muitos anos, nunca uma primeira página destas veria a luz do dia sem o conhecimento e a concordância explícita da sua Direcção…

    • Certíssimo. Este episódio recorda-me um trabalho de investigação que fiz sobre fotojornalismo, ao nível discursivo. O “jogo” de fotografias e palavras é sempre obra de editores e/ou outros elementos ligados à direcção editorial. No caso, é, como já aqui foi repetido, puro “product placement”. Como também já referi, com estes exemplos “o jornalismo fica mais pobre (e envergonhado).”

  6. Como é evidente, esta decisão passou por cima da direcção editorial dos jornais: o interesse comercial sobrepôs-se ao editorial.
    No entanto, diga-se, há cada vez mais jornalistas com “espírito de empresa”, no sentido comercial. Pelo menos tenho essa sensação, por via do contacto com a classe. Será, em parte, consequência do valor que têm hoje em dia os postos de trabalho (há, literalmente, mil cães a um osso). Mas tenho também notado, em especial nas televisões, que é preocupação das administrações e direcções imbuir os jornalistas do espírito de guerra das audiências…

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