Duas semanas para a história

Do ponto de vista do jornalismo, o que se passou em Portugal nas duas últimas semanas, ficará provavelmente como um marco histórico.
Ainda que os contornos da matéria em causa em torno do chamado caso das escutas aguardem ainda clarificações que se podem revelar decisivas para a análise do dossier, temos já sobre a mesa matéria de sobra para estudar e reflectir.
Como diz o provedor do leitor do Diário de Notícias, na sua coluna de ontem, não devemos cair no erro de considerar que este caso – e o comportamento de uma parte dos jornalistas nele assumido – representa o zénite da crise do jornalismo. É um facto que o jornalismo, pelo entrosamento e osmose com a sociedade, é ciclicamente afectado por casos problemáticos.
Mas não sigo Betencourt Resendes quando ele pretende reduzir a crise actual apenas ao efeito das tecnologias. Um sintoma que bem ilustra a situação: os resultados da investigação constante do livro de Vasco Ribeiro, acabado de lançar, segundo os quais dois terços da informação política dos nossos principais diários é, por assim dizer, agendada não pelos jornalistas mas pelas fontes, através dos sistemas profissionalizados de relações públicas, assessorias, spin doctors, etc.
Mas nesta mesma semana, em que o jornal Público esteve particularmente em foco, como ler declarações de Belmiro de Azevedo à SIC Notícias, defendendo que gostaria que o diário do grupo Sonae dê lucro e seja independente “com menos jornalistas e menos investigação”?
Não ouvi essas declarações, mas elas não foram desmentidas. É a primeira vez, que me lembre, que um alto responsável de um grupo de média defende que um jornalismo independente se pode fazer não só com menos jornalistas, mas também como menos investigação.
Uma matéria sobre a qual precisamos de continuar a reflectir.

Advertisements

4 thoughts on “Duas semanas para a história

  1. Pingback: Imprensa portuguesa estremece com revelação de fonte anônima « objETHOS

  2. São extraordinárias estas declarações de Belmiro de Azevedo.
    Eu, que sou assessor de comunicação, ando desejoso de ver o jornalismo ser feito sem jornalistas. Até já estou a pensar pedir uma avença ao senhor… e em agilizar o sistema de funcionamento do jornal, enviando os meus textos directamente para os paginadores.

    Já agora, só para clarificar a minha posição: para mim, o assessor disponibiliza informação e o jornalista aproveita-a ou não, tal como faz com aquela que lhe chega de outras formas e com a que ele próprio procura e investiga. A prioridade que atribui a cada uma das fontes depende, obviamente, do seu critério editorial (e do do próprio meio para o qual trabalha), pois deve ser com base nele que o jornalista deve destrinçar o trigo do joio.
    É evidente que o assessor pretende que o tema que promove tenha destaque mediático (depende disso o seu emprego), mas deve, defendo, ser capaz de perceber (e de fazer perceber ao respectivo patrão) que procurar resultados independentemente dos meios não originará, em última instância, bons resultados.
    Por outro lado, e não me alongando mais, também o jornalista (e que espaço melhor do que este para falarmos nisso?) deve ter uma formação que lhe permita – e que o leve a – fazer boas escolhas.

    Ainda assim, há assessoria e a assessoria. A primeira tem objectivos comerciais, económicos e/ou institucionais; a segunda é a assessoria política.

  3. O Sr. Belmiro de Azevedo é um senhor de negócios e não um jornalista. Portanto, já está visto de que matéria ele entende. É de se questionar, nesta altura, quão longe estão os jornais ditos de referência, dos panfletos gratuitos, que agora, muito raramente temos o prazer de ler por aí

Os comentários estão fechados.