Quando as fontes é que ‘mandam’ no jornalismo

Quase dois terços das notícias de política na imprensa diária são influenciadas por fontes interessadas e a esmagadora maioria sem qualquer referência a quem as veiculou. Esta parece ser a grande conclusão de um estudo de Vasco Ribeiro, docente da Universidade do Porto, que vai ser lançado quinta-feira na FNAC do Norteshopping, em Matosinhos.

Ainda sem ter lido o trabalho e, por conseguinte, desconhecer a consistência do estudo, não posso deixar de sublinhar a importância de uma investigação desta natureza que comprova e ilustra aquilo para que, há mais de uma década, o especialista luso-brasileiro Carlos Chaparro vem chamando a atenção: a “revolução das fontes” e o seu impacto no jornalismo.

De facto, muitos analistas foram, nos últimos cinquenta anos, chamando a atenção para os processos através dos quais os media jornalísticos influenciam a sociedade e a sua “agenda” de questões. Mas poucos têm sido os que olham um pouco mais a montante: os processos e a dimensão da influência de forças externas sobre a agenda das redacções. Este ponto de focagem é sem dúvida um dos mais relevantes para se compreender hoje o papel social do jornalismo – o modo como exerce (ou não) a mediação e a filtragem daquilo que, de formas cada vez mais sofisticadas, a ele chega.

A revolução das fontes consistiria, por conseguinte, nos processos de institucionalização e profissionalização de um trabalho a montante dos jornalistas, do qual um dos vectores mais salientes consiste em dar visibilidade aos interesses que essa actividade serve.

Ao contrário do que um juízo imediatista poderia fazer pensar, não se trata de identificar a “fonte da perversão e da maldade” que estaria a inquinar o jornalismo. Trata-se de reconhecer duas áreas de enorme incidência política e económica, cada qual configurando uma esfera específica e legítima de acção social, com a sua lógica e objectivos próprios. A ameaça e o desafio no facto de o jornalismo não se preparar adequadamente para esta nova situação e, pelo contrário, ter porventura criado as condições (redução de efectivos, precariedade, baixos salários, desigualdade) que permitem que seja a lógica das fontes a sobrepor-se à lógica do jornalismo.

É, por isso, com expectativa, que aguardo o livro que o DN de hoje anuncia.

One thought on “Quando as fontes é que ‘mandam’ no jornalismo

  1. De facto, a ingerência de fontes de informação nos meios de comunicação social tem transformado os media em meros divulgadores de informação, sublimando-se o conteúdo crítico e, porquê não, analítico, que os mesmos deveriam ter. Essa ascendência não acontece, infelizmente, só na política, mas também na saúde, como pude constatar na dissertação de mestrado que defendi na UMinho.

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