O Manifesto de que se fala

Um grupo de 15 jornalistas e bloggers alemães escreveu um manifesto que tem estado em foco nos últimos dias: apresenta 17 proposições em torno das novas formas de produção online, sustentando que não é com a defesa de velhos modelos que se fará o futuro.
O número de traduções  do Manifesto ronda já a dezena. Paulo Querido participou na versão portuguesa, que ficou com o título:

Manifesto Internet

Como o jornalismo funciona hoje. 17 constatações.
A este propósito, escreve um dos autores do Manifesto: Time to Take a Stance on the Future of Journalism

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7 thoughts on “O Manifesto de que se fala

  1. Se ao fim de uma década e meia de Internet, o Jornalismo ainda “comete” tantos “pecados” como aqueles de que é “acusado” no manifesto (daí as compulsões impositivas do “o jornalismo tem de” como se de um acto condenatório se tratasse e a tecnologia fosse o seu simultâneo juiz e executor) parece-me que há qualquer coisa que os autores não devem ter apanhado. Qualquer coisa que estão a falhar rotundamente na análise. Não deveriam, antes, iniciar outro nível de questionamento que poderia ser: depois de tanto se ter falado na revolução civilizacional que a tecnologia não cessa de prometer e da qual a Internet se constitui como mais recente avatar, porque é que subsiste esta estranha resistência? Porque é que o Jornalismo insiste em não se deixar aprisionar nas “desktops” virtuais e persiste na necessidade de prosseguir sua busca de mundo?

  2. Luís Miguel Loureiro, compreendo o que diz, e no entanto…

    O facto é que ao fim de década e meia (década e meia? Não será duas décadas? Para mim, pelo menos, é!) continua a haver equivocos. O facto é que ao fim década e meia continua a haver erros grosseiros. O facto é que ao fim de década e meia continua a haver contradições imperdoáveis…

    … e o pior é que tantas vezes eles vem de quem pensa que está tudo resolvido!

    A internet é uma nova realidade… TODOS OS DIAS!

    É que o meio tecnológico, ele próprio, é muito mais que um meio, e alterou (altera permanentemente) não só o jornalismo ou a forma de passar e aceder à informação, mas o próprio conceito e natureza da informação, o seu alcance e o seu contexto. Mas também alterou a natureza do próprio emissor e receptor.

    Ao fim de década e meia, e talvez por culpa de quem acha que tudo está resolvido (e não estou apenas a falar de jornalismo, porque a questão é MUITO mais vasta) tudo está cada vez mais no ponto zero.

    E o erro de tentar repor modelos que vieram de outras realidades é um erro eternamente repetido nessa década e meia.

    Nessa década e meia estamos hoje tão próximos de resolver a equação eternet como estamos de resolver o paradoxo do ovo e da galinha. E mal vamos quando não queremos ver isso.

    Subscrevo inteiramente o espirito e a letra do manifesto. Mas quem sou eu!…

  3. Pingback: O Manifesto de que se fala « Dreamfeel – Joao Ledo Fonseca

  4. Caro João Ledo Fonseca,
    Eu também compreendo os argumentos com que fundamenta a sua opinião, porque eu próprio os experimento e com eles me confronto no dia-a-dia profissional. Considero, contudo, que, podendo sentir-se, hoje, uma necessidade acelerada e induzida pela tecnologia de mudar o Jornalismo, tal não poderá ser feito à custa da perda de referências.
    Transformar os jornalistas em meros “distribuidores de conteúdo”, que serve certamente o discurso de quem pensa o Jornalismo a partir do paradigma económico no qual se insere a tecnologia, equivale àquilo que já há décadas referimos como, transformar os jornalistas em “pés-de-microfone”: os jornalistas sabem hoje, mais do que nunca, como a sua função pode ser facilmente esvaziada pelos acontecimentos “pret-a-porter”, já cozinhados pelas agências e especialistas em comunicação. Basta que se deixem enredar na teia do tempo imediato para que se tornem meros objectos de uso e abuso na comunicação. Penso, por isso, que a necessidade de uma mediação autêntica e bem executada é afirmada a cada passo em falso que o Jornalismo dá. Passos em falso que, curiosamente, se multiplicam ao ritmo a que se exige a mudança para um Jornalismo tecno-dominado, mero distribuidor do jogo da informação, já reparou? Se observar de um modo mais diacrónico e distante destas últimas duas décadas o que tem sido o Jornalismo reparará que sempre ele se confrontou com forças contrárias que o tentaram minar como mediador. E quando digo “mediador” digo sempre como “organizador de informação no sentido da aproximação à verdade dos factos”. Mais do que isso é política pura mas perigosamente disfarçada e um dos grandes erros que se vem cometendo nos tempos mais recentes em Portugal é precisamente esse (veja-se o excelente post de Joaquim Fidalgo sobre a polémica das escutas). É aqui, na capacidade e competência da mediação independente, que reside o saber específico do Jornalismo e a defesa de um espaço público capaz, crítico, logo, verdadeiramente democrático.
    Para mim, nada mais interessa. Se isto é feito com as ferramentas da Internet, do mobile journalism, ou da rotativa tradicional, pouco me importa. Importa é que continue a ser feito, e que se pense mais o Jornalismo como modo de apreensão e compreensão do mundo e menos como modo de produção que é, para mim, onde reside o grande erro que o remete ao tempo imediato e urgente de uma tecno-economia que continua a prometer-nos o salto para além do visível mas que nada mais nos faz do que mostrar-nos que, por muito que corramos, é sempre um comboio que vai a demasiada para ser constantemente apanhado.

  5. Luis Miguel Loureiro.

    Estou 100% de acordo, nos principios forma e conteúdos das suas preocupaçoes e afirmações. Mas o que não podemos esquecer é que há uma preocupação adicional, que não pode ser ignorada e que assume agora uma preponderancia extrema: é a da mudança absoluta do paradigma de jornalismo, induzida (entre outras circunstâncias) pela mudança tecnológica, cuja consequência é não só essa mas a de uma integral mudança civilizacional.

    E é face a essa mudança civilizacional, induzida pelas rupturas tecnológicas, que se dá a mudança de paradigma de jornalismo. Não só pela obsulescência dos principios raciocinios aplicáveis, quando baseados nos media anteriores à ruptura, mas também porque o jornalismo não pode ser mais que consequencia e reflexo da própria envolvente civilizacional (e ás razões para esta afirmação são várias, e poderiamos perder anos a discuti-las) e porque o destinatário do jornalismo (o público, afinal), ele próprio, mudou em ruptura também. Desenvolver esta ideia, seria também extremamente dificil aqui.

    E é assim que defendo que aquilo que poderá ser entendido como uma mera mudança ou imposição tecnológica, não é apenas isso mas sim uma mudança muito mais vasta (civilizacional, disse, em clara elipse) e que portanto nas últimas consequências impõe ao jornalismo muitas outras razões para ser repensado.

    Num pararelo talvez simplista, nenhuma das alterações tecnológicas anteriores alterou de forma significativa a profissão e industria musical (e salvaguardem-se as devidas diferenças) e as anteriores alterações tecnológicas (contra o que se foi dizendo, em cada uma) apenas acrescentou meios, em nada alterou o paradigma. A rádio, mataria os espectáculos ao vivo, o disco de vinil mataria a rádio, a televisão mataria ambos, o CD mataria a rádio e o espectáculo ao vivo, etc. Nada disso aconteceu. A industria adaptou-se com mais do mesmo…

    A internet “matou-os” a todos. E matou-os porque a industria insistiu em que, se as mudanças tecnológicas anteriores não tinham alterado significativamente os cenários, exigindo apenas pequenas adaptações, seria agora a mesma, a receita a aplicar. O que não entendeu foi que não estava apenas perante uma mudança tecnológica. Não o quão diferente e radical é a alteração com a internet. Não entendeu a profunda mudança das atitudes que internet induziu. Não entendeu a profunda mudança de referências que se desenvolveu na geração internet. O resultado foi o que se viu.

    No jornalismo está a ser o mesmo, e será o mesmo, se os próprios actores não entenderem: o cenário mudou radicalmente, muito mais radicalmente que qualquer mudança que tenha havido anteriormente; as atitudes mudaram, mas também a forma de entender o mundo e a informação. Uma mente internet não entende (ou não quer entender, pelo menos por agora) um mundo do jornalismo como o entende quem o fez na rádio, na televisão ou na imprensa.

    E repare-se finalmente que seria esperança vã que tecnologia parasse à nossa espera, ou que a tecnologia, ela própria, oferecesse soluções para as outras rupturas que induziu. A dificuldade, o erro e o problema não se encontra afinal na tecnologia que “promete”… “mas que nada mais faz que mostrar-nos que por muito que corramos é sempre um comboio que vai demasiado depressa”, mas em nós que não somos capazes de entender que a dificuldade reside em nós próprios que não nos adaptamos com suficiente rapidez.

    Não estou certo que as questões colocadas pelo “velho do Restelo” tenham feito algum sentido para a geração seguinte. Não fizeram com certeza!

  6. Caro João Ledo Fonseca,
    De facto, a nossa discussão está a atingir o cerne do que eu designaria o “ponto de vista”. Isto torna-a muito interessante, mas difícil de resumir numa simples caixa de comentários. O ponto de vista a partir do qual eu estou aqui a propôr uma leitura do problema nega qualquer perspectiva determinista. Não considero que a tecnologia determine, hegemonize ou se sobreponha às dinâmicas sociais, parece-me antes que a tecnologia fará parte do conjunto de condições e variáveis de influência e interacção nas quais o social se desenvolve, sendo que as dinâmicas nunca são de sentido único, mas penso que devem ser entendidas como fluxos de múltiplos sentidos. Se por um lado, é um facto que, como já foi notado por muitos, cultura e civilização se confundem cada vez mais (veja-se “Tecnopolia” de Neil Postman, ou os trabalhos anteriores de autores da escola crítica como Marcuse) e nessa confusão sobra o discurso económico-tecnológico como dominante e hegemónico, talvez porque a cultura, na sua suposta “democratização”, se tenha passado a situar sobre eixos meramente produtivos, logo, eixos que se situam sobre um “aqui” e “agora”, parece-me que o processo civilizacional (isto remete-nos para Norbert Elias, que também era avesso a determinismos) é mais vasto e tem de merecer uma leitura mais distanciada na qual, obviamente, a relação do humano com a técnica é um factor, mas deve ser visto de modo mais panorâmico. Por isso, compreenderá que tenda a evitar análises demasiado situadas no presente. Basicamente, aquilo que acho tem a ver com isto: tanto é natural que a tecnologia nos queira impôr o reinado do urgente e do efémero, como é natural o atrito e a fuga. A metáfora do comboio serve para explicar isto mesmo: desafio-o a, constantemente, tentar apanhar o comboio tecnológico. O que sentirá nessa permanente urgência, nessa correria louca? Ontem o McBook, o blog, hoje o Twitter, o iPhone e as suas mil funcionalidades eternamente subaproveitadas, amanhã o quê? Será que não é natural a tendência para a resistência e o atrito? Não será precisamente do cruzamento destas dinâmicas que estamos a produzir civilização?

  7. Concordo quase inteiramente com as suas afirmações e, afinal, o que acrescentei é apenas a chamada de atenção para um outro ponto de vista (que não é diverso, mas apenas complementar). Inteiramente de acordo com a afirmação de que o processo civilizacional é mais vasto. Nem poderia discordar.

    O que afirmo sem sombra de duvida é que a tecnologia é o motor das grandes rupturas civilizacionais, e podemos estar bem perto de uma, se não estivermos precisamente a assistir a ela. Ao longo da história da humanidade, foram pequenos/grandes saltos tecnológicos, que lançaram e foram substância das alterações de poderes (em sentido lato, incluindo os culturais) e os saltos civilizacionais, pequenos ou grandes. O ferro eliminou o bronze, a agricultura a recoleta, a construção criou a urbanização e fundou as civilizações do trabalho, a escrita estendeu a memória e tornou distintas as civilizações do crescente fértil, a moeda fundou o comércio e o mercantilismo (não no sentido doutrinário), o arco de pedra fundou um império, a imprensa refundou a cultura e criou o renascimento, a vela latina e o astrolábio atirou-nos para a Ásia e América, o vapor fundou um império Britânico, a electricidade o americano… sempre arrastando o social, o cultural e os poderes temporais.

    As comunicações como as vemos hoje e se desenvolverão num futuro próximo fundarão uma nova civilização mundial. Usamos nomes como globalização para eufemisticamente e genéricamente referirmos que houve rupturas civilizacionais que ainda não entendemos, mas que transferiram os poderes e funddaram novos impérios em detrimento dos anteriores. Só mais tarde entenderemos que foi uma mudança civilizacional, é certo. Como os Assirios não entenderam quando a sua janela na história chegou ao fim, ou o império Romano, Àrabe, Inglês ou Americano. Mas quase todas as mudanças foram lançadas por desenvolvimentos tecnológicos, e em todos os casos implicaram e implicam mudanças civilizacionais pela escala e impacto que provocam.

    No restante estamos de acordo, e subscrevo inteiramente quer os cuidados, quer as conclusões. Defendo apenas, portanto, que há mais aspectos a considerar que apenas a mera evolução tecnológica como um factor estranho, a que se deve resistir, mas sim como um factor que lança mudanças, que gera alterações profundas, que cria rupturas a que se deve estar atento. E a dimensão dessas mudanças pode mesmo ser civilizacional.

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