TVI: menos conjecturas e mais factos

A tempestade levantada a propósito da suspensão do Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes tem produzido muito ruído e não tem tido muita substância. Não faria mal algum esforço de reflexão (se é que isso interessa a alguém).

Esclareço antecipadamente dois ou três pontos:

  • Não gostava do jornal nacional das sextas. Em nome de valores que o jornalismo deve cultivar, como o de investigar, de confrontar, de “morder as canelas”, não pode valer tudo, torpedear regras básicas do mesmo jornalismo.
  • Tendo em conta o que é conhecido neste momento, considero muito grave – pela aparente intromissão na esfera editorial e pela oportunidade – a decisão da administração da TVI de cancelar o programa.
  • Já vi muita coisa para saber que todos os poderes – e o actual não é seguramente excepção – querem controlar a informação, mas que grave é quando se deixa de poder denunciar ou lutar contra tais tentativas.

Dito isto, ocorrem-me perguntas sobre as quais gostaria de ver mais análise e, sobretudo, mais factos:

  • A quem interessa uma decisão como aquela que foi tomada, no momento em que foi tomada? Ao PS? Ao PSD? À TVI? A outros partidos? A outros canais? Aos cidadãos, em geral?
  • A avaliar pelos elementos disponíveis, que objectivos procurou atingir, para além do óbvio de liquidar o programa semanal?
  • Como se explica que se continue a insistir com a colagem da PRISA ao governo socialista espanhol e, por essa via, ao português, quando é conhecido, há largos meses, que a situação se alterou profundamente e que se criou um fosso entre as duas partes?
  • Existem sinais de que os jornalistas da TVI sejam constrangidos para não continuarem a fazer o seu trabalho, de acordo com o profissionalismo que lhes é exigido, nos vários jornais de que dispõem diariamente?
  • Quais são os actos que podem ser invocados para comprovar a imputada pressão governamental para calar aquele Jornal Nacional?

Defender a continuidade ou a mudança de Governo, especialmente em período como aquele que Portugal vive é mais do que legítimo. Mas no que toca ao jornalismo, seria desejável que ele não se limitasse a ampliar o que dizem os contendores políticos. Que desse menos espaço ao ruído e à conjectura e mais à investigação e aos factos. Que averiguasse, como lhe compete, e que nos dissesse o que apurou e o que não conseguiu apurar. Afinal, é disso que todos nós precisamos.

2 thoughts on “TVI: menos conjecturas e mais factos

  1. Concordo, contudo quem deveria ter feito algo para silenciar o “programa” em causa por se auto-denominar “de informação” era a ERC, ou então qualquer outra entidade que regulasse seriamente os conteúdos ditos de “informação”.
    Fazer jornalismo desta forma e com a chancela da ERC faz-me recuar à “Guerra dos Mundos” de Orson Welles…

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