As imensas sobras dos jornais

Retomando uma curiosa tradição inaugurada por José António Saraiva n´O Sol, também o director do “i”, Martim Avilez de Figueiredo, decidiu fazer-se entrevistar para o seu próprio jornal (tendo até contratado uma estrela de fora, Mário Crespo, para se ocupar da tarefa), no dia – 7.9.09 – em que se comemorou a saída do nº 100 daquele diário. A entrevista tem algumas passagens muito interessantes, de que me permito salientar estas duas:

As vendas estão bem. O i tem de vender 12 mil exemplares em banca – é isso que achamos que valemos. Actualmente estamos a vender 9700 em banca, com uma subida. Vendemos 10 900 no primeiro mês, 7200 no segundo, 7400 no terceiro e 9100 no último mês. Isto são as vendas em banca. O que conta no mercado e que serve como padrão de comparação é a circulação paga, a maneira como fazemos circular o jornal: 12 753.

 

As sobras são grandes mas isso não tem só a ver com o problema da receptividade. Tem a ver com o drama da distribuição. Jornais com curvas de aprendizagem de 20/30 anos, como o “DN”, não conseguem trabalhar com sobras muito abaixo dos 50%. O “DE” não conseguia trabalhar com sobras abaixo dos 64%/68%. Nós estamos com sobras de 76,77%. Estamos ainda a aprender onde o i tem de estar para vender o que tem de vender

O director considera, assim, relativamente normal que o “i” esteja com quase 80 por cento de sobras. Ou seja, que tenha de imprimir diariamente quase 50 mil exemplares para conseguir vender 10 mil… E deitar ao lixo, todos os dias, 40 mil cópias…

A distribuição é, de facto, o grande “calcanhar de Aquiles” dos jornais portugueses, em termos empresariais. Nenhum escapa satisfatoriamente desta entorse.  Costumo dizer que se algum gestor conseguisse encontrar o segredo para uma distribuição mais eficiente de jornais no nosso pequeno mercado, diminuindo o desperdício diário das sobras para níveis aceitáveis, seria o empregado mais valioso e mais bem pago de qualquer empresa jornalística… Os jornais portugueses, em média, nunca conseguiram baixar a percentagem de sobras da casa dos 20-25 por cento (e o mesmo sucede com as revistas semanais), o que é um valor razoavelmente alto. Mesmo jornais como o Público, que é detido por um grupo económico especialista na área da distribuição (distribuição alimentar), nunca foram capazes de resolver aceitavelmente esta questão. Agora, passar de 20 ou 25 por cento para os supostos 50 por cento de sobras do DN, 64/68 por cento do DE ou 76,77 por cento do “i” (Martim Avilez “dixit”), vai uma diferença de todo o tamanho… Como é que se consegue viabilizar um  jornal com quatro exemplares diários para o lixo por cada um que se vende?… Também destes menos conhecidos dramas se faz a crise da imprensa portuguesa, castigada por um mercado muito pequeno, instável e fragmentado.

6 thoughts on “As imensas sobras dos jornais

  1. João Ledo Fonseca: Confesso que não sei o que é a lei de Pareto… Podia explicar-nos, por favor?
    Nélson: Admito que essa seja parte da resposta à crise da imprensa tradicional, mas, ainda assim, a ineficiência da distribuição dos jornais em Portugal continua a ser um problema. Isto no pressuposto de que os jornais em papel não vão acabar amanhã, claro…

  2. Joaquim concordo contigo nesse aspecto, aliás esta questão das sobras era algo que desconhecia por completo. Contudo acredito que aconteça em muitos outros ramos do mercado. Talvez o fim dessas sobras pudesse de algum modo baixar os custos de produção e assim facilitar o acesso web. Contudo acredito que em termos numéricos as sobras não represente um gasto tão importante como isso (exceptuo os 80% do i).

    Já sobre o papel acabar amanhã, não seria tão radical. Mas na verdade se há 5 anos me perguntassem a minha opinião sobre o papel, diria que teria uma longa vida. Mas esta minha opinião alterou-se muito drasticamente no último ano e meio. Os jornais em papel deverão durar mais uns 3 a 6 anos. A necessidade de um maior controlo de custos e o avanço tecnológico vão encarregar-se da tarefa. E julgo que a verdadeira ameaça nem sequer está nos Kindles, veja-se o novo da Asus, por uns meros 150 euros (http://technology.timesonline.co.uk/tol/news/tech_and_web/article6822723.ece). Mas o verdadeiro triturador dos jornais estará nos smartphones que permitem o acesso imediato à notícia, à informação, sem esperas, e em qualquer lugar. Permite acesso a uma noticia dinâmica, mais atractiva.
    Além disso o telemovel está sempre connosco em qualquer lugar, não preciso de ir ao kiosk, a informação vem até a mim e filtrada.

    • LOL… a lei de pareto é trivial e prosaico mas que, como todas as coisas simples ou misteriosas, se verifica aplicável em inumeros campos da nossa vida. A sua aplicação vai da socialogia à engenharia, da gestão à antropologia, da fisica nuclear, á economia.

      A Lei de Pareto (também conhecido como princípio 80-20), afirma que para muitos fenómenos, 80% das consequências advém de 20% das causas (e/ou vice-versa). A lei foi sugerida por Joseph M. Juran, que deu o nome em honra ao economista italiano Vilfredo Pareto.

      Qualquer gestor sabe que 80% dos seus lucros provêm apenas de 20% dos seus clientes, e que 80% dos seus problemas vêm apenas de 20% dos seus produtos. Mas qualquer engenheiro sabe que 80% dos custos de projecto vem de 20% dos aspectos da sua obra. E um fisico nuclear sabe que apenas de 20% dos seus ensaios vai obter 80% dos seus resultados.

      No fundo a lei de pareto diz que não adianta complicar: a origem da maioria dos problemas reside num numero muito pequeno de casos, a maioria dos resultados se obtêm se nos concentarmos em alguns aspectos mais importantes, e que ao fim e ao cabo não adianta trabalhar muito, mas sim escolher bem em que se trabalha… LOL… pensem o que quiserem, não quis dizer isso que estão a pensar!!!

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