Gripe A: os limites da informação

O Ministério da Saúde tem actuado com um cuidado extremo ao nível da gestão da informação no que diz respeito à gripe A. Em momentos particularmente sensíveis, tem havido conferências de imprensa ou a divulgação de comunicados que, e muito bem, têm também a função de neutralizar situações de pânico. A Direcção Geral de Saúde também tem demonstrado que está atenta e é actuante. Ontem, os media começaram a noticiar dois casos  de pessoas que, segundo os relatos jornalísticos, estavam internadas no Hospital S. João, em estado grave. Em declarações aos jornalistas, o Secretário de Estado da Saúde arriscou dizer que os pacientes corriam risco de vida. Mais tarde, em entrevista à RTP, Margarida Tavares, adjunta da direcção clínica pelo plano de contingência da gripe A, no Hospital S. João, confrontada com a questão de se saber qual o estado clínico destes pacientes,  recusou-se a responder de forma directa, argumentando que estava a falar de “doentes reais”.  Num contexto em que gradualmente surgem mais casos de gripe A, e consequentemente, casos mais graves, é urgente pensar naquilo que se deve, ou não, dizer em público acerca dos doentes. Porque o discurso das fontes acarreta consigo pessoas que têm o direito à privacidade . Hoje, no site do ‘Público’, até se escreve isto: “Um dos dois pacientes que estavam internados em estado grave no Hospital de S. João, no Porto, está curado”. A fonte que assume a informação é um médico do Hospital de S.João. No twitter, houve já algumas pessoas que me recordaram que o Secretário de Estado da Saúde também é médico. Tal como a Ministra que tutela este campo, poderia eu acrescentar. Mas não é nesse estatuto que esses interlocutores são ouvidos e, como ocupam lugares de relevo, o cuidado com a informação deve ser maior. Como tem sido neste passado recente. Haver um deslize não implica uma desvalorização do que tem sido feito, mas também não pode significar um esvaziamento da discussão destas questões. Pelo contrário. É preciso abrir este debate para que a comunicação que se desenvolve em público tenha cada vez menos ruído.

4 thoughts on “Gripe A: os limites da informação

  1. Gostava de deixar aqui uma observação: os media, neste caso particular os jornalistas de saúde, podem e devem neutralizar a acção e o interesse das fontes de informação. Penso que é uma temeridade transmitir em directo uma conferência de imprensa potencilamente alarmante e, pior do que isso, na possibilidade de editar o conteúdo, levar ao ar declarações que possam extrapolar os limites entre o espaço público e o privado. A cobertura sobre a Gripe A tem, em muitos casos, sucumbido ao sensacionalismo.

  2. Tudo isso é bem verdade… todo cuidado é pouco em relação a este assunto, e muita informação se faz necessário sim para que a população não entre em desespero. Gosto muito deste Blog.
    Parabéns.

  3. Inteiramente de acordo.
    A comunicação tem sido cuidada, mas deve ser sempre cuidada. Um ou outro deslize acontecem, naturalmente, mas deve haver quem os aponte, a bem de uma eficácia crescente nestas matérias. Em especial em casos como este, em que estamos a falar da saúde de pessoas (“em que estamos a falar de pessoas” deveria chegar) e não da crise ou de qualquer outro fenómeno que também exija cuidados, mas não desta índole.

  4. Discordo. As pessoas tem o direito de saber a realidade e gravidade mda situação.
    Com certeza nomes de pessoas infectadas não é relevante e sim a estatística “real” de infectados e mortes.
    Em meu município são 35 casos confirmados segundo jornal local, mas na mídia só mostrou a morte de uma pessoa.
    Não quero sensacionalismo, mas números reais.

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