Gripe A: os limites da informação

O Ministério da Saúde tem actuado com um cuidado extremo ao nível da gestão da informação no que diz respeito à gripe A. Em momentos particularmente sensíveis, tem havido conferências de imprensa ou a divulgação de comunicados que, e muito bem, têm também a função de neutralizar situações de pânico. A Direcção Geral de Saúde também tem demonstrado que está atenta e é actuante. Ontem, os media começaram a noticiar dois casos  de pessoas que, segundo os relatos jornalísticos, estavam internadas no Hospital S. João, em estado grave. Em declarações aos jornalistas, o Secretário de Estado da Saúde arriscou dizer que os pacientes corriam risco de vida. Mais tarde, em entrevista à RTP, Margarida Tavares, adjunta da direcção clínica pelo plano de contingência da gripe A, no Hospital S. João, confrontada com a questão de se saber qual o estado clínico destes pacientes,  recusou-se a responder de forma directa, argumentando que estava a falar de “doentes reais”.  Num contexto em que gradualmente surgem mais casos de gripe A, e consequentemente, casos mais graves, é urgente pensar naquilo que se deve, ou não, dizer em público acerca dos doentes. Porque o discurso das fontes acarreta consigo pessoas que têm o direito à privacidade . Hoje, no site do ‘Público’, até se escreve isto: “Um dos dois pacientes que estavam internados em estado grave no Hospital de S. João, no Porto, está curado”. A fonte que assume a informação é um médico do Hospital de S.João. No twitter, houve já algumas pessoas que me recordaram que o Secretário de Estado da Saúde também é médico. Tal como a Ministra que tutela este campo, poderia eu acrescentar. Mas não é nesse estatuto que esses interlocutores são ouvidos e, como ocupam lugares de relevo, o cuidado com a informação deve ser maior. Como tem sido neste passado recente. Haver um deslize não implica uma desvalorização do que tem sido feito, mas também não pode significar um esvaziamento da discussão destas questões. Pelo contrário. É preciso abrir este debate para que a comunicação que se desenvolve em público tenha cada vez menos ruído.

No deserto de alguém…

ol-desertomst«Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails, e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.»

Miguel Sousa Tavares

«No teu deserto» não é um livro sobre o qual se escreva à partida neste blogue. Porque é um «quase romance»? Talvez… Mas é um livro depois do qual há um certo silêncio que se apetece… sobretudo quando se chega de um deserto que não estamos habituados a habitar por não sermos capazes de dispensar as palavras. Dispenso-as agora, as palavras, por saber que os que entrarem (ou já entraram) nesse deserto não precisarão que se justifique este desvio nas linhas nada romanceadas de um ‘caderno de notas’, como é este blogue, cheio de etiquetas categoriais que não servem nem o silêncio nem a solidão.