“Felizmente, há a Net”

“(…)  Quanto menos plural for a informação ao alcance dos cidadãos mais medíocre é a cidadania e mais improvável a democracia. Pode, pois, dizer-se que a pluralidade é o critério fundamental da democracia. A cinzenta uniformidade dos media tradicionais e a proximidade da generalidade deles a interesses económicos e políticos (sendo que é quase sempre impossível distinguir uma coisa da outra) contribuem decisivamente para a pobreza da nossa democracia e do exercício da cidadania entre nós. Felizmente, há a Net. A Net, pela sua natureza aberta e esquiva a formas de controlo político ou económico, é hoje o espaço de pluralidade que os media tradicionais não são e, por isso, lugar por excelência da democracia participativa e do exercício da cidadania.(…)”

Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 16.7.2009

One thought on ““Felizmente, há a Net”

  1. Infelizmente é ao percebermos o cerco a que está sujeito o jornalismo, diluído cada vez mais na comunicação de que nos fala Perniola no seu seminal “Contra a Comunicação”, que melhor percebemos como Manuel António Pina tem razão. O grande problema que esta constatação nos coloca é que apesar do carácter aberto da Net esta, pelo seu intrínseco carácter individualizado, não se conseguirá constituir verdadeiramente como espaço de comunicação de massa, um espaço público ao qual todos possam igualmente aceder, um dos pilares da constituição de uma sociedade verdadeiramente plural e democrática. Como pode haver democracia quando as verdadeiras discussões estão auto-restringidas, tornando-se naturalmente controladas e potencialmente inconsequentes pela existência de espaços de discussão reduzidos, fragmentários e muitas vezes elitizados? Estou pessoalmente convencido de que a guerra do Jornalismo ainda não está perdida. Ganhá-la será mesmo essencial em nome da nossa concepção de democracia. Mas para isso precisamos de ter responsáveis políticos que percebam, de uma vez por todas, que é só libertando os ‘media’ de serviço público do controlo que tanto gostam de exercer, que estes se podem constituir, de facto, como referências reguladoras e promotoras de um espaço público verdadeiramente plural. Mais uma vez, é o Jornalismo entendido como um serviço a toda a comunidade e não como exercício de cidadania confinado, que defende a democracia. Não é tolhendo-o e transformando-o instrumentalmente em mero veículo de comunicação que a democracia se irá aprofundar. Estou convencido de que esta é uma guerra a travar nos próximos anos. Cabe aos jornalistas travá-la, o que não será fácil, mas a sociedade terá também de a perceber e de a acolher… e isso é o que me parece ser o mais complicado no quadro de relações sociais em que vivemos.

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