Gripe A e jornalismo: entre medo e informação

No dia em que o Público foi ouvir os primeiros quatro portugueses infectados com o vírus da gripe A (cf “A pandemia alastra, mas não há sinais de ser muito mortífera / Gripe A (H1N1): “Não é o fim do mundo apanhar isto. Já tive gripes bem piores”, trabalho de Catarina Gomes) vale a pena lançar algumas perguntas sobre o modo como os media estão a cobrir e acompanhar esta epidemia.

O assunto é complexo e controverso. Para os media, não lhe falta noticiabilidade. Seria impensável e inaceitável que não houvesse notícias regulares. As pessoas querem saber o que se passa e como a gripe evolui (assim como as medidas para a combater). Mas, em contrapartida, o exagero da cobertura – no destaque, no enfoque, na linguagem utilizada – pode provocar um efeito nefasto.
Os políticos lidam com processos deste tipo com pinças. Veja-se o cuidado que, sobretudo nas primeiras semanas, o Ministério da Saúde pôs na informação diária, através de briefings com os jornalistas. Só durante o mês de Junho, a ministra Ana Jorge esteve em antena, nos serviços informativos das televisões, mais de duas horas. Esse cuidado é, já de si, sequela da atenção mediática, mas é, ele próprio, indutor de uma atenção jornalística acrescida (bastará dizer que, só entre 24 e 28 de Abril passado, 14% das notícias televisivas foram dedicadas à gripe A, de acordo com dados divulgados pela Marktest).Swine flu and media
Numa perspectiva mais larga, é interessante citar dados de um vídeo difundido na Internet pela Fundação Gapminder, sediada na Suécia, segundo os quais só nos primeiros 13 dias de gripe A foram publicadas mais de 250 mil notícias sobre esta espécie de gripe (cf. tabela). A Fundação procura mostrar como o impacte desta doença, em número de mortes é infinitamente menor do que, por exemplo, a tuberculose que, no entanto, recolhe um índice reduzidíssimo de cobertura dos media.
Dado que, depois da onda de medos associada às primeiras semanas, se volta, agora, a desenhar cenários que poderão (ou não) ocorrer com o aproximar do Inverno, seria, no mínimo de esperar que os responsáveis das redacções e as estruturas associativas dos jornalistas estivessem a debater este assunto e, eventualmente, a equacionar algumas medidas de auto-regulação.
A prudência e as responsabilidades do jornalismo nesta matéria aconselhariam a que algo fosse feito. Estará?

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2 thoughts on “Gripe A e jornalismo: entre medo e informação

  1. Já fiz o favor de mandar esta belíssima tabela a uns quantos amigos. Andava à procura de algo do género há algum tempo.
    O alarmismo mediático também é uma doença. E das graves.

  2. Tuberculose é uma doença com uma curva muito diferente da Gripe pandémica.
    Os números da tabela apresentam uma doença já disseminada pelo mundo e com tratamentos. E um vírus novo, a espalhar-se pelos 5 continentes, mas ainda no início. E um vírus novo que se propaga tão facilmente é perigoso.
    Repara na tabela de “hoje”.
    Um gráfico pode dar uma ajuda. Vai a http://jvcosta.planetaclix.pt/gripe.html#41

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