A PT, A TVI e o futuro da televisão portuguesa

Antes do lançamento dos concursos para a TV digital terrestre, a Autoridade da Concorrência emitiu um parecer que impedia que as empresas que possuíssem mais de 50% de alguma plataforma de televisão pudessem pleitear as licenças.

Com o spin-off da PT Multimédia (que detinha a TV Cabo), hoje Zon Multimédia, a PT credenciou-se para os concursos, dos quais foi a campeã, recebendo as concessões para transmitir os sinais dos canais generalistas e também para gerir conteúdos e distribuir os canais pagos da TV digital, que entrarão em operação nos próximos anos.

Agora a PT avança com uma proposta para comprar 30% do grupo proprietário da TVI.

Cabe lembrar que a PT, hoje, dois anos após o spin-off da PTM, possui serviços de TV por satélite, IPTV, as concessões da TDT, está a implementar uma rede de fibra óptica (que poderá fomentar o surgimento de mais um serviço de TV por subscrição) e pretende ter parte da TVI, o canal generalista com maior audiência.

Estamos a assistir a formação de um futuro monopólio da televisão comercial?

About Sergio Denicoli

Sergio Denicoli é graduado em Jornalismo e em Publicidade, Mestre em Informação e Jornalismo e doutorando em Ciências da Comunicação, na Universidade do Minho. Fez também um MBA em marketing. Investiga a implementação da TV digital terrestre em Portugal, sob orientação da Dra. Helena Sousa. Durante 10 anos foi jornalista da Rede Globo, onde actuou na Rádio CBN (Central Brasileira de Notícias) e TV Globo/ES.

10 thoughts on “A PT, A TVI e o futuro da televisão portuguesa

  1. Retirando as problemáticas políticas, ridículas, porque o estado por norma europeia já nem sequer deveria deter qualquer golden share, o resto deixem o mercado funcionar. E já agora, afinal vale comprar bancos falidos, mas já não vale comprar empresas de conteúdos rentáveis?!

    A verdade é que a PT está a fazer bem o trabalho de casa, o futuro está nos conteúdos e a PT sabe muito bem que depende brutalmente dos mesmos. Há muitos anos que se vem discutido a questão das necessidades de conteúdos, com a primeira bolha da web a discussão acalmou, contudo nos dias de hoje isso é cada vez mais premente. Veja-se a guerra instalada entre a Meo e a Zon, à qual a Cabovisão e Clix não tem tido armas para competir exactamente por falta de conteúdos.
    Mas o horizonte muito próximo é ainda mais avassalador, com o fim das emissões analógicas de TV o espectro disponível aumenta drasticamente dando lugar à necessidade de mais conteúdos. Mas pior ainda já está aí à porta, a fibra e com ela as decisões judiciais sobre direitos de autor. As empresas de telecomunicações não podem continuar a basear a sua oferta Gigabits de fluxo de informação no peer-to-peer, bitorrent e afins fomentando a pirataria, porque em breve terão de começar a prestar contas também e como tal terão a obrigação moral de oferecer conteúdos às pessoas de qualidade sem estas sentirem a necessidade de recorrer à pirataria.

    É apenas uma perspectiva que pode ser amplamente dimensionada e discutida, mas deixem-se de tanta politiquez, estou tão saturado de discursos de oposição pela oposição, e do que vale hoje não vela amanhã, e o que se disse ontem ficou retida numa bolsa amnésica…

    abraços

  2. Praticamente toda a distribuição de conteúdos televisivos e a gestão de grande parte deles, futuramente, poderá estar nas mãos de apenas um grupo e isto não é bom para o país e, portanto, não é bom para os seus cidadãos. Com a estrutura que a PT está a formar, em breve ela não terá concorrentes.
    Logo estaremos a discutir a distribuição de canais regionais, que estarão nas mãos da PT; estaremos a falar de serviços de TV por subscrição (sejam eles por fibra óptica, por IP, por satélite ou terrestre), e eles estarão nas mãos da PT; estaremos a analisar o canal generalista de maior audiência, que também terá influência da PT.
    É inegável que a PT faz um trabalho empresarial fantástico e, por isso, cresce a cada dia. No entanto, há outras questões que precisam ser avaliadas para além do mercado. Não podemos diminuir o debate para o nível das passionais discussões político-partidárias, dos argumentos oposicionistas ao governo. A questão é muito mais profunda.

  3. Sérgio, julgo que está aí alguma confusão. A ZON é o resultado da Spin-off da PTM, como tal neste momento é uma empresa completamente independente da PT. Se assim não fosse não teriamos a guerra aberta, de concorrência saudável, que temos entre a Zon e a Meo (esta sim da PT).
    Depois e ainda sobre a concorrência podemos ver no PSI-20 a existência de uma SonaeCom, para além da PT e ZON, e que tem procurado a fusão com a Zon sem grande resposta por parte desta. Fora da bolsa ainda tens a Cabovisão que prometeu recentemente entrar na guerra com a Meo e a Zon, apesar de se sentir o desgaste e o mais provavel será a sua compra por parte destas. Depois temos ainda o grupo SIC, grupo TVI e grupo RTP.

  4. O que quero dizer é que, se houve a necessidade do spin-off da PTM, para que o grupo Portugal Telecom pudesse concorrer (e ganhar) as concessões para a TDT, os caminhos que a PT trilha agora lhe vão garantir, num futuro próximo, a obtenção de fatias de mercado muito maiores que os 50% que impediam que um empresa pudesse entrar na concorrência pela TV digital.
    Se essa empresa poderá oferecer aos seus clientes serviços televisivos que englobem, num mesmo pacote, TV digital, IPTV, TV por satélite e por fibra óptica, a concorrência será desleal e logo veremos falências no sector.
    A tentativa de entrar também na TV aberta, para mim, demonstra apenas uma possibilidade grande de controlo de todo um mercado por parte de um único grupo.
    Lembro ainda que, a partir da digitalização dos sinais televisivos e o switch-off analógico, a lógica que funciona hoje no mercado das televisões sofrerá uma profunda alteração. E isso ocorrerá já em 2012.
    Lembro ainda que, hoje, metade da população portuguesa possuiu algum serviço de televisão por subscrição e a tendência é que este percentual aumente nos próximos anos.

  5. Mas não te parece que devemos actuar apenas caso as coisas se concretizem e não de forma preventiva sem certezas de tal?!
    O cenário que estimas é bastante especulativo e desse modo parece-me que devemos dar alguma margem ao mercado para que este funcione. Aqui entenda-se mercado como sociedade, isto porque se tivermos uma acção de constante vigilância e prevenção dificilmente poderemos ver resultados inovadores. Veja-se o exemplo da Microsoft na Europa, tem sofrido sanções pesadas mas pelo menos foi-lhe dado o beneficio da dúvida.

  6. Em apenas dois anos a PT passou a disponibilizar de quatro plataformas televisivas. Em três anos teremos o fim das transmissões analógicas. Não me parece que o futuro, neste caso, esteja muito distante.

    Lembro ainda que as transmissões terrestres, que eram de responsabilidade dos operadores, passaram a ser um monopólio a partir do concurso para a TDT, lançado em 2008, que a PT venceu. A TVI, que tinha suas torres de transmissão, que cobriam mais de 95% da população, teve que entregar o seu sistema à PT, ou iria perder todo o investimento.

    Além disso, um estudo que fiz e apresentei no último Sopcom, mostra claramente a influência da PT nas políticas que traçam o futuro da televisão portuguesa. Para que tenha uma ideia, a PT conseguiu que suas sugestões fossem acatadas em 12 ARTIGOS dos concursos para a TDT! Esses artigos foram modificados a partir de um processo de consulta pública, tendo sido a PT o grupo de maior influência.
    O estudo pode ser lido no link http://tvdigital.files.wordpress.com/2009/04/consultas-publicas-nos-concursos-da-tv-digital.pdf

    Esses grandes grupos operam com prospecções muito grandes e, pelos sinais que vemos, há uma forte tendência de domínio de mercado. Isso é legítimo, e as empresas almejam sempre aumentar os seus lucros, mas não se pode estar à espera que apenas o mercado se auto-regule, pois o prejuízo final é dos cidadãos, se a concorrência for desleal.

  7. Pingback: Ainda as questões que envolvem a PT « TV DIGITAL EM PORTUGAL

  8. Uma resposta mais séria, implicaria que eu lesse o teu artigo com calma e reflectisse e até o podemos fazer à volta de um café, aqui é complicado…

    Aceito grande parte do que dizes aqui, e não sou um defensor fundamentalista da auto-regulação (o que dizer da crise actual), mas continuo a acreditar que no meio das imperfeições a vontade das massas expressa através de uma total liberdade de escolha deva prevalecer sobre a vontade de meia dúzia de iluminados.

    Julgo ainda que este assunto entra no âmbito da convergência dos media decorrida da evolução tecnológica operada nos últimos anos. Que nos deve fazer reflectir sobre o lugar da televisão de hoje, que não é mais a televisão de ontem. Não podemos continuar a atribuir-lhe poderes que cada vez menos possui. Por isso no caso da TVI prefiro chamar-lhe um negócio de conteúdos e não de comunicação social…

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