i agora…que a publicidade me enganou?

20090507_i_numero1_wApareceu hoje nas bancas o tão esperado novo diário nacional, o ‘i‘.

Sendo uma iniciativa corajosa, num momento de crise económica generalizada e de crise de identidade do próprio jornalismo, segui – como pude – a evolução do projecto e confesso que, sobretudo depois da excelente campanha de publicidade, estava mesmo à espera do que me foi prometido – jornalismo relevante, sério, sólido. Estava à espera de um primeiro número que marcasse o dia, que fosse pauta para as edições da manhã das rádios e das TV’s 24/7. Estava à espera que a lógica dos quatro espaços – em vez das secções – provasse que funciona.

É ainda cedo para juízos definitivos e admito (aliás, espero) vir a mudar de opinião. Mas, sendo isto certo, não o é menos o facto de que as primeiras impressões contam muito e a minha primeira impressão é de desapontamento.
Talvez a culpa seja minha. Ou da publicidade (que terá sido enganosa). Não sei.
A verdade é que o ‘i’ é – como já a remodelação da revista do Expresso havia sido (às mãos da mesma equipa) – um produto que assenta numa ideia base muito discutível, a de que as pessoas querem cada vez menos conteúdo…cada vez mais bonitinho.

Martim Avillez Figueiredo escreve no seu primeiro editorial que “ninguém paga para conhecer o que já sabe”. Concordo em absoluto. Mas isso implica que o investimento de fundo se faça em algo mais do que ‘a embalagem’. E o ‘i’ de hoje, o primeiro, não tinha nada de relevante que eu já não soubesse (parece-me até sintomático que a primeira grande entrevista seja um texto ‘requentado‘ com um político estrangeiro – porque o potencial leitor alvo do ‘i’ sabe, de certeza, digitar http://www.nytimes.com).

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Outras notas soltas:

Positivo:
– O primeiro número parece ter bastante publicidade; é bom para a sobrevivência do projecto.
– O site (que não tive oportunidade de observar em detalhe, como fez o Alexandre Gamela) parece-me francamente melhor do que o jornal papel; limpo, com uma lógica de organização que se apreende com facilidade (apesar de ter um endereço que diz: http://www.ionline.pt/contenidos/home.html)

Negativo:
– Fazer a primeira primeira página sem cacha nenhuma e tendencialmente a P&B.
– Não ter uma ficha técnica com os nomes de todos os jornalistas.
– Parecer-se muito com a Monocle (não que a Monocle seja má, muito pelo contrário – é um dos mais bem concebidos produtos jornalísticos de qualidade dos últimos anos – mas porque com a ‘inspiração’ se perdeu uma oportunidade de verdadeiramente apresentar algo de novo).

PS (escrito no dia 8-5, sexta-feira):
Contrariamente ao que faz o i – que tem no seu site um texto intitulado “O que os blogues dizem sobre o i” onde só apresenta opiniões tendencialmente positivas, aqui fica uma lista mais abrangente de leituras:

i, uma aposta no online?
i num instante nada mudou
nasceu um jornal – o website
i: o jornalismo de cidadão num jornal adulto (sem estatuto editorial)
i…por um monóculo

“5º poder”

Roy Clark, do Poynter Institute, dá uma achega para a definição do conceito de “5º poder” em Who is the Fifth Estate and What is Its Role in Journalism’s Future?

Quem precisa de regulação? – conferência

No próximo dia 15 (sexta-feira) realiza-se na Universidade do Minho a conferência ‘Jornalismo na Europa: Quem precisa de Regulação?‘, organizada pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade.
O encontro propõe-se aproximar perspectivas diferenciadas sobre as profundas transformações que estão hoje a ocorrer no campo jornalístico e respectivos desenvolvimentos ao nível dos mecanismos de regulação. Analisando as mudanças, procura-se, com esta conferência, contribuir para o desenvolvimento de uma leitura mais complexa das ferramentas reguladoras (internas e externas) com potencial para a defesa do jornalismo como um campo socialmente relevante. Os desafios colocados pela digitalização dos conteúdos, pela proliferação das plataformas e pelo crescimento exponencial de participantes na esfera pública digital estarão em cima da mesa.

Programa

15 de Maio de 2009 (9h30-18h)
B1 (CPII) – Universidade do Minho

09h30:   Sessão de Abertura
Moisés de Lemos Martins, Presidente do Instituto de Ciências Sociais
Manuel Pinto, Director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade
Denis McQuail, Prof. Jubilado da Universidade de Amesterdão
Helena Sousa, Presidente da Comissão Organizadora

10h30   Intervalo para café

10h45: Reflectindo sobre a Incerteza: Quadros de Referência para Pensar a Regulação
Josef Trappel, Coordenador do EuroMedia Research Group e Professor da Universidade de Viena
Jeremy Tunstall, Professor Jubilado da City University, Londres
Kees Brants, Professor da Universidade de Amesterdão
Hans Kleinsteuber, Professor Jubilado da Universidade de Hamburgo
Moderação – Elsa Costa e Silva, Investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade

12h45   Intervalo para almoço

15h00: Mesa Redonda – Olhares Cruzados sobre as Práticas de Regulação em Portugal
José Azeredo Lopes, Presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social
Alfredo Maia, Presidente do Sindicato de Jornalistas
Afonso Camões, Presidente do Conselho de Administração da Lusa
Adelino Gomes, Provedor do Ouvinte da RDP
Moderação – Joaquim Fidalgo, Investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade

17h00: Sessão de Encerramento
Augusto Santos Silva, Ministro dos Assuntos Parlamentares
Moisés de Lemos Martins, Presidente do Instituto de Ciências Sociais
Manuel Pinto, Director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade

Mais informação em http://www.cecs.uminho.pt/regulacaoeuropa.html

Pragmatismo e jornalismo

Em 30 de Março, o Público fazia capa com uma falsa primeira página: publicidade (assinalada, diga-se) susceptível de criar confusão nos leitores. O diário cumpria a lei, mas não uma norma interna que estipula que a publicidade não deve ser inserida de tal modo que crie “confusões ou associações ambíguas à mancha informativa”.
Em 12 de Abril, o provedor dos leitores do jornal pegou no assunto, comentando:

“Perante a actual crise económica e a diminuição do investimento publicitário, julga o provedor que a decisão de aceitar este anúncio terá sido motivada pelo pragmatismo. Uma vez que a crise vai prolongar-se, é melhor os leitores prepararem-se para outras surpresas do género”.

Escrevi a Joaquim Vieira sobre este assunto, assumindo uma posição não fundamentalista sobre a questão, mas, no fundo, estranhando que fosse o provedor a preparar-nos para o tal “pragmatismo”. E perguntava se, ao menos, não seria de esperar que a Direcção do Público explicasse aos leitores as opções que toma, em matéria controversa.

Na crónica de 19 do mesmo mês, o provedor dá a resposta. Depois de convocar o seu passado de independência jornalística (que eu pessoalmente reconheço, mas que creio não ter questionado), observa que não se considera (…) um fundamentalista, muito menos um taliban do jornalismo”. E acrescenta o seguinte:

“Pelo contrário, [o provedor] defende, desde que se preserve o tal núcleo de valores essenciais da actividade, a necessidade do mencionado pragmatismo nas escolhas e orientações a que um órgão de informação deve sujeitar-se, pois muitas vezes pode estar em causa a sua própria viabilidade, e os jornalistas (sobretudo os que têm responsabilidades numa redacção) são também em certa medida gestores, já que administram os seus próprios recursos e distribuem, na tábua rasa posta à sua disposição, a matéria que produzem ou lhes chega às mãos (…)”.

O provedor encarregou-se de responder pelo jornal e de defender a prática adoptada, em nome do pragmatismo inerente aos tempos de crise. E não achou pertinente comentar a observação sobre aquilo que me parece ser um dever dos responsáveis editoriais: o de explicar aos leitores as opções que tomam. Pelo meu lado, fiquei a perguntar-me se a justificação que ele me deu (e aos leitores do Público) seria aquela que haveria a esperar do provedor, mesmo de um provedor não fundamentalista nem taliban do jornalismo (na verdade, nem o jornalismo nem os cidadãos precisam, de facto, desse talibanismo). Continuo a achar que não. E isso não belisca a consideração que tenho por Joaquim Vieira.

Porque trago isto só agora a este espaço? Porque não gostei de ver o Público a pregar aos outros a moralidade que não pratica em casa. O editorial de ontem, intitulado “A crise e o relativismo ético”, critica de forma contundente o facto de o Governo ter decidido baixar o valor das multas a quem prevarica no campo ambiental, invocando o contexto da actual crise. Não discuto a pertinência da crítica (que, no texto, vem associada a outra medida que considero escandalosa: a aprovação, por processo quase secreto, da lei do financiamento dos partidos). Acho é que a força da denúncia sai afectada quando o próprio jornal entende que o pragmatismo e as normas colocadas entre parêntesis são criticáveis se vierem do Governo e justificáveis se vierem de si mesmo.

Hoje é Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

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(imagem do site da Associação Mundial de Jornais para o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa)

O tema escolhido este ano pela UNESCO para assinalar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa sugere que os media têm um importante papel na promoção do diálogo intercultural.

Cultural references determine our identity and the ways in which we construct reality; they affect the perception of ourselves, the way we encounter others, and the way we interact with the world. The media greatly influences not only what we think, but also how we act. (Site da UNESCO)
Duas sugestões de leitura para este dia:
Também recomendável uma visita ao site da Associação Mundial de Jornais.