Pragmatismo e jornalismo

Em 30 de Março, o Público fazia capa com uma falsa primeira página: publicidade (assinalada, diga-se) susceptível de criar confusão nos leitores. O diário cumpria a lei, mas não uma norma interna que estipula que a publicidade não deve ser inserida de tal modo que crie “confusões ou associações ambíguas à mancha informativa”.
Em 12 de Abril, o provedor dos leitores do jornal pegou no assunto, comentando:

“Perante a actual crise económica e a diminuição do investimento publicitário, julga o provedor que a decisão de aceitar este anúncio terá sido motivada pelo pragmatismo. Uma vez que a crise vai prolongar-se, é melhor os leitores prepararem-se para outras surpresas do género”.

Escrevi a Joaquim Vieira sobre este assunto, assumindo uma posição não fundamentalista sobre a questão, mas, no fundo, estranhando que fosse o provedor a preparar-nos para o tal “pragmatismo”. E perguntava se, ao menos, não seria de esperar que a Direcção do Público explicasse aos leitores as opções que toma, em matéria controversa.

Na crónica de 19 do mesmo mês, o provedor dá a resposta. Depois de convocar o seu passado de independência jornalística (que eu pessoalmente reconheço, mas que creio não ter questionado), observa que não se considera (…) um fundamentalista, muito menos um taliban do jornalismo”. E acrescenta o seguinte:

“Pelo contrário, [o provedor] defende, desde que se preserve o tal núcleo de valores essenciais da actividade, a necessidade do mencionado pragmatismo nas escolhas e orientações a que um órgão de informação deve sujeitar-se, pois muitas vezes pode estar em causa a sua própria viabilidade, e os jornalistas (sobretudo os que têm responsabilidades numa redacção) são também em certa medida gestores, já que administram os seus próprios recursos e distribuem, na tábua rasa posta à sua disposição, a matéria que produzem ou lhes chega às mãos (…)”.

O provedor encarregou-se de responder pelo jornal e de defender a prática adoptada, em nome do pragmatismo inerente aos tempos de crise. E não achou pertinente comentar a observação sobre aquilo que me parece ser um dever dos responsáveis editoriais: o de explicar aos leitores as opções que tomam. Pelo meu lado, fiquei a perguntar-me se a justificação que ele me deu (e aos leitores do Público) seria aquela que haveria a esperar do provedor, mesmo de um provedor não fundamentalista nem taliban do jornalismo (na verdade, nem o jornalismo nem os cidadãos precisam, de facto, desse talibanismo). Continuo a achar que não. E isso não belisca a consideração que tenho por Joaquim Vieira.

Porque trago isto só agora a este espaço? Porque não gostei de ver o Público a pregar aos outros a moralidade que não pratica em casa. O editorial de ontem, intitulado “A crise e o relativismo ético”, critica de forma contundente o facto de o Governo ter decidido baixar o valor das multas a quem prevarica no campo ambiental, invocando o contexto da actual crise. Não discuto a pertinência da crítica (que, no texto, vem associada a outra medida que considero escandalosa: a aprovação, por processo quase secreto, da lei do financiamento dos partidos). Acho é que a força da denúncia sai afectada quando o próprio jornal entende que o pragmatismo e as normas colocadas entre parêntesis são criticáveis se vierem do Governo e justificáveis se vierem de si mesmo.

3 thoughts on “Pragmatismo e jornalismo

  1. E o que dizer do que se passou agora? – A capa do Público de ontem (6 de Maio) vinha cheia de caixinhas de farinha Maizena, a propósito da “boca” de Manuel Pinho a Paulo Rangel. Hoje, o Público traz um anúncio de página inteira, a cor, numa zona nobre do jornal, da mesma farinha Maizena. Pode não ter sido o que parece, mas que parece, parece…

  2. Confusão de papeis?
    Nomeações convenientes?
    Cargos doutrinados?

    Quiçá…

    A ser verdade, é uma pena ser no Público (digo eu)…

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