“As angústias de um professor de jornalismo”

É este o título de um post de António Granado, no Ponto Media. Excepcional – pela extensão e pelo carácter. Partilho as preocupações que exprime.

5 thoughts on ““As angústias de um professor de jornalismo”

  1. Penso que as reflexões de António Granado são necessárias e que consegue enquadrar a noção da Internet como “destino” de um modo produtivo, com um olhar e uma prática em torno de uma ideia da Internet como reflexo de contemporaneidade. De facto, penso que se tem discutido esta noção de um modo inevitabilista, demasiado tecnocêntrico, sem se cuidar do que realmente existe. A Internet reforça a tendência para a individualização que, penso, será um dos resultados da reconfiguração do trabalho que veremos emergir da actual crise. O aumento do desemprego, a desestruturação da empresa tradicional, pelo menos na sua dimensão, com a consequente fragmentação, irão, parece-me, induzir o aparecimento de uma lógica de trabalho de nicho que já se vem desenhando. A ideia, para mim, não é “para a Internet e em força” como se tem tentado vender, como se o caldo informativo de que esta é feita bastasse para constituir um novo paradigma, do qual os Jornalistas são “mais uns”. Pelo contrário, a ideia é que o Jornalismo, para ser feito por Jornalistas tem de partir de um programa que entenda e transmita as especificidades de se ser Jornalista na sociedade actual. Por isso, a noção de que os Jornalistas têm, desde cedo, de começar a construir um ‘nome’, logo, partir da construção de uma identidade profissional/individual própria, parece-me, assim, extremamente pertinente, porque introduz, desde logo, um olhar retrospectivo. Não me parece possível compreendermos o Jornalismo que se está a desenhar sem olharmos para o caminho percorrido. A identidade individual dos Jornalistas não é um fenómeno novo, é apenas algo que se está a reconfigurar no seio da teia social contemporânea, precisamente no sentido da associação identidade profissional individual/exercício profissional individualizado. Assim, penso que caberá às Universidades compreender como trabalhar neste enquadramento. Julgo que é inevitável que as Universidades continuem a construir os seus programas na base do ensino dos três ramos tradicionais (será que, daqui a uns tempos não estaremos a dizer que o ‘jornalismo online’ é mais um destes?), cujas linguagens, embora dinâmicas, estão mais delimitadas. Mas os programas têm, de facto, de ser mais fluidos, pensados numa lógica menos estanque, porque é precisamente desta fluidez que emergem as linguagens ‘online’. Já o disse noutras ocasiões, em grupos de amigos. Para mim, às Universidades cabe, essencialmente, o papel de formar Jornalistas, gente pensante e autónoma. Não há aqui novidade substancial. Não compro muito a ideia de que agora o que está a dar é formar ‘jornalistas multimédia’ ou ‘ciberjornalistas’. Isso é começar a casa pelo telhado, será apenas uma das consequências. Devem pensar-se os cursos, sim, como a possibilitação do acesso às ferramentas, todas, das tradicionais às modernas, e a familiarização com estas, numa lógica de oferta ‘state of the art’. A novidade é, pois, a forma como estes cursos são pensados. E a proposta de António Granado parece-me um contributo muito interessante para esta reflexão.

  2. Luís, concordo especialmente com esta última parte (não interessa formar “jornalistas multimedia”) e/mas lembro que as cadeiras de “jornalismo online” já são uma realidade há alguns anos.
    A este propósito lembro-me sempre do que me disse uma sénior, durante o meu estágio curricular em televisão: “prepara-te, porque daqui a uns anos não vais ter apenas de editar as peças; vais ter de filmar, de editar, dar voz e de fazer o texto para a net”.
    E, se essa realidade ainda não abarca muitos dos órgãos nacionais, estou convencido que se está a instalar em pleno nos órgãos locais e regionais. Os exemplos são muitos. Estou a lembrar-me de “O Mirante”, o maior jornal regional do país, que tem os seus jornalistas também a fotografar (para a edição em papel e para o site) e a filmar (para a “Mirante TV”).

  3. Prezados Senhores:

    Tem este a intenção de consultá-los sobre a possibilidade de divulgação de meu novo livro “REDAÇÃO PUBLICITÁRIA: o que faltava dizer.”, lançado nesta semana pela 7 Dias & 6 Noites Editores Unipessoal Lda, situada no Porto e destinado aos alunos dos cursos de comunicação social e marketing. Sou autor novo em Portugal, tenho mais alguns livros que pretendo editar e lançar no seu país ainda este ano e entendendo ser esta minha obra de amplo interesse para os estudantes dessa matéria, penso ser interessante a divulgação do mesmo no JORNALISMO E COMUNICAÇÃO.
    Algumas palavras apenas já serão o suficiente para proporcionar maior credibilidade à minha obra e ao meu nome. Sou sócio e Presidente de Criação de TRADE (www.tradeagencia.com), uma agência de propaganda localizada em Copacabana, no Rio de Janeiro. Sou também professor, conferencista e consultor de marketing.
    Caso vejam como necessário ter mais informações do que as que envio, isto poderá ser verificado no blog que assino: http://propagandaearte.blogs.sapo.pt ou através de contato direto comigo pelos telefones abaixo.
    Fico muito grato por sua atenção e gostaria imenso de receber um comunicado sobre o meu pleito para, em caso de haver essa oportunidade, enviar-lhes o que solicitarem.

    Cordiais Saudações.

    Marco Aurélio Cidade.
    Contatos:
    55-21-2522-3042 (TRADE)
    55-21-9883-8606
    55-21-8783-3042

  4. Eu também compartilho dessa angústia, mas peço licença para expor uma angústia de outra ordem, que me parece anterior e que diz bem dessa metáfora sobre começar a casa pelo telhado. Refiro-me à absoluta ignorância dos nossos estudantes. Falo do Brasil, naturalmente, mas não sei se a realidade em Portugal é muito diferente. Não é só uma falha na formação escolar básica. É o desinteresse mesmo em aprender qualquer coisa que não tenha utilidade imediata. Procuro ilustrar minhas aulas com exemplos de clássicos do cinema e da literatura e frequentemente a reação é de completo alheamento: eles não conhecem as obras ou os autores e dizem isso com total tranquilidade. Por que? Porque não lhes parece importante esse conhecimento. Do contrário, seria louvável que reconhecessem a ignorância, mas fariam isso com alguma vergonha.
    Mas faz algum sentido, porque afinal de contas o que se valoriza hoje não é a formação humanista clássica, que está na base de toda boa reportagem. E aí entra a angústia maior: eu – e tenho certeza de que muitos colegas também – me sinto falando no vazio quando critico ou oriento meus alunos. Alguns me olham com aquele sorriso complacente que se concede a quem já morreu e não sabe; outros, mais raros, demonstram interesse e empenho, e então sou eu que me desespero, porque sei que no mercado eles não vão poder praticar aquilo.
    Agora mesmo, no sábado, O Globo, o mais importante jornal do Rio e um dos maiores do país, anunciou uma reportagem que seria publicada no dia seguinte sobre a situação dos catadores de papelão, para mostrar como a crise econômica afeta quem está na periferia do processo. Pessoas que já ganhavam muito pouco e agora ganham quatro vezes menos, pela queda na atividade industrial, que reduz a demanda. Esse breve texto de apresentação terminava com um comentário do fotógrafo que acompanhara a repórter, impressionado com a cena de um menino de 6 anos, filho e neto de catadores (as classes sociais se reproduzem…), que brincava entre as embalagens e dizia que já conhecia o mundo todo através do lixo, porque tinha visto embalagens de vários países.
    Naturalmente eu aguardei a reportagem dominical com muita expectativa, mesmo porque era de uma ex-aluna, e fiquei imaginando como ela teria aproveitado aquela cena e aquela frase. Bem, a matéria ocupava a página inteira, era muito informativa, tinha muitos números (mesmo porque era uma matéria de economia), mas, da história do garoto, nem sinal.
    Dou esse exemplo apenas para ilustrar o abismo que existe entre o que incentivamos como bom jornalismo nos nossos cursos e o que acaba sendo produzido “pra valer”.
    Porque o cotidiano é cheio dos malabarismos discursivos. Agora mesmo, uma jovem apresentadora na Globonews anunciava a situação nas montadoras de São Paulo e dizia que numa delas centenas (ela dizia o número exato, claro) de trabalhadores não tiveram seus contratos renovados.
    Que maneira delicada de informar sobre demissões, não é?
    E os eternos “consultores” do mercado financeiro fazem coro com “analistas” de economia: não, não teremos crescimento negativo.
    E os repórteres aquiescem, sem em momento algum perguntar como é possível crescer negativamente.
    Para concluir, o mantra que nos martelam diaramente em todas as mídias: crise é oportunidade!
    (Os tais trabalhadores que não tiveram seus contratos renovados devem estar comemorando a fantástica oportunidade que se abriu assim de repente na vida deles, até agora tão monótona).
    Enfim, uma angústia puxa outra, então é bom parar por aqui.

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