O jornalismo que não pode haver na Faixa de Gaza

O mundo – ou quem nele manda – acompanha, a assobiar para o lado, a tragédia que, sob a capa da luta contra o terrorismo, se está a abater gaza_apsobre a população civil da Faixa de Gaza. Os jornalistas, impedidos de entrar neste território palestiniano, limitam-se a dar-nos conta do contentamento nas cidades israelitas vítimas dos foguetes do Hamas e a apontar umas nuvens de fumo, ora mais brancas ora mais negras que vêem no horizonte.

O Supremo Tribunal de Israel decidiu, há mais de uma semana, que o Governo e as Forças Armadas deveriam autorizar os jornalistas a entrar em Gaza. As reacções a este escandaloso incumprimento – que permite que o mundo não veja a desumanidade e o horror – limitam-se a uns protestos de organizações jornalísticas. Fosse outro o governo e o Estado a praticar estes actos e …

Em Portugal, alguns comentadores e editorialistas foram rápidos a apoiar Israel, no início desta guerra e a procurar desqualificar como apoiante do Hamas quem questionasse os métodos de Israel.  Mas estão agora calados perante a gravidade da situação. Nem  sequer protestam pela mordaça (objectivamente é isso que acontece) colocada à liberdade de informar. Afinal, como é?

(Crédito da foto: AP)

Despedimentos no JN, no DN, no…

A “borrasca no horizonte” prenunciada por Manuel Pinto neste blogue, há apenas dois dias, parece ter infelizmente confirmação: a administração do Grupo Controlinveste (proprietário, entre outros meios, do Jornal de Notícias (JN), do Diário de Notícias (DN) de O Jogo, do 24 Horas, do Global Notícias, da TSF…) anunciou esta tarde, em comunicado, a sua intenção de proceder ao despedimento colectivo de 122 trabalhadores, entre jornalistas e outros funcionários. A justificação baseia-se na “evolução acentuadamente negativa do mercado dos media” (particularmente “na área da imprensa“) e na “profunda quebra de receitas do sector“. O documento acrescenta ainda que “além desta medida, tão difícil, outras foram e serão tomadas“, tendo como objectivo “garantir a sustentabilidade” das empresas do grupo “e a perenidade dos seus principais títulos“.

O Sindicato dos Jornalistas manifestou já a sua preocupação pela situação, tendo estado reunido esta manhã com a administração do grupo e prometendo um comunicado para a tarde de hoje.

De acordo com uma notícia na secção de Última Hora do Público,  que cita a Agência Lusa, “cerca de metade” dos 122 funcionários a depedir serão jornalistas, afectando em especial o JN e o DN (com cerca de 25 ‘dispensas’ cada um). Ainda segundo o Público , no desportivo O Jogo deverá haver 15 despedimentos, enquanto o 24 Horas deverá encerrar a sua delegação no Porto, onde presentemente trabalham 10 pessoas.

Há, de facto, muita “borrasca” no sector dos media. E já não é apenas no horizonte previsível: ela aí está, muito concreta, a precipitar-se dramaticamente em cima das nossas cabeças…

Carta de um jornalista assassinado

Lasantha Wickramatunga, de 52 anos, era editor e repórter do jornal Sunday Leader, do Sri Lanka, e crítico da conduta do governo na luta contra os separatistas Tamil. Faz hoje oito dias foi assassinado na rua por dois atiradores que se fazim transportar em motos.

Prevendo este desfecho, deixou uma carta para ser divulgada depois da sua morte. A revista The New Yorker traz o texto, sob o título Letter from the Grave. Vale a pena ser lido. Deixo o primeiro parágrafo:

“No other profession calls on its practitioners to lay down their lives for their art save the armed forces and, in Sri Lanka, journalism. In the course of the past few years, the independent media have increasingly come under attack. Electronic and print-media institutions have been burnt, bombed, sealed and coerced. Countless journalists have been harassed, threatened and killed. It has been my honor to belong to all those categories and now especially the last.”

Quem é julgado no processo Casa Pia?

“A crer nas alegações dos arguidos, que a comunicação social tem abundantemente referido, quem está a ser julgado no processo Casa Pia é o Ministério Público, a Magistratura Judicial (que os pronunciou), a Polícia Judiciária, o Instituto de Medicina Legal, os peritos médicos que observaram as crianças, as próprias crianças, as testemunhas, a comunicação social, a opinião pública e o Mundo em geral; e as vítimas são os arguidos. (…)”.

Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 15.1.2009

Borrasca no horizonte

A Impala prepara-se para acabar com três revistas, entre as quais Mulher Moderna (1). Há dias, noticiava-se o fim – ou, pelo menos, a suspensão – do gratuito Sexta, fruto de uma iniciativa do Público  e de A Bola. Que virá a seguir?

Num ano de agravamento drástico da crise, um dos sectores que mais se ressente, vital para a viabilidade dos media,  é a publicidade. Ora essa fonte decisiva de recursos da economia das empresas mediáticas está a secar a um ritmo que alarma os gestores. Não só na publicidade de agência, mas inclusivamente nos classificados .

O único sector que dá sinal de uma agitação que chega a raiar o absurdo é o do marketing. Os jornais, em particular, desdobram-se em iniciativas paralelas, num esforço titânico de atrair os consumidores. É caso para perguntar o que significam, de facto, os dados ainda recentemente divulgados pela Marktest relativamente à circulação paga. Que quota desses números representa, efectivamente, a procura da informação? Por outras palavras: como poderão as empresas jornalísticas aguentar uma situação, em que estão, de facto, ainda que indirectamente, a subsidiar a compra dos seus produtos?

Neste quadro, as perspectivas que se desenham não são nada tranquilizadoras. E não é preciso ser adivinho para ver borrasca no horizonte.

(1) ACTUALIZ. (14.1): A Impala esclarece que não vai fechar as revistas referidas. Despede 15 pessoas, para salvar essas publicações !

Pelo lado neutro da cor…

bwBlack & White é  um Festival só aparentemente sobre a neutralidade da cor.  Tem como objectivo «celebrar a estética a preto e branco, como forma específica, peculiar e única de manifestação artística». Pretende «estimular a criação de ambientes sonoros que remetam para a estética a preto e branco». No limite, pode reconhecer-se nos seus propósitos o intuito de «contornar um preconceito que relaciona o preto e branco com obras fastidiosas e pedantes».

A edição deste ano, que é já a 6ª, está agendada para Abril, de 22 a 25, e compreende, à semelhança das anteriores, uma competição de trabalhos submetidos a concurso. O call for artworks está aberto até ao dia 20 de Fevereiro. Podem ser submetidos trabalhos nas categorias de vídeo, audio e fotografia. Os prémios vão distinguir o melhor vídeo ficção, o melhor vídeo documentário, o melhor vídeo animação, o melhor vídeo experimental, o melhor vídeo musical, a melhor peça sonora, a melhor fotografia e um Grande Prémio B&W.

O Festival é promovido pela Escola de Artes da Universidade Católica Portuguesa. O Regulamento e a Ficha de Inscrição estão disponíveis no site do evento (aqui).

Internet e “autoridade do jornalismo”

Sugestão de leitura deste post de Jay Rosen: Audience Atomization Overcome – Why the Internet Weakens the Authority of the Press.

Rosen toma como referência o jornalismo político e a capacidade que já teve, mais do que hoje tem, de instituir uma “esfera do debate legítimo” (aqui o autor recorre à proposta de Daniel Hallin sobre as três esferas, que incluía ainda a esfera do consenso e a esfera do desvio).
Defende a ideia de que a novidade, hoje, nomeadamente com os blogues, é que um número maior de actores sociais já não depende da conexão (para cima) com os media e pode definir (em conexões para os lados) os termos da esfera de debate legítimo, não necessariamente coincidente com a dos jornalistas e outros opinion makers encartados.

Ricardo Costa: é assim que se entrevista?

A maioria dos comentários à entrevista do Primeiro Ministro à SIC centrou-se, naturalmente, nas afirmações do entrevistado. Mas, ao contrário de entrevistas entrevistaanteriores, em que os entrevistadores foram criticados por deixarem Sócrates “à vontade”, desta vez, a performance especialmente de Ricardo Costa foi objecto de leituras bastante díspares. Houve quem a considerasse um exemplo do que deve ser a atitude de um jornalista e quem a tomasse exactamente pelo oposto.
Em que ficamos, afinal? O que deve ser uma boa entrevista e um bom entrevistador, particularmente em televisão? Não será importante discutir o assunto?
Para já, aqui ficam alguns contributos:

EDUARDO CINTRA TORRES
“É certo que a SIC tem dias: por exemplo, a entrevista a Sócrates foi bem conduzida e as perguntas não ficaram por fazer. Mas esta é a SIC que vai cobrir o ano das três eleições. Não inspira confiança”.
(in Público, 10.1.2009)

SÃO JOSÉ ALMEIDA
“O que se passou foi que José Sócrates foi confrontado com uma atitude atenta, preparada e agressiva por parte dos dois jornalistas que conduziram a entrevista, Ricardo Costa e José Gomes Ferreira, atitude, essa sim, rara no jornalismo português.”
(in Público, 10.1.2009)

TIAGO BARBOSA RIBEIRO
“Um dos problemas do nosso jornalismo político é o exercício da política na condição de jornalista. E confundir contraditório e olhar crítico com discordâncias políticas não acrescenta propriamente muito a um debate parlamentar. Com a diferença, não negligenciável e independentemente do actor X ou Y, que o primeiro-ministro e os deputados foram eleitos para os cargos que ocupam”.
(in O País Relativo, 6 .1.2009)

MAGALHÃES E SILVA
“…lamento que a entrevista do primeiro-ministro à SIC vá ficar recordada pela ridícula e inqualificável agressividade dos entrevistadores, feitos menino Zequinha à compita pela maior grosseria, abrindo caminho, afinal, para que o entrevistado fizesse uma prestação televisiva de gabarito.(…) É tempo de grande parte dos nossos entrevistadores perceberem que não estamos nada interessados nas suas opiniões e que a sua função, à semelhança do psicanalista, é a de questionar tudo e de fechar todas as fugas – para que o escrutínio se possa fazer. Tudo, menos perder a serenidade e substituir-se ao psicanalisado, queria dizer, ao entrevistado”.
(in Correio da Manhã, 9.01.2009)

FERNANDO MADRINHA
Uma entrevista televisiva pode revelar-se tão assassina para quem responde como para quem pergunta. Por isso, custa a perceber que um entrevistador experiente e bem informado, como é Ricardo Costa, tenha caído na tentação de fazer de cada diálogo uma zaragata e de acompanhar cada pergunta de uma opinião pessoal que os telespectadores não lhe pediram — e na qual talvez não estivessem minimamente interessados naquele contexto. A noite pouco feliz de Ricardo Costa é um bom pretexto para se reflectir sobre as tentações do jornalismo justiceiro e a auto-regulação de que sempre falamos para contrapor aos excessos dos reguladores oficiais, que terão sempre tendência para o ataque censório. Se os próprios jornalistas não fizerem essa reflexão sobre o seu papel e o seu comportamento, alguém vai fazê-la por eles, mais tarde ou mais cedo e com consequências funestas, quer para a liberdade que tanto prezamos, quer para a prosperidade dos media”.
(in Expresso, 11.1.2009)

A cultura na RTP

“Nos noticiários de prime time [da RTP] nunca falham as reportagens e entrevistas sobre desporto. Mas os omnipotentes directores decidiram que não deve haver a mesma preocupação com coisas da cultura. Decidiram que são mal empregados os recursos e os poucos minutos exigidos para cobrir diariamente a estreia de um novo filme português, ou de uma peça de teatro, de uma ópera ou de um espectáculo de bailado, a publicação de um livro ou de um disco, a abertura de uma exposição, etc., etc. Omissões de que resultam grandes perdas para os agentes culturais – inclusive mensuráveis em valor económico -, e ainda maiores para o comum dos cidadãos”.
Mário Vieira de Carvalho in Público, 10.1.2009

O país da bola

Em ano de Euro2008, todos os dez programas com mais audiência nos canais portugueses de sinal aberto foram transmissões de jogos ou relacionadas com o futebol.
De acordo com os dados da Marktest, nos primeiros 15 lugares, apenas dois não estão ligados à bola. A TVI esmaga a concorrência, colocando 11 programas no top 15 e a RTP apenas um.

Jornalismo na Europa: Quem precisa de Regulação?

A Conferência ‘Jornalismo na Europa: Quem precisa de Regulação?’, promovida pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade e que terá lugar no dia 15 de Maio de 2009, no Auditório B1 da Universidade do Minho, tem agora o seu programa integralmente definido:

9h30: Sessão de Abertura
Manuel Pinto, Director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Universidade do Minho
Augusto Santos Silva, Ministro dos Assuntos Parlamentares
Denis McQuail, Prof. Jubilado da Universidade de Amesterdão
Helena Sousa, Presidente da Comissão Organizadora

11h00 Intervalo para café

11h30: Reflectindo sobre a Incerteza: Quadros de Referência para Pensar a Regulação
Josef Trappel, Coordenador do EuroMedia Research Group e Professor da Universidade de Zurique. «New Policy Paradigms in Times of Media Change?»
Jeremy Tunstall, Professor Jubilado da City University, Londres. «Self-Regulated Multi-platform Journalism: An Anglo Myth?»
Moderação – Elsa Costa e Silva, Investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade

13h00 Intervalo para almoço

15h00: Olhares Cruzados sobre as Práticas de Regulação em Portugal
Azeredo Lopes, Presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social
Alfredo Maia, Presidente do Sindicato de Jornalistas e Jornalista do Jornal de Notícias
Afonso Camões, Administrador da Global Notícias
Paquete de Oliveira, Provedor do Telespectador da RTP
Moderação – Joaquim Fidalgo, ex-provedor do Público e membro do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade

17h00: Sessão de Encerramento

Entrada livre.
Declaração de interesse: presido à Comissão Organizadora que integra outros membros deste blog (Manuel Pinto, Joaquim Fidalgo, Luís António Santos e Felisbela Lopes)

Estados Gerais da Imprensa (Fr) – Livro Verde

A iniciativa ‘Estados Gerais da Imprensa Escrita‘, lançada pelo presidente francês, Nicolas Sarkosy, em Outubro do ano passado, resultou na elaboração de um Livro Verde que acaba de ser formalmente entregue à ministra da tutela.
O trabalho pode ser consultado em partes…

  • Pôle I – Métiers du journalisme, aqui
  • Pôle II – Processus industriel, aqui
  • Pôle III – Presse et Internet, aqui
  • Pôle IV – Presse et société, aqui

…ou pode ser descarregado na totalidade.

Estão também disponíveis inúmeros documentos parcelares – aqui – que estiveram na base do detalhado processo de auscultações e debates (o trabalho envolveu 148 participantes –  49 jornalistas, 19 representantes da imprensa nacional, 18 representantes da imprensa local e regional e 27 representantes de revistas – ao longo de 72 reuniões).

Bloco de Notas do Google

O Google já disponibilizou há algum tempo a ferramenta do Bloco de Notas. No meio do incessante fluxo de novidades deve ter-me passado. Ultimamente venho descobrindo o grande interesse para quem quer guardar e gerir de forma expedita informação relevante encontrada na Internet.
Dado que tenho verificado o pouco conhecimento que há deste recurso, aqui ficam algumas dicas. Basta fazer o download de uma extensão. Na barra de status surge um pequeno ícone que, accionado quando se encontra uma dada página que nos interessa, regista o link, as imagens e textos que quisermos seleccionar. Os materiais recolhidos podem ser guardados em pastas temáticas e cada item ser classificado com um normal sistema de etiquetas.
Cada utilizador pode criar um ou vários cadernos de apontamentos online, geríveis e modificáveis a qualquer momento, os quais permitem organizar séries de itens, organizar informação, pesquisar, imprimir, etc.

A versão em português (do Brasil) está aqui.
Um pequeno guia de utilização: aqui e aqui.

Prémio nacional de jornalismo universitário

Estão abertas, até ao dia 20 de Março, as candidaturas ao Prémio Nacional de Jornalismo Universitário.
A ideia foi lançada por três estudantes e surge, no site criado para o efeito, em tom de desafio: “Se és estudante de Jornalismo e Comunicação este prémio é para ti. Para participares tens de apresentar uma reportagem em formato de Televisão, Rádio, Imprensa, Multimédia ou Fotografia.”

[Sugestão recolhida no PontoMedia]

“The New York Times”: mais cedo ou mais tarde…

“End Times”. Fim de The New York Times? É sobre esse cenário que Michael Hirschorn reflecte na revista The Atlantic deste mês. As finanças do jornal estão em estado crítico, a circulação recua, a publicidade desce (ontem mesmo começou a inserir anúncios na primeira página).
O registo – algo dramático – de Hirschorn pode ver-se neste trecho:

“Regardless of what happens over the next few months, The Times is destined for significant and traumatic change. At some point soon—sooner than most of us think—the print edition, and with it The Times as we know it, will no longer exist. And it will likely have plenty of company2.